Escolas ainda não estão preparadas para lidar com sexismo entre alunos, apontam especialistas
Entre silêncio institucional e despreparo, escola é essencial para romper ciclo da violência contra mulheres
Por Sofia Missiato
Piadas sobre o corpo, xingamentos de cunho sexual, exposição de imagens sem consentimento e exclusão de atividades são frequentemente tratados como “brincadeira” no ambiente escolar. Mas especialistas alertam: essas práticas são formas de violência de gênero que começam cedo e, quando ignoradas por adultos, ajudam a perpetuar desigualdades e agressões que se estendem até a vida adulta.
Dados recentes mostram que essa realidade está inserida em um contexto mais amplo. Pesquisa da Fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES Brasil), com jovens de 15 a 35 anos, indica que, embora a maioria defenda direitos e igualdade, ainda há forte presença de valores conservadores, especialmente entre homens, e baixa confiança nas instituições. Ao mesmo tempo, 86% defendem políticas públicas de educação e saúde, evidenciando que a escola é vista como espaço estratégico de transformação.
Na prática, o sexismo aparece tanto de forma explícita quanto sutil. Segundo a psicóloga Valeriana Porto Pastor, que atua na rede pública de ensino em Caruaru (PE), há uma divisão clara de experiências entre meninos e meninas desde cedo.
“Quando a menina diz ‘eu não posso brincar na quadra porque os meninos estão invadindo’, isso já mostra uma desigualdade. Existe uma guerra explícita, mas, na maioria das vezes, é uma guerra camuflada, que a gente só percebe nas intervenções psicológicas.”
Essas vivências impactam diretamente o desenvolvimento emocional. Muitas meninas internalizam a violência sem reconhecê-la como tal, o que só muda quando há espaço para diálogo.
“Muitas alunas viviam situações de violência e não se percebiam como vítimas. A partir das rodas de conversa, elas começam a entender: ‘isso não é normal, isso é violência’”, explica Valeriana.
Segundo a especialista, o aumento recente nos registros de violência pode estar ligado justamente a esse processo de conscientização.
“A gente percebe tanto o aumento das denúncias quanto dos casos. E aí vem a pergunta: aumentou a violência ou aumentou a consciência sobre ela?”

O papel da escola e sua falha estrutural
Apesar de ser um espaço central de formação, a escola ainda falha em lidar com o problema. A pesquisadora Karinny Lima de Oliveira, que atua no projeto “Maria da Penha vai à Escola”, afirma que professores, em geral, não estão preparados.
“Os professores não têm formação em gênero. Então, reproduzem o que aprenderam: discursos de naturalização, de culpabilização da vítima ou até de justificar como ‘vontade de Deus’.”
Essa ausência de preparo faz com que situações de violência sejam minimizadas ou ignoradas, muitas vezes reforçadas por frases como “menino é assim mesmo”.
Para Karinny, o problema é estrutural e histórico. “Essa violência do século XXI não caiu de paraquedas. Ela é fruto de séculos que colocaram as mulheres em posição de subcategoria. Se a gente não entender isso, não consegue enfrentar.”
A pesquisadora destaca ainda que a maior parte das políticas públicas atua apenas após a violência, e não na prevenção. “O centro de referência acolhe a vítima depois que a violência já aconteceu. O que a gente faz na escola é prevenção — e isso muda tudo.”

Família e cultura: o ciclo que se repete
O ambiente familiar também tem papel decisivo, muitas vezes reforçando comportamentos agressivos. “É comum ouvir: ‘ruim com ele, pior sem ele’. A violência é naturalizada dentro de casa, principalmente em contextos onde a informação não chega”, afirma Karinny.
A falta de acesso a políticas públicas agrava o cenário. Em Pernambuco, por exemplo, apenas 37 dos 184 municípios têm centros de referência para mulheres. Esse contexto contribui para a reprodução de padrões machistas desde a infância, especialmente entre meninos.
Redes sociais amplificam a violência
Se antes o constrangimento ficava restrito à escola, hoje ele se expande para o ambiente digital. Grupos de mensagens, compartilhamento de imagens sem consentimento e exposição pública intensificam a violência.
Para a deputada Denise Pessoa, esse cenário torna ainda mais urgente o papel da escola. “A gente vive um momento em que, inclusive, se lucra com a violência nas redes. A escola não pode se abster disso. Ela tem um potencial enorme de formação.”

O silêncio institucional e o medo do debate
Nos últimos anos, o debate sobre gênero nas escolas enfrentou resistência política e ideológica. Segundo Denise Pessoa, isso teve impacto direto na forma como o tema é tratado.
“Foi construída uma narrativa contra a discussão de gênero, que fez escolas e professores recuarem. Criou-se um medo de abordar o tema.”
Esse recuo contribuiu para o enfraquecimento de iniciativas educativas — justamente em um momento de aumento da violência. “Se a gente não falar sobre isso, os jovens ficam mais suscetíveis à violência. É na escola que a gente consegue prevenir — o resto é tratar o problema depois que ele já aconteceu.”
Educação como caminho e urgência
Apesar dos desafios, experiências como o programa “Maria da Penha vai à Escola” mostram resultados positivos. Em Caruaru, a iniciativa alcançou toda a rede pública e promoveu mudanças concretas.
“Hoje vemos crianças dizendo: ‘isso não pode acontecer comigo’. Isso é transformação”, afirma Valeriana.
Para Karinny, três medidas são essenciais para avançar:
- inclusão do tema como componente curricular;
- criação de núcleos de gênero nas escolas;
- abordagem interdisciplinar, envolvendo todas as disciplinas.
“Não é responsabilidade de uma pessoa só. Dá para discutir gênero na matemática, na geografia, em todas as áreas.”
A deputada Denise Pessoa reforça: “Só a educação transforma. Se não for por ela, a gente não vai mudar essa realidade.”
Os dados e relatos apontam para uma conclusão comum: o sexismo não nasce na vida adulta. Ele é aprendido, tolerado e reproduzido desde cedo. E é justamente por isso que a escola ocupa um lugar central. Entre o silêncio e a transformação, a diferença está na capacidade de reconhecer que aquilo que muitos ainda chamam de “brincadeira” é, na verdade, o primeiro passo de uma violência que pode marcar toda uma vida.



