O Rio de Janeiro é, ao mesmo tempo, vitrine e ferida aberta do Brasil. Uma cidade marcada por sua potência cultural, sua força popular e sua capacidade histórica de reinvenção, mas também atravessada por desigualdades profundas, violências cotidianas e um modelo de desenvolvimento que insiste em excluir exatamente aqueles e aquelas que sustentam a vida nos territórios.

Falar sobre o presente do Rio exige honestidade: vivemos uma crise que não é apenas de segurança pública, mas de projeto de cidade. A militarização das favelas e periferias, a ausência de políticas públicas estruturantes e a naturalização da morte de jovens — sobretudo negros — revelam um pacto social falido. O que está em disputa não é apenas o controle territorial, mas o direito à vida, à dignidade e ao pertencimento.

A política de segurança, historicamente baseada no confronto, tem produzido ciclos contínuos de violência. Operações policiais em territórios populares interrompem rotinas, fecham escolas, silenciam vozes e deixam marcas irreparáveis nas famílias. Ao mesmo tempo, o Estado que chega com força repressiva é o mesmo que falha em garantir acesso à educação de qualidade, à saúde, à cultura, à mobilidade e a oportunidades reais de futuro.

Mas reduzir o Rio à violência é também um erro e, de certa forma, uma injustiça. Há um outro Rio pulsando, organizando-se, criando alternativas. Nas favelas e periferias, mulheres e jovens constroem redes de solidariedade, iniciativas de educação popular, comunicação comunitária e estratégias de sobrevivência que, muitas vezes, substituem o próprio Estado. Esse é o Rio que resiste, que pensa e que propõe.

O futuro do Rio de Janeiro passa, necessariamente, por reconhecer esses sujeitos como protagonistas — não como beneficiários passivos de políticas, mas como formuladores de soluções. É impossível falar em democracia real sem incluir os territórios populares no centro das decisões. Não há saída sustentável sem investimento em formação política, fortalecimento comunitário e ampliação do acesso à informação de qualidade.

A disputa pelo futuro também é uma disputa de narrativa. Durante muito tempo, as favelas foram retratadas apenas como espaços de carência. Hoje, é urgente afirmar esses territórios como espaços de potência, produção de conhecimento e inovação social. Isso não significa romantizar a precariedade, mas reconhecer que as soluções mais eficazes muitas vezes nascem de quem vive o problema diariamente.

Além disso, pensar o futuro do Rio exige enfrentar desigualdades estruturais que atravessam raça, gênero e classe. As mulheres — especialmente as mulheres negras — são a base invisibilizada da sustentação social nas periferias. Investir nelas é investir em redes inteiras de cuidado, educação e transformação. Ignorá-las é perpetuar ciclos de exclusão.

O desafio que se coloca é construir um novo pacto para a cidade — um pacto que substitua a lógica do confronto pela lógica do cuidado; que troque a ausência por uma presença qualificada do Estado; que reconheça que segurança pública não se faz apenas com armas, mas com direitos garantidos.

O Rio de Janeiro sempre foi símbolo. Hoje, pode ser também um laboratório de reconstrução democrática — desde que haja coragem política para romper com modelos fracassados e escuta ativa dos territórios.

O futuro do Rio não está dado. Ele está sendo disputado todos os dias — nas ruas, nas escolas, nas associações, nos coletivos, nas vozes que insistem em não se calar.

E, se há um caminho possível, ele passa, inevitavelmente, pelas mulheres e juventudes dos territórios populares. Porque são elas e eles que, mesmo diante da ausência, continuam produzindo vida, sentido e futuro.