Hamnet e o mito de Orfeu unidos pela metáfora da perda
Uma trama que espelha o mito, revelando a dor que se transforma em arte
Por Safira Ferreira

“Hamnet” encantou por sua abordagem poética, fotografias sensíveis, pausas propositais e atuações cheias de significado. Um dos elementos presentes desde o início é a perda, algo que fica nítido num dos primeiros diálogos entre William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes Shakespeare (Jessie Buckley), quando ele narra o mito grego de Orfeu e Eurídice.
A famosa tragédia conta que Orfeu, filho de Apolo e Calíope, viajou até o submundo para libertar sua esposa Eurídice, morta no dia do casamento. Ele convenceu Hades a deixá-la partir, mas com uma condição: não olhar para trás durante o caminho de volta. Quando estavam quase na superfície, Orfeu se virou e Eurídice foi puxada de volta ao submundo. Ele a perdeu duas vezes, foi corroído pelo luto e passou a vagar sozinho.
A trama de Hamnet acompanha uma família marcada pela morte do único filho homem do casal. Antes disso, o filme constrói toda uma história desde o momento em que os pais se conheceram, tornando a perda algo trágico e doloroso. Shakespeare e Agnes aprendem a aceitar o luto cada um ao seu tempo.
É o próprio personagem quem resume a dor indizível da perda numa única frase: “o resto é silêncio”.
Em entrevista ao jornalista Liam Crowley, a diretora e parte do elenco falam sobre como a mitologia influenciou o filme na narrativa e na estética visual. Paul Mescal e Jessie Buckley destacam uma cena em que seus personagens espelham o mito: Agnes, de vestido branco, vira as costas para o noivo — remetendo ao momento em que Orfeu perde Eurídice ao olhar para trás.
O ponto de conexão entre as duas histórias é o luto. Nenhum dos dois tem palavras para a perda, mas ambos ficaram conhecidos por transformar a dor em arte.
O paralelo diverge e converge ao mesmo tempo. Orfeu viveu a perda duas vezes e se culpou por isso. Shakespeare, por outro lado, imortalizou o filho falecido numa homenagem, como se quisesse salvá-lo do submundo através da arte — transformando Hamnet em Hamlet. Por isso o dramaturgo é visto como um “Orfeu redimido”: diferente dele, Shakespeare não olhou para trás.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.