No momento em que Brasília se prepara para uma audiência pública crucial na próxima terça-feira (14), olhar pelo retrovisor da epidemia é mais que um exercício de memória: é uma estratégia para implementar políticas que visem erradicar a transmissão do HIV. A Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados pauta, sob requerimento da deputada Duda Salabert (PSOL-MG), a inclusão do Lenacapavir ao sistema público — um fármaco que representa a nova fronteira tecnológica do cuidado.

A discussão se ancora na eficácia de quase 100% verificada em ensaios clínicos para a profilaxia pré-exposição (PrEP). Aplicado por via subcutânea a cada seis meses, o medicamento substitui a ingestão diária de comprimidos por apenas duas intervenções anuais, alterando a logística de adesão, sobretudo para populações que enfrentam barreiras estruturais, violência institucional e exclusão social. Para Duda Salabert, o debate é decisivo: “O fim da AIDS pode estar mais próximo do que nunca. O Lenacapavir tem mostrado resultados surpreendentes, mas sua incorporação ao SUS depende do preço ofertado. Queremos colocar todos na mesma mesa para discutir como esse medicamento chegará a quem mais precisa”.

Atualmente, o custo de mercado gira em torno de US$ 42,2 mil anuais por pessoa, mas estudos indicam que a produção de genéricos em larga escala poderia reduzir esse valor para cerca de US$ 40 — um patamar próximo ao da PrEP oral já distribuída no Brasil. A audiência se desenha, assim, como um espaço de mediação entre o Estado, a detentora da patente e instituições como a Fiocruz, buscando assegurar que o avanço biológico caminhe em paralelo à soberania nacional. O esforço é para que o pioneirismo brasileiro, consolidado em 1996 com a Lei 9.313 de acesso universal, deixe de ser apenas um registro histórico e se converta, novamente, em prática de vanguarda.

O Grito Silencioso do Marco Zero

Essa urgência política em Brasília é o capítulo mais recente de uma história que começou silenciosamente. Embora o imaginário coletivo situe o início da crise nos anos 80, o vírus já percorria a história: o primeiro caso confirmado retroativamente remonta a 1959, em Kinshasa, no Congo (então colônia belga), revelando que o HIV também é um subproduto de dinâmicas globais de exploração.

Contudo, foi em 5 de junho de 1981 que o CDC reportou uma pneumonia atípica em cinco jovens em Los Angeles, batizando um pânico que rapidamente cruzaria fronteiras. No Brasil, o impacto foi imediato: o primeiro caso registrado ocorreu em 1980, em São Paulo, identificado retrospectivamente. O país, que vivia os estertores da ditadura, viu-se precocemente como um epicentro da doença na América Latina, o que forçou a sociedade civil a buscar alternativas diante de estímulos estatais ainda incipientes.

A Era do Desespero e o “Contrabando” da Vida

Nos anos 80 e início dos 90, o diagnóstico era uma sentença de morte. Diante da lentidão burocrática e dos preços elevados dos primeiros fármacos, formou-se uma rede de solidariedade paralela. A série documental O Canto dos Exilados e a obra do ativista Herbert Daniel detalham como funcionários de companhias aéreas e militantes transportavam AZT e outros medicamentos do exterior de forma ilegal.

Recentemente, a série Máscaras Cairão Automaticamente (HBO) trouxe uma representação ficcional desse cotidiano de desobediência civil, que emergiu como resposta direta ao descaso estatal. Era uma resistência biopolítica: enquanto o Estado se omitia, redes de afeto e militância operavam uma logística clandestina para garantir a sobrevivência de amigos e parceiros.

Evolução Técnica: do AZT à Terapia Antirretroviral

A aprovação do AZT (zidovudina), em 1987, encerrou o período de ausência de respostas, embora o fármaco apresentasse alta toxicidade. Originalmente desenvolvido para o tratamento do câncer, o AZT é um inibidor da transcriptase reversa nucleosídeo (ITRN), que interrompe a enzima responsável por converter o RNA viral em DNA. Esse bloqueio buscava impedir que o HIV se integrasse à célula T-CD4, mas a rápida mutação do vírus gerava resistência quando a droga era utilizada de forma isolada.

A grande virada ocorreu em 1996, com a introdução da Terapia Antirretroviral Altamente Eficaz (HAART), o chamado “coquetel”. Ao combinar diferentes classes de drogas, como os inibidores de protease, a ciência passou a barrar a maturação de novas partículas virais, transformando o HIV em uma condição crônica manejável. Hoje, essa evolução consolidou o conceito Indetectável = Intransmissível (I=I). Com a carga viral indetectável, o risco de transmissão sexual é eliminado, transformando o tratamento na mais potente ferramenta de prevenção coletiva — e fundamentando a meta atual de erradicação que agora, em Brasília, ganha um novo e decisivo fôlego.