Foto: Warner Bros. Pictures

Por Bárbara Aragão

Em Sinners (Pecadores), Michael B. Jordan interpreta irmãos gêmeos que, após 7 anos, voltam à sua cidade natal no Mississippi com a ideia de abrir um novo bar de Blues. Porém, seus planos de mudar de vida e esquecer o passado de sofrimento são interrompidos por uma força maligna que pretende tomar a região. Smoke e Stack, ambos interpretados por Michael B. Jordan, precisam então encarar seus maiores medos, a morte e sua nova e sombria realidade.

Dirigido por Ryan Coogler (mesmo Diretor de Pantera Negra e Creed, filmes que também contam com a atuação de Michael B. Jordan) e com fotografia de Autumn Durald Arkapaw, a primeira Diretora de Fotografia a gravar em IMAX de 65mm, o longa mistura história de povos marginalizados com horror, construindo uma narrativa sobre memória, identidade cultural e violência histórica. Ambientado num contexto profundamente marcado pelo surgimento do Blues e pelas tensões raciais no sul dos Estados Unidos, Sinners articula temas como religião, família, desejo e liberdade. Mais do que um relato sobre vampiros, trata-se de uma reflexão sobre apropriação cultural, apagamento identitário e sobrevivência simbólica. 


Filmado em 65mm e 15 perfurações, o longa aposta em uma fotografia de contrastes acentuados, explorando intensamente a relação entre luz e sombra. O resultado produz uma atmosfera que oscila entre o realismo histórico e o ritual simbólico. As sequências de dança e música assumem um papel particularmente significativo, nelas o tempo narrativo parece se modificar, permitindo que passado e futuro coexistam no mesmo espaço. A música aparece como um dom orgânico, algo que emerge espontaneamente do corpo e da experiência coletiva. Ao mesmo tempo, o filme sugere que essa capacidade possui uma dualidade espiritual, a música parece romper o véu entre vivos e mortos, convocando temporalidades distintas para um mesmo espaço narrativo.

Em uma das cenas mais emblemáticas, diferentes temporalidades convergem em torno da música, como se o Blues fosse capaz de reunir gerações distintas em um mesmo tempo e espaço. Essa concepção dialoga com os mitos fundadores do próprio gênero, especialmente a narrativa de que o Blues nasce de um pacto de encruzilhada, sendo o ritmo frequentemente associado ao imaginário do “dançando com o diabo”. Historicamente, o Blues foi muitas vezes percebido por setores religiosos como um estilo pecaminoso, vinculado à sensualidade, à noite e ao desvio moral, já que, segundo religiosos, os instrumentos de percussão foram criados pelo próprio Diabo. Em Sinners, a música é apresentada como forma de resistência e sobrevivência, tudo isso sem carregar o título de musical, mas apresentando uma trilha sonora que acompanha lado a lado o roteiro, repleto de significados e letras que trazem sentido à luta dos personagens. 

 A obra explora justamente essa tensão entre o sagrado e o profano. A oposição entre música e igreja remete a um conflito recorrente na história cultural afro-americana, enquanto instituições religiosas buscavam disciplinar corpos e comportamentos, a música se tornava um espaço de expressão emocional, memória coletiva e resistência. Nesse sentido, aquilo que é denunciado como pecado revela-se, na verdade, um gesto de preservação cultural. Essa tensão entre espiritualidade e pecado aparece com força na relação de Sammy com seu pai e com a igreja. No espaço religioso, marcado pelas roupas brancas, pela oração e pela promessa de perdão, a música surge quase como um gesto de mudança. O filme parece sugerir que aquilo que muitos consideravam pecado era, na verdade, uma forma de resistência, um mecanismo de sobrevivência cultural diante das rupturas provocadas pela escravidão, pela colonização e pela diáspora.

O filme também aborda conflitos de estrutura racial que organizam o mundo retratado no filme. A narrativa se passa no ano de 1932 e sugere uma sociedade rigidamente segregada, cujas dinâmicas sociais evocam um regime próximo ao Apartheid, no qual a circulação, o comércio e a sociabilidade seguem fronteiras raciais bem definidas. Até mesmo a economia local aparece fragmentada, determinados espaços comerciais são frequentados exclusivamente por brancos, enquanto outros grupos racializados ocupam posições específicas dentro dessa hierarquia social. Nesse cenário, relações afetivas que atravessam essas fronteiras tornam-se inevitavelmente carregadas de tensão política e social. O elenco contribui muito para contar a história. É especialmente interessante observar como o filme destaca a origem irlandesa do personagem de Jack O’Connell, um ator de origem britânica. Este fator representa certa contrariedade ou até mesmo uma forma de redenção e homenagem ao povo irlandes, uma vez que, durante o início dos anos 20, a guerra contra os britânicos em busca da independência irlandesa levou a diversas mortes em todo o país.

Foto: 2025 Warner Bros. Ent. All Rights Reserved

Dentro dessa estrutura simbólica, os vampiros ganham uma dimensão clara, homens brancos que sugam e transformam aquilo que era significativo para aquela comunidade, apropriando-se da cultura enquanto esvaziam seu sentido original. A metáfora é direta, assim como os vampiros se alimentam do sangue, os processos coloniais se alimentam da cultura dos povos oprimidos, absorvendo e ressignificando esses elementos dentro de estruturas de poder.  Assim, o verdadeiro horror não está nas criaturas sobrenaturais, mas nas estruturas históricas de dominação. Os vampiros prometem uma sociedade aparentemente igualitária, onde todos poderiam coexistir. No entanto, essa igualdade só é possível quando todos se tornam vampiros, ou seja, quando são transformados à força. Assim, o filme expõe certa ironia, aquele que antes era oprimido pode facilmente se tornar opressor. Dessa forma, a busca pela esperança ganha relevância nas cenas pós-créditos, que conectam início, meio e fim da história, sugerindo a liberdade experimentada por uma única noite e criando um paralelo entre diferentes povos que tiveram suas culturas destruídas ou dissipadas por processos coloniais.

      Sinners constrói-se como um horror que evidencia a violência estrutural que atravessa o tempo, mantendo viva, ainda hoje, a dor, o sofrimento e a memória da luta travada por seus antepassados.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.