Por Guanayra Firmino

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No calendário afetivo e espiritual do Brasil, poucas datas são tão potentes quanto o 23 de abril. O Dia de São Jorge não é apenas uma celebração religiosa: é um retrato vivo da identidade cultural brasileira, especialmente no Rio de Janeiro, onde a fé ganha as ruas, as quadras de samba, os terreiros e os lares. Velas acesas, alvoradas com fogos, feijoadas, missas e giras compõem um mosaico de devoção que atravessa classes sociais, crenças e territórios.

Celebrar São Jorge é, acima de tudo, celebrar a resistência. A figura do santo guerreiro, conhecido por sua coragem e pela luta contra o dragão, mobiliza milhares de fiéis todos os anos. As igrejas ficam lotadas e as ruas se transformam em espaços de fé compartilhada, numa demonstração coletiva de esperança e proteção. Mas, no Brasil, essa celebração vai além do catolicismo: ela carrega a força do sincretismo religioso, uma das marcas mais profundas da nossa formação cultural.

É impossível falar de São Jorge sem falar de Ogum. No sincretismo afro-brasileiro, especialmente na umbanda e no candomblé, o santo católico é associado ao orixá guerreiro, senhor do ferro, da tecnologia e dos caminhos. Essa ligação não é casual, mas fruto de um processo histórico de resistência: pessoas negras escravizadas, impedidas de cultuar suas divindades, encontraram nos santos católicos uma forma de preservar sua espiritualidade. Assim, São Jorge e Ogum passaram a coexistir no imaginário popular, compartilhando símbolos como a espada, a batalha e a proteção.

No Rio de Janeiro, essa fusão ganha contornos ainda mais intensos. A cidade incorporou o sincretismo como linguagem cotidiana, onde fé e cultura caminham juntas. Ogum não é apenas reverenciado nos terreiros, mas também nas letras de samba, nos desfiles das escolas e na vivência do povo. Trata-se de uma espiritualidade que não se limita ao sagrado institucional, mas que se manifesta na vida, na luta cotidiana e na busca por caminhos abertos.

É nesse ponto que o Carnaval também entra como extensão dessa narrativa simbólica. O enredo da minha Estação Primeira de Mangueira para 2027, “Oyá por nós”, que homenageia a orixá dos ventos e das tempestades, aponta para um aprofundamento dessas conexões ancestrais. Oyá, também conhecida como Iansã, carrega em sua mitologia uma relação marcante com Ogum, com quem compartilhou caminhos, batalhas e afetos. Se Ogum representa a abertura dos caminhos e a força do enfrentamento, Oyá simboliza o movimento, a transformação e a força dos ventos que anunciam mudanças.

Esse paralelo entre São Jorge/Ogum e Oyá revela algo maior: a continuidade de uma tradição que transforma a fé em narrativa coletiva. O Carnaval, assim como o Dia de São Jorge, também é espaço de memória, resistência e afirmação cultural. Ao levar Oyá para a avenida, a Mangueira não apenas celebra uma orixá, mas reafirma a centralidade das matrizes africanas na construção do Brasil, as mesmas que, por séculos, encontraram no sincretismo uma estratégia de sobrevivência.

Celebrar São Jorge, portanto, é muito mais do que reverenciar um santo. É reconhecer a força de um povo que soube reinventar sua fé diante da opressão. É entender que, no Brasil, especialmente no coração carioca, religião não é divisão, é encontro. E nesse encontro, Ogum segue abrindo caminhos, enquanto Oyá sopra novos ventos, lembrando que a fé, assim como a história, está sempre em movimento.

Guanayra Firmino é a atual presidenta da Estação Primeira de Mangueira. Cria do Morro da Mangueira, iniciou sua trajetória aos 17 anos como vice-presidente da associação de moradores. Ela atua nos bastidores e na diretoria da Escola durante vários mandatos, e conduz a Verde e Rosa valorizando os talentos da comunidade.