Por Liliana Bernartt

Foto: Alpha Filmes/ Mares Filmes

Em uma temporada do Oscar marcada por grandes produções de animação — muitas delas impulsionadas por estúdios gigantescos, campanhas globais e tecnologias cada vez mais sofisticadas — “A Pequena Amélie” aparece quase como um gesto de resistência poética dentro da indústria. E talvez seja justamente essa delicadeza autoral que transforme o filme em um dos concorrentes mais singulares da categoria.

Baseado na obra autobiográfica da escritora belga Amélie Nothomb, o longa acompanha os primeiros anos de vida de uma menina belga que cresce no Japão, atravessando um processo de despertar sensorial e emocional para o mundo. Mas reduzir o filme a uma narrativa sobre infância seria simplificá-lo demais. A obra constrói, na verdade, uma espécie de reflexão filosófica sobre consciência, identidade e pertencimento — temas que emergem a partir da percepção radicalmente sensível de uma criança diante das primeiras experiências da vida.

A animação aposta em uma estética artesanal em 2D que se afasta deliberadamente da lógica hiperindustrial das grandes produções contemporâneas. Em vez de impressionar pela escala ou pelo excesso de tecnologia, o filme constrói sua potência através do gesto gráfico, do ritmo contemplativo e de uma mise-en-scène visual que acompanha os estados emocionais da protagonista. Cores, texturas e movimentos parecem nascer do próprio olhar infantil, como se o mundo fosse sendo desenhado à medida que Amélie aprende a percebê-lo.

Essa abordagem revela uma escolha estética e também política: não subestimar a infância.

Durante a conversa que tive com os diretores Maïlys Vallade e Liane-Cho Han, ambos ressaltaram que um dos princípios centrais do projeto era tratar as crianças como espectadores capazes de lidar com complexidades emocionais e existenciais. Para eles, a infância não é um território simplificado da experiência humana, mas justamente o momento em que perguntas fundamentais surgem com mais intensidade.

Segundo os realizadores, era essencial que o filme não evitasse temas profundos — como morte, crescimento, separação e pertencimento — mas que os abordasse através da sensibilidade própria da infância. Essa perspectiva filosófica, segundo eles, nasce da própria obra literária de Nothomb, que reflete sobre o despertar da consciência quase como um acontecimento metafísico.

E talvez seja exatamente isso que torna “A Pequena Amélie” tão singular dentro da paisagem atual da animação: o filme não busca apenas contar uma história, mas recriar a experiência de descoberta do mundo.

Os diretores também falaram com entusiasmo sobre a trajetória do filme na temporada de premiações. A indicação ao Oscar, segundo eles, teve um impacto muito maior do que qualquer expectativa inicial. Com a nomeação, a obra passou a circular com mais força internacionalmente, alcançando públicos que talvez nunca tivessem contato com esse tipo de animação autoral.

Para Vallade e Han, esse reconhecimento já representa, em si, uma espécie de vitória.

Eles sabem que disputar o Oscar significa entrar em uma engrenagem muito maior do que apenas critérios artísticos. A lógica da premiação envolve campanhas, visibilidade industrial e uma estrutura de mercado que frequentemente favorece produções de grande escala. Ainda assim, ambos demonstram uma serenidade curiosa diante da competição.

Segundo eles, o verdadeiro prêmio já aconteceu: o filme encontrou seu público.

Há também um orgulho evidente na forma como a obra foi realizada. O processo de animação, inteiramente desenvolvido em técnica 2D, exigiu um trabalho minucioso de criação visual e narrativa, que remete a tradições mais antigas da animação — quando cada gesto, cada cor e cada movimento nasciam de um trabalho quase artesanal.

Nesse sentido, “A Pequena Amélie” dialoga com uma ideia de cinema de animação que se aproxima da arte manual, do gesto paciente, da construção sensível imagem por imagem.

E talvez seja exatamente isso que torna sua presença no Oscar tão simbólica.

Se vencer, não será apenas a vitória de um filme delicado sobre infância. Será também, de certa forma, uma celebração da artesanalidade da animação — da criação paciente, autoral e sensível — diante de um cenário dominado por produções de altíssima escala industrial.

Mas mesmo que a estatueta não venha, o próprio percurso do filme já revela algo importante: há espaço, ainda hoje, para obras que apostam menos no espetáculo e mais na sensibilidade.Porque, no fim das contas, a verdadeira força de “A Pequena Amélie” está exatamente onde o cinema mais se renova: na delicadeza, na autoria e na coragem de olhar o mundo com a mesma intensidade de uma criança que acaba de descobri-lo.