Atores paraibanos de O Agente Secreto discutem reconhecimento no audiovisual

Paraibanos de “O Agente Secreto” discutem os desafios de produzir e ganhar visibilidade fora do circuito Rio-São Paulo

Por Carol Cassoli

Foto: Victor Jucá

O mercado audiovisual brasileiro vive um momento de intensa descentralização. Enquanto, durante muitos anos, o Cinema nacional se concentrou em torno do eixo de produção Rio-São Paulo, recentemente, tanto a oferta quanto a demanda por filmes que valorizem a produção fora deste circuito tem aumentado. Por outro lado, enquanto as atenções se voltam a outros pontos do Brasil, artistas envolvidos no elenco dessas e de outras obras de grande repercussão se veem diante de um processo de reconhecimento contraditório. Ao mesmo tempo em que se tornam figuras conhecidas, continuam enfrentando problemas relacionados à valorização da arte e de quem a faz.

A ascensão de obras fora do eixo Rio-São Paulo é fortalecida por políticas públicas, como a Lei do Audiovisual e o Fundo Setorial do Audiovisual, bem como editais regionais e o impulsionamento de celeiros criativos fora dessas duas capitais. Somado a isso, obras como “Bacurau” (2019), “Motel Destino” (2024) e “O Agente Secreto (2025), indicado ao Oscar de Melhor Filme em 2026, têm alcançado espaço em festivais nacionais e internacionais, ampliando a noção de que a força criativa do Brasil tem potência mesmo fora do circuito tradicional.

Este cenário contribui não apenas para a existência de obras audiovisuais mais diversas, mas também tem impactos significativos no desenvolvimento do país e, em especial, das regiões onde são produzidas. Além de gerarem empregos temporários, estas obras contribuem para o aumento do fluxo turístico e, consequentemente, da economia local, gerando impactos mais perenes também.

Na esteira deste panorama está o elenco dos filmes, que ganha reconhecimento público conforme cada obra se consagra nacional e internacionalmente. No entanto, apesar de se tornarem figuras conhecidas, não são raras as vezes em que os atores envolvidos nestas produções ressaltam os desafios estruturais de trabalhar com arte no Brasil. A falta de financiamento local, dificuldades na distribuição e exibição de algumas obras, a ausência de alcance das produtoras e a concentração da crítica especializada no Sudeste, mesmo que o filme esteja ambientado em outros lugares, são pontos frequentemente ressaltados pelas equipes de produção de um filme.

Com o sucesso estrondoso de “O Agente Secreto”, filme dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, que foi indicado a quatro Oscars em 2026, sendo dois deles nas principais categorias da premiação, o elenco do longa ganhou grande destaque. Nomes como o do baiano Wagner Moura, que interpreta o protagonista da obra, das potiguares Alice Carvalho e Tânia Maria e da recifense Hermila Guedes são frequentemente associados ao filme e sua divulgação.

Outros integrantes do elenco também têm logrado reconhecimento, através da inclusão em eventos artísticos e midiáticos. Mas, mesmo assim, a vida deles costuma passar longe da romântica ideia de que artistas têm uma vida de luxo e prestígio. Para eles, o Oscar, por exemplo, é a ponta de um iceberg onde poucos chegam.

Sempre que tem oportunidade, o ator Joálisson Cunha, paraibano que dá vida ao frentista de “O Agente Secreto”, tem se posicionado sobre a valorização da classe artística. “Antes de tudo, eu continuo sendo uma pessoa comum. A vida não mudou. Cheguei em novos lugares e sou muito feliz por isso. Estar em Cannes, ver o filme chegar no Oscar, é maravilhoso. Mas a gente tem que lutar para ser mais reconhecido, mais valorizado”, diz Joálisson em entrevista ao Cine Ninja. O ator explica que, apesar do sucesso do filme, a vida segue a mesma.

Para Fafá Dantas, que também integra o elenco do longa, é importante compreender que o Oscar é um divisor de águas: um fim e, ao mesmo tempo, um começo. “A gente não deixa de se sentir orgulhoso e é o ápice do sonho de um ator estar ali indicado a um Oscar, ganhando um Oscar, mas isso também, por outro lado, é o início de uma nova jornada que requer muito mais da gente pra que a gente consiga chegar em outros lugares também e que você esteja, de fato, ali, diante desse reconhecimento”, diz a atriz, que também é paraibana.

A valorização da classe artística é apontada por Fafá como um passo importante para o fortalecimento do cinema brasileiro e, pensando nisso, a atriz também acrescenta a importância da pluralidade cultural em produções recentes e nas que ainda serão realizadas. “A intenção é que a gente possa representar o nosso estado, a nossa região. E isso reforça a responsabilidade que a gente ganha ao estar ali no Oscar. É o ápice, mas, ao mesmo tempo, é o começo de uma outra jornada”, afirma.

Foto: Divulgação. 
Paraibana Fafá Dantas (segunda da esquerda à direita) interpreta Das Dores em “O Agente Secreto”.

Assim como o colega de set, Joálisson Cunha, Fafá destaca que estar fora do circuito também distancia os atores da idealizada vida de glamour que o público acredita que os atores têm. O fato de morarem fora do eixo Rio-São Paulo também faz com que a visibilidade de alguns artistas seja menor em comparação com colegas nordestinos, por exemplo, que se mudaram para estas duas capitais.

“São diversos motivos, mas, na maioria das vezes, por falta de recursos, a gente vive uma vida que passa longe da glamourização. É uma guerrilha. Como sempre falamos, é cinema de guerrilha, porque as condições nem sempre são as melhores. Mas a gente se esforça, porque a gente quer e tem que entregar o melhor. Temos que valorizar os profissionais que são necessários para uma produção de excelência”, finaliza Fafá ao destacar que apenas a “guerrilha” não é suficiente para que um filme atinja o auge de seu reconhecimento. Segundo a atriz, é preciso, também, que ele tenha os melhores profissionais e, acima de tudo, todos os profissionais necessários.

O sucesso de “O Agente Secreto” e de outras produções de fora do circuito sudestino tem comprovado o fortalecimento do cinema nacional como um processo também territorial, que deve contemplar todas as regiões. Para os artistas envolvidos na produção do longa, reconhecer e investir em talentos locais não apenas amplia as oportunidades para quem atua fora dos grandes centros, mas também contribui para a visibilidade de narrativas e perspectivas mais diversas, pavimentando o caminho para condições mais justas de produção e maior visibilidade para equipes de todas as regiões do país.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.