Safatle afirma que tecnologias de violência do fascismo têm origem em experiências coloniais
Filósofo analisa nova onda conservadora, associa ao fascismo e critica redes, colonialismo e influência externa no Brasil.
Por Kaio Phelipe
Filósofo e professor da Universidade de São Paulo, Vladimir Safatle acaba de lançar o livro A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais, publicado pela editora Ubu.
Em entrevista, o filósofo apresenta as teses centrais de seu novo livro, defendendo que a atual onda conservadora — marcada por violência, dessensibilização e decomposição do corpo social — deve ser nomeada como fascismo.
Safatle articula ainda a relação entre fascismo e colonialismo, sustenta que as democracias liberais sempre conviveram com formas restritas de fascismo e, ao discutir o cenário internacional, explica como os Estados Unidos são um exemplo de matriz autoritária historicamente direcionada a setores específicos da população e alerta para os riscos de subordinação do Brasil a dinâmicas imperialistas contemporâneas.
Sobre o que é A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais, seu novo livro, publicado pela editora Ubu?
A ideia central do livro é a de que essa leva conservadora que nós estamos vivendo hoje tem um nome próprio: fascismo. E é muito importante a gente nomear da maneira correta para entender quais são os desafios que nos esperam.
É certo que não é o mesmo fascismo histórico da década de 1930, mas isso não impede, em hipótese alguma, o uso do termo. É fascismo devido à forma de violência baseada na dessensibilização e na indiferença, havendo uma mutação do afeto social fundamental.
Isso significa que há uma decomposição do corpo social. No interior dessa decomposição do corpo social, o fascismo coloca uma proposição muito clara: a de que não há sociedade para todos; a sociedade ficou muito pequena para todos, então é necessário fazer uma partilha e apontar quem pode ser preservado e quem vai ser sacrificado.
Nós temos aí uma lógica que vai sendo cada vez mais evidente, seja através da separação a partir da preferência nacional, seja a partir da massa de imigrantes, seja a partir das comunidades de fé, seja a partir daqueles que podem se adaptar melhor às injunções do empreendedorismo como forma de organização da vida social.
Sempre é essa a questão: há uma partilha social a ser feita, porque as crises que marcam a nossa época não podem ser resolvidas, não serão resolvidas, e é necessário se adaptar a elas.
Com isso, a gente vai recuperando estruturas de violência que são fundamentadas na experiência colonial. O fascismo expande as estruturas de violência que tinham sido, inicialmente, aplicadas apenas em zonas coloniais. Existe uma relação muito profunda entre fascismo e colonialismo.
Não é por acaso que países como o Brasil nunca superaram sua violência colonial. Países como o Brasil são laboratórios fundamentais dessa nova versão do fascismo.
Não há nenhuma tecnologia de violência utilizada pelo fascismo que não tenha sido, primeiro, desenvolvida em experiências coloniais: campos de concentração, campos de extermínio, massacres administrativos. Tudo isso foi inicialmente aplicado na América Latina, na África e na Ásia, até se expandir à Europa em momentos de crise.

As redes sociais colaboram com a ascensão do fascismo?
Colaboram, eu diria, de duas formas.
A primeira é que as redes sociais não são neutras do ponto de vista político. Elas têm dono. Elas têm poucos donos. Elas funcionam de forma monopolista, e esses donos têm interesses políticos muito claros. Nunca antes vivemos uma situação tão monopolista quanto essa, ou seja, são quatro ou cinco pessoas que comandam as estruturas de comunicação em praticamente todos os lugares do mundo.
As interações mais elementares, a mensagem que mandamos para quem nos relacionamos, o pagamento que fazemos com o cartão de crédito, tudo isso, de certa maneira, são informações articuladas que convergem para um grupo que, inclusive, está muito territorializado. Todos estão nos Estados Unidos. Isso traz uma série de complicações muito sérias e muito pouco pensadas.
O segundo ponto é que as redes sociais não são neutras do ponto de vista da ideologia da sua linguagem. É importante a gente recuperar o termo “ideologia”, ainda que pareça um termo velho, mas ele faz todo o sentido dentro desse contexto.
A linguagem que as redes sociais trazem para as interações sociais possui um ritmo próprio, um impacto próprio, uma velocidade própria, uma forma de apresentação própria. Ela possui padrões de estereotipia, padrões de organização de quem você é, de como você deve falar para ser notado e aparecer, para existir socialmente, ou seja, essa linguagem vai se tornando homogeneizadora.
Todos os conteúdos das redes sociais precisam, de certa maneira, respeitar essas regras gramaticais. Só que “César é o senhor da gramática”, ou seja, quem define as condições gramaticais de uso da nossa linguagem define as estruturas e as formas de produção de poder.
Então, o que aconteceu foi que nós perdemos todas as nossas linguagens de luta para que nos readaptássemos a uma linguagem das redes sociais, e essa linguagem é muito mais adequada para a personalidade autoritária da extrema direita. Ela tem a simplificação, a provocação, a estereotipia. Ela tem a funcionalização própria de uma personalidade de extrema direita. Então, no final das contas, a gente vai falando a linguagem deles.
A grande maioria das nossas interações políticas se dá nesse ambiente das redes sociais, e toda a comunicação que é feita, inclusive daqueles que se dizem críticos do modelo social capitalista em que vivemos, também precisa respeitar essas regras. Então, é certo que, no campo das redes sociais, a extrema direita venceu ao nos impor um espaço de fala e uma forma de linguagem.
Há cinquenta anos, alguém como Pasolini falava: “o fascismo não desapareceu, basta vermos qual é a lógica da sociedade de consumo, a sua maneira de homogeneizar, de dessensibilizar e transformar todo o conteúdo no mesmo conteúdo”.
As redes sociais levam isso ao paroxismo. Hoje, o perfil da Casa Branca no Instagram noticia batidas policiais contra imigrantes em ritmo de reggae, como se você estivesse vendo um seriado tipo Miami Vice, ou seja, há uma indistinção entre entretenimento e informação, entre catástrofe social — que é isso o que a Casa Branca noticia — e diversão. Esse é o resultado final desse tipo de homogeneização da língua.
É possível que esquerda e direita vivam em harmonia?
Não, não. Nós vivemos mundos completamente distintos, nossa visão de mundo é radicalmente diferente, não há mundo comum entre nós, ou seja, nós lutamos pela realização de mundos que não são os mesmos, com afetos que não são os mesmos e com experiências muito diferentes do que significa liberdade, emancipação, autonomia e por aí vai. Nossas sociedades são agonísticas e sempre serão.
Essa luta política sempre vai ser uma luta feroz. E acho importante nós estarmos preparados e abrirmos mão dessa ilusão de tolerância, que, na verdade, só foi a forma de preservação de estruturas fascistas e violentas para setores da população. Nunca houve um espaço de tolerância política.
As sociedades que se diziam de tolerância política e de democracia liberal eram sociedades que poderiam ser tolerantes para certos setores da população, mas, para outros setores, eram máquinas muito profundas de violência social. Era assim que se oprimiam setores da população que poderiam, caso se tornassem sujeitos políticos, trazer uma exigência de transformação estrutural substancial. O jogo sempre precisou dessa violência para poder funcionar como um jogo de tolerância política.
Por isso que, no livro, eu insisto que não faz sentido falar em sociedades de democracia liberal. Nós conhecemos apenas dois tipos de sociedades: sociedades de fascismo restrito e sociedades de fascismo generalizado. Sociedades que são democráticas para certos setores da população são fascistas para outros. A sociedade brasileira é um exemplo disso.
A democracia sempre foi algo que funcionou até seis quilômetros de onde moro, em São Paulo. Mas, se você for até as periferias das grandes cidades, não existe democracia, porque não há garantia de integridade das pessoas diante de batidas policiais, diante das ações do Estado, não há possibilidade de reconhecimento de dolo diante da violência. É sempre uma desumanização absurda.
A gente viu mais de cem pessoas morrerem no Rio de Janeiro em uma batida policial. Não soubemos o nome dessas pessoas, não teve foto delas, não teve nem história. Isso é uma explicação muito óbvia de como a sociedade é fascista com certos setores da população.

O afeto é, ou deveria ser, um elemento constitutivo da prática política?
A meu ver, a perspectiva da circulação dos afetos é, metodologicamente, uma perspectiva bastante frutífera de avaliação do que é um corpo social e de como esse corpo social se estrutura e organiza a sensibilidade dos seus indivíduos, de como organiza o campo da experiência dos indivíduos, a corporeidade dos indivíduos.
Uma perspectiva afetiva lembra que os sujeitos políticos são sujeitos corporificados, encarnados e devem ser compreendidos a partir da sua corporeidade, e não só a partir do seu discurso. É preciso entender como os sujeitos políticos são afetados e como eles organizam suas sensibilidades.
Por isso, defendo que o afeto não se trata de uma metáfora nem de uma simples mudança de perspectiva. Trata-se de uma estrutura metodológica de avaliação de corpos sociais.
Eleitores e candidatos da extrema direita insistem na ideia de que os Estados Unidos são um modelo de política e sociedade. Seria possível o Brasil se tornar um país como os Estados Unidos?
Só se for modelo de catástrofe. Se for como um modelo de catástrofe, os Estados Unidos são um belo modelo.
Uma sociedade nunca se torna autoritária. Não se passa de uma democracia a um autoritarismo. Uma sociedade é autoritária para certos setores da sua população. Em situações de crise, ela generaliza o seu autoritarismo. O que acontece é que se explicita uma matriz autoritária que sempre esteve lá, só que de forma restrita.
Os Estados Unidos nunca foram democráticos do ponto de vista das suas populações negras. Não é à toa que marxistas negros norte-americanos como Fred Hampton, Angela Davis e George Padmore insistem em utilizar o termo “fascismo” para descrever a situação na qual viviam e, de fato, havia a segregação racial mais absurda possível, que vulnerabilizava vidas e as colocava como pessoas de segundo nível. Isso foi até o final da década de 1960 e, desde então, esse processo nunca parou.
O resultado da tentativa de modificação volta agora, em situação de crise estrutural própria, e os Estados Unidos são um eixo fundamental do seu desdobramento.
O que acontece: você tem uma sociedade que mostra sua matriz autoritária, mostra a sua dinâmica fascista, primeiro contra setores da sua própria população, que vão ser substituídos por uma maquinização da economia. Então, são os setores onde havia uma superexploração da mão de obra que vão ser substituídos pela automatização do processo econômico — que é o que deve acontecer. Você tenta, de alguma forma, estabilizar a crise econômica através do expansionismo imperialista.
Eu indicaria a você, por exemplo, ouvir o discurso de Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, para a comunidade europeia, feito alguns dias atrás. É um discurso fascista do começo ao fim. É o exemplo mais bem acabado do que é um discurso fascista, uma justificação do imperialismo, de uma relação colonial, uma reorganização da força política a partir de um Atlântico Norte branco, que tem um dever civilizacional para com o resto da sociedade. Esse dever civilizacional era, na verdade, a sujeição das populações aos interesses socioeconômicos desses grupos.
Eu sou um professor de filosofia e não uso palavras ao léu, e afirmo que o discurso de Rubio poderia ter sido um discurso pronunciado por Hitler, sem trocar uma palavra sequer.
É um exemplo muito evidente de uma guinada fascista da sociedade ocidental e da estrutura do capitalismo global; isso também acontece em países como a Índia e a Turquia.
O que a extrema direita brasileira quer fazer é, na verdade, uma subordinação do Brasil a essa dinâmica imperialista. A extrema direita não quer comandar o Brasil, ela quer ser administradora de colônia.
Flávio Bolsonaro não quer ser presidente do Brasil, quer ser um administrador de colônia. Isso está muito óbvio pela forma como sua família se vinculou aos interesses norte-americanos. Só que o que aconteceu: os Estados Unidos descobriram que o Brasil já se descolou do horizonte de sujeição norte-americano. Eles tentaram impor uma taxação de cem por cento em vários produtos brasileiros. E o que nós sentimos? Nada. Houve pressão inflacionária? Nenhuma.
O Brasil é um dos poucos países que, hoje, tem condição de ser efetivamente um ator dentro do comércio global, por causa da estrutura dos BRICS, por causa das relações Sul-Sul. O que eles querem é tirar a única coisa que ainda dá ao Brasil um certo lugar na vivência da estrutura da ordem internacional, para que ele se torne, dentro de uma relação de subserviência, o representante da ordem imperial no nosso país.