Ilha do Combu vive crise de água potável mesmo cercada por rio em Belém
Ilha do Combu vive sem água potável e saneamento; moradores usam água contaminada e enfrentam doenças
Por Evelyn Ludovina
Belém, cidade atravessada por rios e formada por cerca de 42 ilhas, que abrigam áreas urbanas e rurais, ainda convive com a falta de acesso a serviços básicos de saneamento. Apesar de ser cercada por água, dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), de 2024, apontam que 11,8% da população não tem acesso à água potável. A situação se agrava quando se observa o esgotamento sanitário: mais de 1 milhão de habitantes vivem sem coleta de esgoto, o que coloca a capital paraense na 94ª posição no Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil.
Na Ilha do Combu, um dos cartões-postais da cidade, grande parte da população ainda vive sem acesso à água potável e sem tratamento de esgoto, ficando exposta a riscos frequentes de doenças de pele e gastrointestinais.
É o caso de Doris Mattos. Moradora do Combu há 38 anos, ela relata que, com o passar do tempo, a ilha passou por diversas transformações, como a chegada da energia elétrica, o aumento do turismo e a melhoria da economia local, mas o acesso à água potável ainda não acompanhou esse desenvolvimento. Na casa dela, a água utilizada no dia a dia é retirada diretamente do rio, por meio de uma bomba que abastece a caixa d’água, sendo usada para banho e limpeza. Para cozinhar e beber, a alternativa é a compra de água mineral.
“Não temos tratamento de água nem de esgoto; temos uma fossa que nós mesmos fizemos. Compramos água mineral em Belém e de barco-pipa. Temos um gasto semanal de 22 reais com água mineral e 20 reais com barco-pipa”, explica a ribeirinha.
Na tentativa de amenizar o problema, em dezembro de 2025, o governo do estado implantou, na ilha, o projeto “Água para Todos”. De acordo com a Agência Pará, a iniciativa já beneficiou cerca de 1.200 moradores. O sistema capta água da chuva, funciona com energia solar, não utiliza produtos químicos e tem capacidade de armazenamento de até 5 mil litros.

No entanto, o alcance do projeto ainda não contempla toda a população. Doris conta que sua casa não foi incluída na iniciativa e que não há previsão para a instalação do sistema. Segundo ela, alguns estabelecimentos da ilha já foram beneficiados, como o restaurante Saudosa Maloca e uma fábrica de chocolate.
Para a moradora, a falta de acesso à água potável continua sendo um dos principais desafios da região. “Água potável é o básico, o essencial. E nós, que moramos tão próximos da cidade, ainda não temos”, afirma.
Água contaminada e impactos na saúde
A região enfrenta graves problemas de contaminação devido à ausência de saneamento básico. O lançamento irregular de esgoto, principalmente por restaurantes e embarcações que despejam dejetos diretamente nos rios, agrava a situação. Soma-se a isso o uso de fossas rudimentares que, durante o período de cheias, são invadidas pela água, fazendo com que resíduos sejam levados para os rios. E, apesar da existência de coleta de lixo nas ilhas, a região ainda recebe grande volume de resíduos, especialmente provenientes da orla de Belém. O descarte de combustíveis por embarcações também contribui para a poluição das águas.
Nesse contexto, a falta de acesso à água potável intensifica ainda mais os riscos enfrentados pelos moradores. De acordo com dados do DATASUS, em 2024 foram registradas 1.428 internações por doenças de veiculação hídrica.
Como os projetos governamentais de abastecimento alcançaram apenas parte da comunidade, muitos ainda são obrigados a utilizar a água do rio para atividades domésticas. No entanto, essa água apresenta altos índices de contaminação, o que compromete diretamente a saúde da população. Consequentemente, casos frequentes de doenças relacionadas à qualidade da água são registrados nos postos de saúde da região.
Graciete Barbosa, agente comunitária da Unidade Básica de Saúde (UBS) do Combu, relata que doenças de pele, diarreia aguda, amebíase, giardíase, infecções intestinais, conjuntivite e infecções nos ouvidos e no nariz estão entre as ocorrências mais comuns. Segundo ela, a principal causa é o uso de água contaminada do rio.
“As crianças, principalmente, têm sofrido muito, porque utilizam essa água para tomar banho. Também há casos de doenças causadas pela ingestão de água e alimentos contaminados, já que muitos são lavados na água do rio. As crianças são as mais afetadas, porque nadam com mais frequência, especialmente em áreas próximas ao descarte de esgoto. Embora também aconteça com adultos, entre elas os casos são mais recorrentes”, afirma.
A realidade também é vivida por moradores como Doris, que relata problemas de saúde, como infecções vaginais, dermatites e episódios de diarreia, todos associados ao uso da água contaminada.
A própria Graciete já enfrentou, no passado, as consequências dessa precariedade. Há cerca de 20 anos, ela contraiu febre tifoide, uma infecção bacteriana grave transmitida pela ingestão de água ou alimentos contaminados com fezes humanas, comum em locais sem saneamento adequado. “Eu quase morri. Fiquei onze dias hospitalizada e, até hoje, carrego as consequências, porque afetou muito a minha saúde e não posso doar sangue”, relembra.
Tecnologias sociais surgem como alternativa, mas ainda são limitadas
Projetos não governamentais surgem como alternativas para minimizar o problema e levar mais dignidade à rotina ribeirinha. Baseadas em tecnologias sociais — desenvolvidas em diálogo com as comunidades e voltadas para soluções práticas de problemas locais —, essas iniciativas buscam ampliar o acesso à água potável em regiões onde o poder público ainda não consegue chegar de forma efetiva. Um exemplo é o Sistema de Captação de Água da Chuva, desenvolvido pela Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), que não necessita de energia elétrica nem de bomba d’água, funcionando a partir da gravidade. A água é captada por meio de calhas instaladas nos telhados e armazenada em reservatórios para consumo humano.

A bióloga Vânia Neu, professora da UFRA, explica que o princípio da tecnologia é captar, tratar e disponibilizar água para as famílias. Segundo ela, existem duas formas principais de captação e tratamento. A primeira é um sistema mais simples, em que a água é coletada do telhado, armazenada em uma caixa d’água, tratada com hipoclorito e, em seguida, filtrada. Já o sistema mais complexo conta com um clorador automatizado: a primeira água da chuva, responsável por lavar o telhado, é descartada automaticamente; depois, a água segue para um reservatório, passa pela cloração e é armazenada em uma segunda caixa, de onde é filtrada e já pode ser consumida.
A escolha pela água da chuva, em vez da água do rio, se deve à dificuldade de tratamento. Na região de Belém, a água dos rios apresenta altos níveis de contaminação física, química e biológica, além de grande quantidade de sedimentos. “Para tratar a água do rio em grande escala, como faz a Águas do Pará (antiga Cosanpa), é necessário um sistema complexo, com etapas como floculação e sedimentação. Mas, em comunidades ribeirinhas e ilhas, onde muitas vezes não há energia elétrica e a distribuição por tubulação é inviável, um sistema centralizado não funciona”, explica a pesquisadora.
Nesse sentido, a captação da água da chuva permite um modelo descentralizado, feito de casa em casa, com sistemas mais simples, acessíveis e que não dependem de energia elétrica. A iniciativa já beneficiou diretamente cerca de 15 famílias na Ilha das Onças, em Barcarena, onde os moradores chegaram a compartilhar a água captada com vizinhos, especialmente durante a pandemia. Projetos semelhantes também foram implementados em localidades como Marapanim, na aldeia Tembé, em Santa Luzia e em João Pilatos, em Ananindeua, além de estarem previstos para outras comunidades, como aldeias Yanomami.
Apesar dos resultados positivos, ainda não há previsão para a ampliação dessas tecnologias no Combu. Até o momento, apenas um sistema foi instalado em um ponto turístico da ilha, na Fábrica de Chocolate. Segundo Vânia Neu, a universidade não tem capacidade de atender todas as demandas, já que seu papel é desenvolver pesquisas e testar soluções em diferentes contextos. “A gente produz e publica esse conhecimento para mostrar ao poder público que essas soluções existem e podem ser implementadas. A responsabilidade de ampliar o acesso é deles”, afirma.
Entre os principais desafios para expandir essas iniciativas estão a falta de recursos financeiros e de profissionais capacitados. Para a pesquisadora, ainda há uma limitação na formação técnica, muito voltada para modelos convencionais de saneamento. “As pessoas estão muito formatadas para tecnologias centralizadas. Só que, quando falamos da Amazônia rural, essas soluções não funcionam bem. É uma realidade diferente, tanto para o tratamento de esgoto quanto para o abastecimento de água. Falta recurso humano preparado e investimento financeiro para avançar com o saneamento rural na região”, conclui.



