Apenas uma mulher negra venceu o Oscar de Melhor Atriz em 97 anos de premiação
Em quase um século de Oscar, a vitória de Halle Berry como Melhor Atriz segue sendo única

Por Amábili Gomes
Ao longo de quase um século de Oscar, a categoria de “Melhor Atriz” revela um dado que chama atenção: apenas uma mulher negra venceu o prêmio. Em 97 anos de premiação, a conquista histórica pertence à atriz Halle Berry, que levou a estatueta em 2002 por sua atuação no filme “A Última Ceia”. Até hoje, nenhuma outra atriz negra voltou a vencer a categoria, o que mantém aberto o debate sobre representatividade e diversidade na principal premiação do cinema mundial.
Muito se discute nos últimos anos a falta de representatividade negra dentro da premiação, principalmente nas principais categorias, como “Melhor Filme”. Mas, o cenário para “Melhor Atriz” parece não ter evoluído ao longo dos anos, considerando que, em todos esses anos de premiação, apenas 15 mulheres negras foram indicadas à categoria.
Apesar de algumas indicações ao longo dos anos, essas atrizes não levaram a estatueta. Halle Berry chegou a afirmar, em um depoimento para o documentário Artistas Negros Conquistam Hollywood, da Apple TV+, que sua vitória foi uma exceção e que não representou uma mudança estrutural dentro da Academia. Na ocasião, a atriz também criticou o fato de Viola Davis e Andra Day não terem vencido a premiação em 2021.
Naquele ano, a atuação de Viola Davis em “A Voz Suprema do Blues” colocou a atriz entre as principais apostas da crítica, ao interpretar a cantora Ma Rainey. A categoria também teve a presença de Andra Day, indicada pelo filme “Estados Unidos vs. Billie Holiday”. Apesar das expectativas em torno das duas performances, a estatueta acabou sendo entregue a Frances McDormand por seu trabalho em “Nomadland”.
Halle Berry também afirmou que a premiação não foi pensada, historicamente, para prestigiar mulheres negras. A declaração ganha ainda mais peso quando se observa que, mesmo sendo consideradas favoritas ou acumulando indicações, muitas atrizes negras não conquistaram a estatueta. É o caso de Cynthia Erivo, indicada duas vezes na categoria “Melhor Atriz” por seus papéis em “Harriet” e “Wicked”, mas que ainda não venceu o prêmio.
Protagonismo negro na premiação
Segundo um levantamento do jornal O POVO, entre 1927 – ano que marca o início do período considerado pela premiação, já que o Oscar começou oficialmente em 1929, mas incluiu filmes lançados em 1927 e 1928 — e 2023, apenas 83 artistas negros foram indicados nas principais categorias individuais da premiação: Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Direção.
De acordo com os dados, esse número representa uma média de menos de uma indicação de artista negro por edição, o que significa que, em alguns anos, não houve nenhuma presença negra nessas categorias.
Hattie McDaniel foi a primeira mulher negra a ganhar um Oscar na história da premiação. A atriz conseguiu a estatueta na categoria “Melhor Atriz Coadjuvante” pelo filme “E o Vento Levou”. Isso aconteceu em 1940, após 12 anos de premiação. Nesta categoria, o Oscar só seria entregue a uma atriz coadjuvante negra 50 anos depois de McDaniel. Neste período, apenas 5 mulheres negras foram indicadas como atrizes coadjuvantes.

O cenário parece não ter evoluído ao longo dos anos. Nesta edição do Oscar 2026, por exemplo, não há nenhuma mulher negra indicada à categoria de “Melhor Atriz”. Na categoria “Melhor Atriz Coadjuvante” há Teyana Taylor, pelo filme “Uma Batalha Após a Outra” e Wunmi Mosaku, por “Pecadores”.
Também é importante considerar que o único filme com um protagonismo negro mais evidente entre os principais indicados neste ano é Pecadores, dirigido por Ryan Coogler. A produção se destaca justamente por colocar personagens negros no centro da narrativa, algo que ainda aparece de forma pouco frequente entre os filmes mais reconhecidos pela premiação.
Nas demais produções indicadas, a presença de personagens negros é menor ou aparece de forma secundária, sem um protagonismo significativo. Esse cenário reforça a percepção de que, mesmo com debates recentes sobre diversidade, a representatividade negra entre os principais indicados ainda é limitada ou, em alguns casos, quase inexistente.
A revolta de artistas negros e o que fazer com isso?
Além de Halle Berry, outros artistas negros já criticaram a Academia pela falta de representatividade na premiação. O ano de 2016 foi um marco importante nesse debate, quando surgiu a hashtag #OscarsSoWhite, um movimento que surgiu para criticar ea abrir debates sobre a premiação, após dois anos consecutivos sem nenhuma indicação negra nas quatro categorias de atuação.
Na ocasião, Spike Lee — diretor e ator conhecido pelos filmes Infiltrado na Klan e Faça a Coisa Certa — criticou publicamente a premiação em suas redes sociais. “Mas como é possível, pelo segundo ano consecutivo, todos os 20 indicados nas categorias de atuação serem brancos?”, questionou o diretor em uma publicação nas suas redes sociais com uma foto de Martin Luther King — lembrando também de seu aniversário e seus discursos.

No mesmo ano, Will Smith e Jada Pinkett Smith também anunciaram que iriam boicotar a cerimônia e criticaram publicamente a falta de representatividade negra entre os indicados. Já durante a premiação, o comediante Chris Rock, que foi o apresentador da cerimônia naquele ano, comentou a situação em tom de ironia ao afirmar: “Bom, estou no Oscar da Academia, também conhecido como os prêmios dos brancos”. A fala reforçou o debate que já vinha sendo levantado por artistas e pelo público sobre a ausência de representatividade negra entre os indicados.
Após toda a repercussão, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas — responsável pelo Oscar — declarou que iria ampliar o número de mulheres e aumentar a diversidade entre os membros votantes da instituição, como uma tentativa de tornar o processo mais plural.
Contudo, os discursos de diversidade perdem força se a Academia não considerar, de fato, a presença negra entre os indicados e premiados e não repensar a estrutura da própria premiação — historicamente marcada por favorecer produções e artistas brancos, sobretudo dos Estados Unidos e da Europa.
Para muitos críticos e artistas, ampliar o número de votantes não é suficiente se o reconhecimento dentro das categorias principais continuar restrito a um mesmo perfil de artistas e produções. Enquanto isso não muda de forma mais profunda, a ausência de mulheres negras entre as vencedoras de “Melhor Atriz” segue como um dos exemplos mais evidentes das desigualdades dentro da maior premiação do cinema mundial.
Como o cenário deste ano na categoria “Melhor Atriz” não apresenta representatividade negra, Teyana Taylor e Wunmi Mosaku seguem sendo uma das esperanças de que 2026 possa trazer algum reconhecimento para mulheres negras nas categorias de atuação do Oscar.
Para os próximos anos, será necessário avaliar o impacto que representa para o cinema mundial o fato de que, em quase um século de premiação, apenas uma mulher negra tenha conquistado a estatueta de “Melhor Atriz” e pressionar a premiação com o questionamento: até quando o Oscar continuará reproduzindo um histórico em que o reconhecimento às mulheres negras ainda aparece como exceção?
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.