Por Priscila Viana

O ano de 2024 foi traumático para todo o Rio Grande do Sul: os impactos das enchentes ainda ressoam em milhares de vidas e as memórias se entremeiam entre o luto e a esperança de recomeçar uma nova vida. 

As enchentes de 2024 ficaram marcadas como o maior desastre natural da história do território gaúcho, com chuvas de duração, intensidade e abrangência territorial jamais observadas no Brasil. Cerca de 2,4 milhões de pessoas em 478 municípios foram impactadas, contabilizando 183 mortes e prejuízos econômicos estimados na casa dos bilhões de reais, segundo levantamento da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). 

Em tragédias com essa magnitude, a garantia de condições essenciais à vida humana, como saúde e alimentação, fica abalada. Em contraponto ao cenário de intensificação de agravos relacionados à saúde e à insegurança alimentar, iniciativas de solidariedade se ramificaram por todo o país, como um pé de maracujá bem adubado, fortalecendo a agricultura familiar e garantindo a presença de comida de verdade nas mesas de quem enfrentava a incerteza de ter o que comer.

Um desses ramos de solidariedade brotou no Núcleo Solidário da Rede Ecovida de Agroecologia, voltado à destinação de alimentos para famílias em situação de vulnerabilidade. Com o apoio da Fundação Banco do Brasil e da Organização Socorro Popular Francês, as organizações do Núcleo Solidário conseguiram conectar a produção de alimentos de cooperativas da agricultura familiar com a demanda identificada junto a diferentes grupos sociais do Litoral Norte do Rio Grande do Sul (RS) e Zona Metropolitana de Porto Alegre.

Iniciativa de solidariedade reúne alimentos de cooperativas da agricultura familiar para pessoas em situação de vulnerabilidade. Foto: Gustavo Martins/ANAMA

Logo, uma grande operação logística de cooperação garantiu que alimentos agroecológicos chegassem a diferentes pontos de acolhimento de Porto Alegre, onde estavam alojadas milhares de pessoas atingidas pelas enchentes.

Comida de verdade para quem mais precisa

Numa primeira ação, o Núcleo Litoral Solidário da Rede Ecovida conseguiu levar cerca de 3 toneladas de alimentos a 90 famílias de aldeias indígenas Guarani da Região Metropolitana de Porto Alegre, além de 2,7 toneladas às Cozinhas Solidárias de Emergência do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) da capital gaúcha. Entre os alimentos arrecadados e levados pela Rede Ecovida estão: aipim, batata doce, abóbora e erva mate, itens que compõem e fortalecem a cultura alimentar dos povos originários. 

De acordo com Fernando Campos, coordenador das Cozinhas Solidárias do MTST e integrante da organização Amigas da Terra, o sucesso da ação só foi possível graças à força inabalável da coletividade. “Graças às amplas parcerias firmadas, conseguimos fornecer uma boa quantidade de alimentos às cozinhas solidárias. Itens que incluíam hortaliças, banana, laranja, aipim, batata e abóbora, entre outros, conectados com a cultura alimentar local, foram abastecidos pelas cooperativas da agricultura familiar”, destaca Fernando.

Núcleo Litoral Solidário da Rede Ecovida contou com o apoio da FBB para ações de solidariedade. Foto: Gustavo Martins/ANAMA

Uma ação ainda mais ampla viria a ser realizada em seguida, também com recursos da Fundação Banco do Brasil e o envolvimento de organizações da agricultura familiar, como a Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas e a Associação Sindical Regional Litoral, além de pastorais sociais, Associação de Estudos e Projetos com Povos Indígenas e Minoritários (Aepim),  Ação Nascente Maquiné e Centro Ecológico. Cerca de 20 toneladas de alimentos produzidos pela agricultura familiar chegaram até as aldeias Guarani e comunidades urbanas do Litoral Norte e seguiram abastecendo as cozinhas solidárias de emergência do MTST, minimizando a insegurança alimentar que se agravava.

Solidariedade contínua

Antes mesmo das enchentes, a Rede Ecovida de Agroecologia também atuou fortemente para minimizar os efeitos devastadores da pandemia da Covid-19, que se alastrou pelo mundo inteiro entre os anos de 2020 e 2023. No Brasil, não foi diferente. Ao contrário, a população brasileira, forjada em históricas desigualdades socioeconômicas, foi uma das mais afetadas. 

Durante a pandemia, cerca de 33,1 milhões de pessoas no Brasil chegaram ao estágio mais extremo e preocupante da insegurança alimentar, de acordo com o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil.

Com o apoio da Fundação Banco do Brasil, sob a condução do Centro de Tecnologias Alternativas e Populares (CETAP), a Ação Nascente Maquiné (ANAMA) atuou para conectar a produção de alimentos de cooperativas da agricultura familiar com a demanda identificada junto a nove aldeias indígenas Guarani presentes em diferentes territórios do Rio Grande do Sul.
Cestas de alimentos in natura, na sua maioria oriundos da produção ecológica e componentes da cultura alimentar indígena Guarani, foram distribuídas entre os povos das aldeias. Para que as cestas, compostas de alimentos perecíveis, chegassem ao mesmo tempo e com qualidade nos diferentes lugares, a iniciativa coletiva contou com o apoio logístico da Secretaria de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (Sesai/MS), o que garantiu a entrega de mais de 2,5 toneladas de alimentos a 75 famílias Guarani.

Alimentos enviados às aldeias Guarani foram, em sua maioria, oriundos da produção ecológica e componentes da cultura alimentar indígena. Foto: Gustavo Martins/ANAMA

Para Gustavo Martins, que integra a equipe Técnica da ANAMA e participa do conjunto de ações de solidariedade, a coletividade é uma das forças mais potentes para garantir o Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável em contextos de catástrofe. “É desafiador estruturar essas ações no tempo que elas exigem e atender uma demanda diversificada de alimentos perecíveis e de qualidade. Mas o protagonismo da sociedade civil, a existência dos territórios produtores de alimentos e a capacidade de organização da agricultura familiar permitem que o alimento chegue às mesas nesses momentos de crise”, afirma Gustavo.

As iniciativas de solidariedade desenvolvidas pela Rede Ecovida de Agroecologia são como um prisma, que revela as diferentes facetas em torno do poder da agricultura familiar. Reluzem amplamente a capacidade de resposta que as organizações do campo agroecológico e da agricultura familiar apresentam em situações de crise, reorganizando circuitos de abastecimento para criar novas condições de escoamento da produção e para fazer com que alimentos alcancem as pessoas em situação de vulnerabilidade.

Série Agroecologia, Território e Justiça Climática

Essa série é uma realização da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), em parceria com o Agroecologia em Rede, a Xepa Ativismo e o Clímax.Now. Serão cinco matérias, publicadas nos meses de março e abril de 2026, que mostram como experiências de agroecologia estão enfrentando as mudanças climáticas em diferentes biomas do Brasil. 

Leia as outras matérias da série aqui:

– No Norte de Minas Gerais, rio Mosquito conquista o direito de nutrir e ser nutrido

– Iniciativa de certificação participativa mostra a força da agroecologia na Amazônia Mato-grossense

– Produção agroecológica de bioinsumos em Sergipe aponta caminhos para a justiça climática

– Rede de mulheres agricultoras e grupos de consumo responsável fortalecem agroecologia em São Paulo

– Como a Agroecologia enfrenta as mudanças climáticas?

Mapeamento nacional

As iniciativas apresentadas na série “Agroecologia, Território e Justiça Climática”, como as mobilizações de solidariedade no Rio Grande do Sul, estão entre as 503 experiências identificadas em um mapeamento nacional inédito realizado pela ANA em 2025. Seja no âmbito da mitigação – que reduz as emissões de gases de efeito estufa – seja na dimensão da adaptação climática – que representa os ajustes necessários para conviver com as mudanças do clima – as iniciativas mapeadas comunicam uma série de estratégias coletivas de construção de sistemas alimentares baseados em valores como cooperação, solidariedade e complementaridade com a natureza.

As informações e reflexões sobre as soluções apresentadas pelas experiências podem ser acessadas na plataforma Agroecologia em Rede, onde já estão cadastradas mais de 6 mil práticas agroecológicas de todo o Brasil e da América Latina. Os principais resultados e análises do mapeamento também estão disponíveis na publicação “No Clima da Agroecologia”, elaborada em português, espanhol e inglês. O material foi apresentado no 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), na COP30, na Cúpula dos Povos e em outros espaços globais de diálogo e ação pela justiça climática.