Por Hyader Epaminondas

Com sessão especial no Cine LT3, o cinema de rua cravado na malha urbana de Perdizes pareceu se dissolver por algumas horas, como se suas paredes absorvessem a maresia imaginária e devolvessem ao público a sensação de estar à deriva numa pequena vila de pescadores, com a presença do diretor Aly Muritiba.

“Barba Ensopada de Sangue” ganhou ainda mais densidade após o bate-papo com o diretor e o processo de como foi desenvolver uma obra sobre ruídos, não o som evidente das coisas, mas essa interferência constante que embaralha memórias, contamina relatos e corrói qualquer possibilidade de verdade quando atravessada pelo trauma familiar.

Adaptando o romance de Daniel Galera, a narrativa se ancora em uma investigação que nunca se organiza completamente, porque nasce de relatos fragmentados, versões contraditórias e silêncios herdados. A própria cidade litorânea, completamente tingida pelo azul denso do oceano e atravessada por uma brisa marítima que nunca cessa, parece existir sob uma espécie de suspensão permanente, como se estivesse submersa em sua própria memória.

A vila de pescadores funciona como um organismo vivo que respira histórias, mas também as deforma, salgando cada lembrança até torná-la irreconhecível. O mar não apenas cerca, ele infiltra, corrói e reescreve tudo, transformando fatos em lenda e lenda em algo turvo, instável, impossível de verificar, como se toda verdade ali estivesse condenada a se dissolver na mesma água que a sustenta.

Esse movimento se reflete diretamente na forma como o filme desenvolve sua própria linguagem. Muritiba dirige o suspense como quem devorou o livro e absorveu toda a história a ponto de contar, com suas próprias palavras, os acontecimentos do livro de forma livre, entendendo que a tensão aqui não nasce da aceleração, mas da permanência. Mesmo com uma trama deliberadamente lenta e um ritmo que evoca o cotidiano de cidades do interior, onde os dias parecem se alongar muito além do tempo das áreas urbanas, o filme consegue se manter interessante até o desfecho.

Há um controle preciso de atmosfera, onde cada silêncio, cada pausa e cada deslocamento do protagonista contribuem para uma sensação contínua de inquietação. É nesse espaço que o filme começa a desenhar seus símbolos com mais força, especialmente na relação com o mar e com as baleias, antes como caça e agora como memória afetiva de um tempo que não volta mais como elemento físico daquele litoral, mas como uma espécie de mito local que atravessa gerações. A baleia carrega esse duplo sentido de presença concreta e também narrativa, algo que é visto, contado e recontado, sempre um pouco diferente.

Assim como as histórias de pescador que circulam pela cidade, ela se torna um ponto de convergência entre experiência e invenção, reforçando esse ciclo de desinformação, onde ninguém mente exatamente, mas ninguém também diz a verdade por completo. O que o filme diz é que essas histórias não existem para esclarecer, mas para preencher o vazio, o mesmo vazio que move o protagonista.

Há também uma dimensão quase ritualística nesse imaginário, o mar passa a funcionar como uma espécie de arquivo vivo, onde tudo é depositado, mas nada é realmente recuperado em sua forma original, e isso tem uma ligação com o final do filme para amarrar as pontas soltas da história. Cada mergulho carrega essa tentativa de acessar algo que está sempre fora de alcance. A cena do mergulho com a baleia encarando nosso protagonista surge como uma presença fantasmagórica, um corpo imenso que simboliza tanto o peso da memória quanto a impossibilidade de compreendê-la por completo.

Foto: Divulgação

O corpo em busca de si: atuação e o vazio como motor

E aí entra Gabriel Leone, em um papel completamente diferente do usual, que surpreende justamente por entender que esse vazio é o verdadeiro motor do personagem com excelência. Leone trabalha no campo do que não se verbaliza, sustentando uma presença que parece sempre deslocada daquilo que está acontecendo ao redor, em constante atrito com os nativos interpretados por Thainá Duarte, como o par romântico e aquela que, a princípio, oferece acolhimento a essa alma que perambula completamente perdida pelos próprios traumas.

Perdido, ele se move por uma investigação que, no fundo, não busca respostas objetivas, mas algum tipo de reconhecimento de si mesmo dentro desse emaranhado de narrativas fragmentadas. Até a entrada da maravilhosa Teca Pereira, que, mesmo com pouco tempo de tela, surge para reorganizar as peças do quebra-cabeça, oferecendo sublimação mais do que necessária para essa alma que já sofreu demais.

O corpo do protagonista está sempre em tensão, como se carregasse uma memória que não lhe pertence completamente, mas da qual não consegue escapar. Um corpo que absorve o mundo sem conseguir devolvê-lo em linguagem. A incapacidade de reconhecer rostos amplia ainda mais essa sensação de deslocamento, criando um personagem que não apenas duvida do mundo ao redor, mas também da própria possibilidade de conexão com ele. É um detalhe que deixa de ser apenas uma condição e passa a operar como metáfora para esse universo onde tudo é instável e nada se fixa.

“Barba Ensopada de Sangue” não está interessado em solucionar seu mistério, mas em expor o quanto ele é insolúvel. O suspense existe, mas nunca se concretiza da maneira esperada, porque o verdadeiro conflito está na impossibilidade de reconstruir uma verdade a partir de fragmentos tão contaminados.

O filme de Aly Muritiba prefere permanecer nesse estado de suspensão e faz isso com excelência, onde a obra original de Daniel Galera se reconfigura, como uma história de pescador que se transforma a cada nova versão. Onde cada resposta abre uma nova dúvida e cada narrativa revela mais sobre quem conta do que sobre o que realmente aconteceu. É um cinema que se constrói na ausência, na falha e naquilo que escapa.