Natalia Borges Polesso fala sobre literatura queer, ativismo, Amora e novos rumos da escrita brasileira
Entrevista aborda literatura queer, ativismo, sucesso de Amora e mudanças no cenário literário brasileiro atual
Por Kaio Phelipe
Autora de Recorte para álbum de fotografia sem gente, Controle, A extinção das abelhas, Condições ideais de navegação para iniciantes, Foi um péssimo dia e do clássico Amora, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti, Natalia Borges Polesso é uma das principais vozes da literatura contemporânea.
Na entrevista concedida à Mídia Ninja, Natalia fala sobre seu primeiro contato com a literatura queer, aborda a dimensão política e estética de narrar experiências LGBTQIAPN+, o lugar do ativismo na literatura, o sucesso de Amora e as transformações recentes do campo literário brasileiro, além de comentar o livro que está escrevendo.

Quando foi seu primeiro contato com a literatura queer?
Acho que meu primeiro contato com a literatura queer aconteceu sem que eu soubesse o que era literatura queer. Na época, eu não tinha essa referência. Curiosamente, esse primeiro contato veio por meio de obras de autores que não eram necessariamente queer, mas que criaram personagens que me chamavam a atenção.
Lembro, por exemplo, dos textos da Clarice Lispector, em que havia personagens com certa ambiguidade, ou das narrativas da Lygia Fagundes Telles, que também traziam figuras que me provocavam esse tipo de questionamento. Eu lia e ficava imaginando, me perguntando se aquelas personagens poderiam ser lésbicas.
Depois, sim, veio a Virginia Woolf, que talvez já se aproxime mais de uma literatura queer, embora eu ainda não tivesse essa consciência.
E teve um livro que me marcou muito, não necessariamente de forma positiva: O cortiço, do Aluísio Azevedo, especialmente pela relação envolvendo Pombinha e Léonie.
Você sempre escreveu personagens da comunidade LGBTQIAPN+?
Depois dessas personagens e desses interesses ainda não nomeados, comecei a buscar outras leituras.
Por exemplo, Orlando, da Virginia Woolf, foi uma obra que me marcou muito, porque traz uma personagem que transita não só no tempo, mas entre gêneros.
Mais tarde, encontrei a literatura do Caio Fernando Abreu e, para mim, foi um divisor de águas. A partir dele, comecei a entender como eu queria escrever e de que ponto de vista.
Meu primeiro livro, Recorte para álbum de fotografia sem gente (Dublinense), tem uma pegada mais lírica. Há elementos que podem ser lidos como queer, ou pelo menos como um questionamento de gênero, mas não é um livro abertamente queer. Na verdade, não é um livro de muitos personagens — são mais cenas. São recortes, como diz o título. E, nessas cenas, existe uma tensão que permite dizer que há personagens gays ou lésbicas.
A decisão de escrever uma literatura assumidamente queer, e até de refletir sobre como nomeá-la, veio com Amora (Dublinense). Acho que essa escolha já vinha se formando dentro de mim, no desejo de escrever essas personagens, mas o questionamento sobre a nomenclatura também surgiu de fora, a partir das perguntas que comecei a receber sobre estar escrevendo personagens lésbicas.

Escrever sobre a comunidade LGBTQIAPN+ é também uma forma de ativismo?
Acredito que toda arte, independentemente de como é feita, carrega um desejo de mostrar algo: a nossa visão de mundo e aquilo que queremos construir. Eu escrevo com perguntas para o mundo — e isso pode passar pela ideia de ativismo.
No meu caso, a partir do momento em que escolho trabalhar com personagens não apenas lésbicas, mas com uma multiplicidade queer, essa já é uma escolha política e passa, sim, pelo ativismo. Quero que essas personagens existam no livro, e isso me leva a explorar caminhos estéticos diferentes daqueles associados a personagens heterossexuais.
A vivência de uma pessoa lésbica ou queer produz outras formas de perceber e narrar a realidade, e tudo isso compõe o horizonte de pensamento em que quero me inserir dentro da literatura. Acho que isso é político e pode se tornar uma espécie de ativismo.
Ao mesmo tempo, não acredito que o ativismo aconteça apenas no momento da escrita. Depois de decidir o que vou escrever, fico preocupada com questões estéticas — o enredo, as composições. O ativismo se concretiza quando o livro é publicado e se torna algo para as pessoas leitoras.
Depois do sucesso de Amora, mudou a forma como o Brasil lê seus livros?
Amora completou dez anos em 2025. É um livro que caiu duas vezes no Enem e que segue sendo lido, vendido e celebrado. É o meu livro mais conhecido. Entrou para a lista dos 25 livros mais importantes do início deste século.
Há algo muito especial que acontece quando participo de feiras e eventos literários. As pessoas chegam até mim e falam, muito emocionadas, sobre como Amora mudou a forma como elas se enxergam ou como enxergam os outros.
Não posso dizer que o país mudou a forma como me lê, mas esses encontros indicam que é um livro importante, tanto em nível pessoal quanto em um nível mais amplo.
É um livro que gerou muita crítica e muito trabalho acadêmico. Então, sinto que as pessoas têm certa generosidade com ele.
Agora, falando como pesquisadora: quando Amora ganhou o Prêmio Jabuti, comecei a ser muito perguntada sobre minhas referências de literatura, especialmente de literatura escrita por mulheres lésbicas e por pessoas LGBTQIAPN+. Eu até tinha algumas referências, mas não eram muitas.
Então, comecei a pesquisar essa literatura escrita por mulheres. É um projeto que se chama “Geografias lésbicas”, que começou com 25 autoras e terminou com mais de 500, em um espaço de dois anos, entre 2018 e 2020. Dessas 500, mais de 300 eram brasileiras — e muitas contemporâneas.
Amora abriu uma porta de pesquisa e de entendimento do mundo literário que me fez pensar em como há muita gente escrevendo coisas diversas — e por que essas pessoas não estão sendo lidas, por onde estão publicando, como estão sendo publicadas. Isso me levou a desenvolver uma espécie de ativismo voltado à divulgação de outras escritoras e autorias.
Acho que o mundo literário mudou muito nos últimos dez anos e, mais especificamente, nos últimos cinco, em relação às questões de diversidade — não só queer, mas também raciais e geográficas.
Ainda não é o cenário ideal, como mostram os dados da pesquisa da professora Regina Dalcastagnè sobre o perfil dos autores e das personagens. Não é algo que mudou completamente, mas já encontramos transformações substanciais.
E essa mudança precisa se manter e avançar em todas as esferas da literatura: crítica, leitura, editoras, personagens. Todo o sistema literário precisa continuar refletindo sobre isso, porque precisamos de diversidade significativa.
Costuma-se ver alguns críticos falando com desdém sobre pautas identitárias na literatura. Mas a questão é que não são “pautas identitárias” — são novas estéticas emergentes, novos modos de construir personagens e cenários, novos atravessamentos. E isso também precisa ser reconhecido como processo de crescimento e expansão da diversidade no campo literário.
Ainda existe resistência do mercado editorial em relação a narrativas LGBTQIAPN+?
Não. Acho que a literatura queer, falando de forma bem mercadológica, é um nicho bastante grande.
Há uma escritora baiana, bem jovem, chamada Elayne Baeta, que é um fenômeno literário. Ela escreve sobre mulheres lésbicas. Há também uma enorme quantidade de autores e autoras queer no nicho young adult. Então, como nicho lucrativo, não haveria motivo para resistência do mercado.
Mas existe algo estruturante na nossa sociedade — o preconceito, a homofobia, a transfobia — que acaba interferindo em tudo. Não necessariamente como violência física, mas como desvalorização da experiência, como se não pudesse ser matéria literária.
Pessoalmente, nunca tive problemas em apresentar personagens lésbicas ou queer. Todos os meus livros, depois de Amora, têm personagens da comunidade LGBTQIAPN+. As pessoas podem estranhar essa presença, e eu respondo: “qual é o problema?”.
Acabei de publicar um ensaio chamado Lésbicas no fim do mundo: uma proposta para composição de novos imaginários, em que desenvolvo melhor essa reflexão.
Entendo que isso tem mais a ver com a estrutura da sociedade do que com o mercado editorial. Há um incômodo com as marcações identitárias, e isso vem sendo debatido há bastante tempo.
Algumas pessoas questionam a recorrência de personagens queer, perguntam sobre a necessidade de falar disso novamente. Mas são temas que estão presentes todos os dias na minha vida — e na vida de todo mundo. Basta prestar um pouco mais de atenção.
Existe uma tentativa de retomar a ideia de uma literatura “universal”, mas uma coisa não exclui a outra — pelo contrário, torna a outra mais complexa.
Há um livro muito bom, lançado em 2025, da Dionne Brand, chamado Salvamento: leituras do naufrágio (Zahar). Ela, uma autora negra e lésbica, discute estética e construção literária, e como, ao começarmos nossa formação como leitores, não temos referências negras ou queer.
Você me perguntou quando tive contato com a literatura queer pela primeira vez — e eu não sei. Tudo o que me foi apresentado durante minha formação não dizia nada sobre ser queer. É uma referência que acabamos construindo sozinhas.
Muitas pessoas acham que falar desses temas não é falar de literatura. E, no livro da Dionne, ela mostra que é, sim, sobre literatura — sobre construções estéticas que desenvolvem outros olhares para o mundo. Tudo isso traz mais complexidade à vida.

Quais são seus próximos projetos?
Comecei a escrever um livro durante a pandemia, mas interrompi o processo. Nesse meio-tempo, retomei e finalizei um projeto anterior: o livro de contos Condições ideais de navegação para iniciantes (Companhia das Letras), que eu já vinha escrevendo antes da pandemia, e uma novela de autoficção, Foi um péssimo dia (Dublinense).
Agora, voltei a trabalhar no livro que havia abandonado. Acredito que ele será publicado apenas em 2027 ou 2028.
O livro se chama Penélope obscura e vai tratar de devastação ambiental, mineração, inteligência artificial e também de uma espécie de devastação mental.
O título vem do nome científico do jacu, um pássaro bastante presente na região de Minas Gerais, onde morei por dois anos. No romance, uma das personagens tem fixação por pássaros.



