A realidade por trás da ficção nos filmes do Oscar 2026
Os filmes do Oscar buscam mais que emocionar, buscam abordar temas sensíveis para a nossa sociedade

Por Pedro Ferro
Os filmes, assim como as peças teatrais e livros antes deles, têm o principal intuito de contar uma história, seja ela para entreter o público ou para discutir temas relevantes para determinado grupo social. Os filmes indicados ao Oscar deste ano não são diferentes, pois uma parcela deles aborda temas sensíveis que, às vezes, passam despercebidos por grande parte do público geral.
Um dos exemplos mais evidentes é Pecadores, dirigido por Ryan Coogler e protagonizado por Michael B. Jordan, pois utiliza a figura dos vampiros como metáfora para como a classe dominante dos EUA, e até mesmo da Europa e do Brasil, usurpou a cultura e costumes africanos e os “revendeu” para as grandes massas como se fossem invenções da comunidade branca. No filme, vemos a música como esse elemento cultural tão cobiçado.
Tanto o blues quanto o jazz têm origem afro-americana, tendo surgido entre a população negra nas plantações de algodão no sul do país em meados dos anos 1890. Enquanto trabalhavam, eles costumavam cantar sobre suas vidas e rotinas, se utilizando de cantos religiosos e melodias de seus países de origem. Apesar das origens entre a população afro-americana, entre as décadas de 1930 e 1940 surgiram cantores e artistas brancos de jazz e blues, que acabaram ganhando maior popularidade e prestígio e, assim, ofuscando os artistas negros do gênero.
Mesmo com a utilização da figura do vampiro, Pecadores não esconde suas críticas à sociedade estadunidense, que há séculos explora e oprime a população negra em prol do benefício próprio e, ao mesmo tempo, exalta a beleza e a pluralidade da cultura africana.
Preconceitos nas animações
Apesar de certos filmes de animação serem voltados para o público infanto juvenil, eles não têm medo de discutir temas sensíveis. O primeiro Zootopia foi ousado o suficiente em 2016 ao discutir preconceito e machismo em um mundo com animais antropomórficos fofos. Sua sequência, lançada em novembro de 2025, abrange tal discussão ao trazer a figura dos répteis para a trama, animais vertebrados cujos os hábitos e ações são vistos como nojentos e/ou amedrontadores tanto pelos personagens do filme quanto pelas pessoas que assistiram ao filme.
Certas cobras possuem um mecanismo de defesa bastante temido por outros seres, mas isso não significa que todas as cobras, peçonhentas ou não, sejam más. O mesmo vale para as pessoas. Até os dias atuais, os grupos mais conservadores de países da Europa e dos EUA veem pessoas de origem asiática, árabe, africana e até mesmo latina como uma ameaça à sua sociedade.

Algo semelhante pode ser visto em As Guerreiras do K-Pop. O trio protagonista tem a missão de lutar contra demônios vindos de outro mundo que buscam se estabelecer no universo habitado pelos humanos. Mesmo que não se aprofunde tanto no assunto, o longa aborda preconceito e xenofobia ao apresentar o público a uma protagonista meio humana e meio demônio.
Durante sua luta habitual para salvar o mundo, as protagonistas devem questionar seus valores e preceitos assim que enxergarem que nem todos os demônios que lutam são apenas malvados.
O fantasma da ditadura
Em plena década de 2020, o Brasil ainda deve lutar contra o fantasma da ditadura, e O Agente Secreto está aqui para lembrar o público dos terrores e ameaças que tal governo significava para as pessoas.

A figura do tubarão apresentada no filme é uma alegoria ao medo constante e aos perigos ocultos que a sociedade enfrentava diariamente. A imagem do presidente estava sempre amostra, mas a população sempre estava apreensiva, pois temiam se tornar alvo da opressão e fúria de um governo tão paranóico.
Com isso, o medo e paranoia acabavam por dominar a população, mesmo que de maneira inconsciente e, assim como o protagonista vivido por Wagner Moura, a solução era lutar nas sombras ou fugir para fora do país.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.