5 filmes indicados ao Oscar 2026 que desconstroem o mito da “mulher perfeita”
Conheça as personagens femininas que desafiam estereótipos de perfeição e resiliência nos concorrentes do Oscar 2026

Por Vitória Pratini
A temporada de premiações de 2026 não apenas abre espaço para mulheres complexas, mas modifica o que entendemos por protagonismo feminino no Oscar. Se antes as “mulheres difíceis” eram exceções, em que o roteiro ou as punia ou as salvava, os filmes atuais abandonam o desejo de redenção.
Da exaustão doméstica ao luto que flerta com o misticismo, as personagens que dominam as categorias principais este ano habitam espaços de desconforto. São mulheres que, ao renunciarem à performance da perfeição, revelam uma humanidade visceral e, por isso mesmo, hipnotizante. O que vemos em ‘Hamnet’ (2025) ou ‘Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria’ (2025) é o direito à falha, à fúria e ao luto sem concessões.
1. ‘Hamnet’ (2025) (Dir. Chloé Zhao) e a maternidade como território de fúria
Chloé Zhao utiliza a figura de Agnes (Jessie Buckley), esposa de William Shakespeare, para investigar o luto longe do sentimentalismo passivo. Agnes é retratada como uma força da natureza que não cabe nos registros históricos dedicados ao marido. O filme foca na sua recusa em ser apenas a “viúva” ou a “mãe sofredora”; ela é uma mulher que usa o conhecimento de plantas medicinais e o isolamento para enfrentar a perda de um filho. A narrativa coloca o famoso autor às margens do roteiro, priorizando a experiência de uma mulher que não pede desculpas pela própria dor. Pela interpretação de Agnes, Jessie Buckley é favorita na categoria de Melhor Atriz.
2. ‘Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria’ (2025) e o limite ético do cuidado e a exaustão invisível
Este longa é um estudo seco sobre a invisibilidade do trabalho doméstico, e a maternidade real. A protagonista, vivida por Rose Byrne, personifica o esgotamento de quem ocupa o papel de pilar familiar enquanto as próprias necessidades são silenciadas pela rotina. O roteiro evita a redenção fácil. Em vez disso, entrega uma personagem que transita entre o afeto e a aversão, expondo a solidão brutal de mulheres que são socialmente obrigadas a serem inquebráveis. É uma crítica direta à paternidade omissa e à expectativa de paciência infinita colocada sobre o corpo feminino. Rose Byrne concorre na categoria de Melhor Atriz por seu papel.
3. ‘Valor Sentimental’ (2025) (Dir. Joachim Trier) e a irmandade sem filtros e a memória compartilhada
O diretor Joachim Trier explora os laços familiares através de uma lente realista, onde a irmandade não é um refúgio, mas um campo de espelhamento de traumas. As irmãs do filme (Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lileaas) estão unidas pela memória de um pai (Stellan Skarsgård) cuja herança é emocionalmente custosa. Não existe a cumplicidade idealizada; existe a disputa, a inveja e, eventualmente, a aceitação da mediocridade alheia. O filme entende que o apoio feminino pode ser caótico e que a sobrevivência, muitas vezes, depende de reconhecer as falhas de quem amamos.
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4. ‘A Meia-Irmã Feia’ (2025) e o horror corporal e o cárcere da estética
Seguindo uma tendência de horror corporal que utiliza a biologia como metáfora social, o filme investiga a obsessão feminina por um padrão estético inalcançável. Inspirada na meia-irmã da Cinderela, a personagem mergulha em uma espiral de autodestruição para “consertar” o que a sociedade rotula como defeituoso. A narrativa funciona como uma autópsia da vaidade imposta, mostrando que a busca pela perfeição visual é, na prática, um processo de desumanização. É um cinema que incomoda ao transformar a pressão estética em um pesadelo tangível. Assim, torna-se uma crítica aos padrões de beleza impostos, principalmente, às mulheres.
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5. ‘A Vizinha Perfeita’ (2025) e a paranoia como ferramenta de controle social
Este documentário disseca como a imagem da “mulher zelosa” pode ocultar mecanismos de opressão. O filme observa subúrbios onde a manutenção de uma vizinhança ideal é, na verdade, um projeto de exclusão baseado no racismo estrutural. A “perfeição” aqui é traduzida em vigilância constante. É uma obra essencial para entender como o medo é instrumentalizado por mulheres que ocupam espaços de privilégio, transformando a proteção do lar em um ato de agressão contra o que consideram “diferente”.
Além de ‘Hamnet’ (2025), conheça também outros filmes dirigidos por mulheres para assistir nos cinemas e no streaming.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.