Por Nicole Adler

O novo álbum Ladeiras de Santa Teresa, de Antonio Neves e Thiaguinho Silva, marca o encontro entre dois músicos formados na tradição instrumental brasileira e conectados pela vivência no Rio de Janeiro. O projeto, que inaugura uma trilogia, parte de referências do samba-jazz para construir uma sonoridade contemporânea, combinando arranjos de sopro e uma rítmica “à la carioquês”.

Nesse contexto de liberdade e improviso, o movimento do álbum e o de Santa Teresa parecem se sintonizar entre subidas e descidas íngremes, curvas e encontros muitas vezes marcados pelo acaso. Em entrevista — realizada, não por coincidência, em Santa Teresa, para falar sobre o bairro e um álbum inspirado em suas ladeiras — os músicos comentaram suas influências, seus processos de criação, a relação afetiva com o território, entre outras questões que atravessam o disco.

Dupla Neves e Silva nas ladeiras de Santa Teresa. Foto: Mateus Augusto Rubim

Antonio Neves e Thiaguinho Silva: os músicos por trás do disco

Apesar da concretização do encontro entre os dois músicos, que compartilham um lugar comum dentro da música instrumental brasileira, cada um tem influências e vivências próprias que, inclusive, ajudam a justificar essa aproximação. No caso de Antonio Neves — carioca, filho do saxofonista Eduardo Neves e nome expressivo da nova geração da música instrumental brasileira —, sua trajetória é marcada pela multiplicidade: baterista, trombonista, arranjador e compositor, transitando com naturalidade entre funções e linguagens.

Essa facilidade de adaptação — presente também em Thiaguinho — é citada por Antonio a partir do conceito de “fluência”, que, para ele, não diz respeito apenas à técnica, mas a uma escuta ampla que leva em conta o “sotaque” de cada tradição. “Eu me lembro quando meu pai queria que eu fosse baterista. Então ele sempre falava: ‘você tem que ser fluente em todos os estilos’. Eu sei que isso é impossível, mas você está sempre ouvindo coisas diferentes, tentando entender como é feito na cultura daquele país, daquele subgênero, de uma música, de um determinado lugar”, afirma.

Thiaguinho Silva parte da mesma ideia de “fluência”, tendo construído uma identidade rítmica própria. Filho do baterista Robertinho Silva, ele também cresceu imerso em um ambiente musical intenso. Sua trajetória é marcada por uma forte ligação com o groove e com os “sotaques” da música brasileira, especialmente o samba, ao mesmo tempo em que dialoga com outras vertentes e práticas contemporâneas.

Ambos possuem carreiras solo consolidadas: Neves com trabalhos autorais como os discos A Pegada Agora É Essa (2021) e De Las Nieves (2025); já Silva com o EP A Bateria Brasileira de Thiaguinho Silva (2021) e formações coletivas como o Pão na Chapa Samba Trio — trabalho ao lado de músicos como Luiz Otávio e Guto Wirtti, no qual exploram o samba instrumental. Foi nesse contexto de trajetórias já consolidadas que o encontro entre os dois ganhou força durante a pandemia e, a partir dessa aproximação, a parceria se desenvolveu de forma orgânica, baseada na afinidade musical e pessoal, dando origem ao processo criativo que se materializa neste projeto conjunto.

As Ladeiras de Santa Teresa de Neves e Silva

O disco é um trabalho de música instrumental que reúne diferentes formações, músicos e camadas de produção atravessadas pelo universo dessa união entre o jazz e a música brasileira. O álbum tem como núcleo criativo Antonio Neves, no trompete e bateria, e Thiaguinho Silva na percussão, responsáveis por conduzir a direção musical do projeto.

Além disso, conta com a participação do rapper JOCA e uma formação que inclui Luiz Otávio no piano, Oswaldo Lessa no sax tenor, Guto Wirtti no baixo e guitarra e Eduardo Santana no trompete. A gravação foi realizada por Marcelinho da Lua no Estúdio Tranquilo Soundz, com exceção dos sopros de algumas faixas, registrados por Angelo Wolf no Estúdio Wolf Records. A mixagem ficou a cargo de Kassin, enquanto a masterização foi assinada por Arthur Luna.

A publicação do disco ficou por conta da gravadora Far Out Records, que já mantém uma relação antiga com os músicos, tendo lançado não só o segundo álbum de Antonio, como também um trabalho da mãe de Thiaguinho com participação de Hermeto Pascoal. O selo, baseado em Londres, é descrito por Antonio Neves como “especializado em música brasileira”, responsável por lançar nomes como Azymuth e Marcos Valle. Neves e Silva destacam ainda o papel da Far Out como agente de circulação e distribuição internacional, ampliando o alcance das obras brasileiras.

Com seis faixas — “Das Neves”, “Romenia”, “Fendas Vocais”, “Morro dos Prazeres”, “Viagem de Trem (part. JOCA)” e “Misericórdia” —, o foco sonoro do disco é o samba-jazz, gênero consolidado no Brasil a partir das experiências da bossa nova e da música instrumental dos anos 1960. Entre as referências citadas por Neves e Silva estão Édison Machado, Wilson das Neves, J.T. Meirelles, Milton Banana, Sambrasa Trio, Sérgio Mendes e Tamba Trio, entre outros que ajudaram a consolidar essa linguagem.

Na reinvenção do samba-jazz proposta pela dupla, isso aparece principalmente na forma como deslocam o gênero de um imaginário mais “histórico” para uma prática atravessada pelo presente do Rio de Janeiro. Em vez de uma reconstrução de época, há uma recusa desse lugar fixo, tanto musical quanto estético. Como coloca Thiaguinho: “eu, por exemplo, penso que não quero tocar samba-jazz vestindo sapato e calça como se estivesse nos anos 60 […] eu gosto de usar boné, gosto de hip-hop, gosto de uma música que é muito mais perto de agora.”

Essa concepção desloca o samba-jazz de um passado “engomado” e o inscreve em uma experiência em que o gênero convive com referências do hip-hop, da cultura urbana e de uma identidade visual que recusa a ideia de um “personagem do passado”. Eles percebem essa tensão entre tradição e presente na própria mudança de códigos no ambiente do jazz, onde, como observa Thiaguinho, “antigamente tinha protocolo e conservadorismo”, enquanto hoje “a gente tá em outro mundo”.

Ultrapassando a questão da vestimenta, isso se evidencia também na participação de JOCA no disco. O encontro acontece a partir de uma rede de relações já em circulação no meio musical, especialmente em colaborações anteriores, até que se percebeu que “ia rolar uma afinidade com o Jorge”, como descreve Neves, o que foi determinante para o convite na faixa “Viagem de Trem”.

Para Antonio, essa aproximação não é novidade na história da música: “o próprio Miles Davis, no final ali de Doo-Bop (1992), já fazia essa fusão”, situando a faixa dentro de uma tradição mais ampla de experimentação. A síntese dessa colaboração aparece na ideia de que “o freestyle do rapper também é como se fosse um instrumento improvisando ali na hora”, aproximando diretamente a lógica do rap da conduta jazzística.

A própria capa do álbum, produzida pelo artista Pedro Pessanha, reforça essa estética da urbanidade. Com uma linguagem “quadrinística”, ele transforma Thiaguinho e Antonio em personagens, destacando traços marcantes — como o boné de Silva e a clássica regata de Neves. A composição parte de uma perspectiva específica do Largo dos Guimarães, capturando um dos ângulos reais do espaço e convertendo-o em imagem gráfica.

Capa do álbum “Ladeiras de Santa Teresa” produzida por Pedro Pessanha. Foto: Divulgação

E, além da identidade visual construída no trabalho de arte do álbum, a própria imagética dos músicos sobre o conceito e a sonoridade do disco é significativa. Neves descreve a atmosfera do projeto a partir de uma cena quase onírica, imaginando “o Wilson das Neves no Lago das Neves no fim de tarde, vestido de branco, daquele jeito dele”, enquanto Silva amplia essa dimensão visual ao projetar o disco em performance, propondo a ideia de “um show nosso no Largo das Neves, seis horas da tarde, tocando ‘Misericórdia’, com a igreja atrás e a galera assistindo”.

O bairro que atravessa o disco: Santa Teresa como ponto de partida e ponto de chegada

Localizada na região central do Rio de Janeiro, Santa Teresa é um dos bairros mais tradicionais e simbólicos da cidade, conhecido por suas ruas estreitas e pelas ladeiras que delineiam as múltiplas subidas e descidas que dão acesso ao local. Esse percurso urbano é atravessado pelo bondinho que liga o bairro ao centro da cidade, em um trajeto que se desdobra em pontos tradicionais de parada, como o Largo da Carioca, o Largo dos Guimarães, o Largo do Curvelo e o Largo das Neves. O bondinho funciona, também, como um elemento vivo da memória urbana do Rio, atravessando os Arcos da Lapa e conectando diferentes camadas históricas da cidade.

Bondinho de Santa Teresa no Largos dos Guimarães em Santa Teresa (RJ). Foto: Mateus Augusto Rubim

A arquitetura do bairro acompanha essa lógica de sobreposição temporal, com antigos casarões preservados convivendo na mesma ambiência de construções mais recentes. A atmosfera de Santa mistura história, boêmia e vida cultural, consolidando-se ao longo das décadas como ponto de encontro de artistas plásticos, músicos e intelectuais — entre bares, casas de cultura e ateliês —, o que ajuda a entender por que o jazz e a música instrumental encontraram ali um espaço tão orgânico de permanência.

Na fala dos músicos, Antonio Neves e Thiaguinho Silva, a cena musical de Santa Teresa não aparece como algo recente ou pontual — associado, por exemplo, ao surgimento do novo Indecente Café, onde Antonio toca toda quarta-feira em parceria com outros músicos —, mas como uma continuidade feita de lugares e encontros ao longo dos anos. Antonio Neves lembra do amadurecimento constante dessa cena ao descrever uma rede já antiga de espaços e práticas: “Na verdade, essa cena já existe há um tempo. Por exemplo, o chorinho daqui de segunda-feira (no Bar do Serginho) se chama chorinho, mas eles tocam músicas de vários lugares do mundo”, e acrescenta, citando também o antigo Bar do Marcô, que tinha jazz cigano na programação.

Thiaguinho Silva amplia essa perspectiva ao citar também o Parque das Ruínas, que ocupa o antigo casarão da mecenas Laurinda Santos Lobo e hoje funciona como centro cultural e mirante no alto de Santa Teresa. De acordo com o músico, o espaço recebia uma série de festivais e eventos da prefeitura, “trazendo música instrumental brasileira e até outras coisas com cantores e grupos de choro, orquestras etc.”

Dessa forma, escutar Ladeiras de Santa Teresa é se conectar com um amplo tecido de memórias, subidas, descidas e encontros que não se limitam ao som, mas se expandem pela própria geografia afetiva e histórica do bairro. O álbum transforma esse território em uma espécie de linguagem sonora e, mais do que um registro musical, se apresenta como uma escuta do próprio espaço.