Quando a história real não basta: o que Marty Supreme deixa a desejar
Ao romantizar a obsessão pela vitória, o filme reforça o ideal de “sonho americano” sem encarar o custo dessa narrativa
Por Luana Brusiano

Deixando de lado a polêmica envolvendo o astro de Marty Supreme, Timothée Chalamet, e focando nos aspectos da trama do aclamado filme, o longa tenta construir uma narrativa com enfoque na ambição, obstinação, fama e desejo de sucesso a partir do imaginário problemático do chamado “sonho americano”. No entanto, mesmo com o frenesi e histeria que conduzem o público durante o desenvolvimento da história e a tentativa de transformar a trajetória de Marty Mauser, jogador de tênis de mesa, em um espetáculo cinematográfico, o filme tem seus deslizes nas escolhas narrativas. O impacto visual e o ritmo acelerado é de fato impressionante, mas uma abordagem mais profunda sobre o personagem e seu contexto deixam a desejar.
Ao longo da trama, Marty Mauser é apresentado como alguém que enxerga o sucesso como um objetivo absoluto, quase um dogma, independentemente das consequências a serem enfrentadas. Sua trajetória é marcada por atitudes egoístas, manipulação de pessoas, havendo vínculo afetivo, ou não, e a disposição de ultrapassar limites éticos para garantir que será o número 1 no esporte. A questão central é que a necessidade de levar o público ao frenesi permite que o comportamento do protagonista seja tratado superficialmente como algo bom, que remete a genialidade do jogador e não aos problemas que suas atitudes geram. A falta de profundidade permite que a obstinação do personagem seja abordada a partir da premissa de que “os fins justificam os meios”, quando na verdade esse cenário é extremamente prejudicial.

Marty Supreme é inspirado na história real de Marty Reisman, um dos nomes mais conhecidos do tênis de mesa nos Estados Unidos. Devido a sua personalidade excêntrica e por sua ascensão improvável no esporte, Reisman construiu uma carreira marcada por vitórias importantes e por uma postura atrevida dentro e fora das competições. No entanto, ao transformar essa trajetória em um espetáculo visual, o filme parece menos interessado em compreender as complexidades da figura real que o inspirou e mais focado em amplificar uma narrativa de fixação pelo sucesso.
A obra reproduz, mesmo que talvez sem intenção, a lógica distorcida do próprio sonho americano em que figuras moralmente questionáveis passam por cima de tudo a fim de conseguirem o que querem. Com um personagem que não é especial como tentam retratá-lo, Marty representa mais do mesmo: uma figura clássica do cinema contemporâneo que nada mais é do que o patético anti-herói sem noção e caráter, mas interpretado como ícone de talento excepcional. O cerne do problema da narrativa não se detém ao retrato de um personagem com moral duvidosa, o que é comum em narrativas dramáticas, mas sim à ausência da avaliação de suas ações a partir de um olhar crítico. Em Marty Supreme, quase todos os momentos (e são muitos!) em que o protagonista manipula pessoas ou age de maneira cruel – e até criminosa – não são tratados como consequências de um sistema competitivo brutal que estimula as pessoas a agirem de tal forma. Em vez disso, aparecem diluídos no ritmo acelerado que a narrativa prioriza, o que contribui para a construção de uma figura “endeusada” do atleta. A ascensão de Marty é pautada em um espetáculo visual constante, com sequências eufóricas, cortes rápidos e uma atmosfera que visa transmitir aos espectadores a intensidade da competição esportiva. Apesar dessa escolha estilística manter o público envolvido do início ao fim do filme, ela também é uma distração que impede uma reflexão mais profunda sobre o preço dessa obsessão.

Marty Supreme reproduz a narrativa prejudicial já conhecida dentro da cultura norte-americana: a idealização de que o sucesso individual é sinônimo de valor pessoal, privilegiando a vitória sem se interessar pelas consequências humanas. A busca pelo primeiro lugar e os comportamentos questionáveis são reinterpretados como sinais de determinação e propósito dentro dessa lógica adotada. Essa perspectiva, sem o devido aprofundamento, permite que as contradições do próprio sistema continue transformando pessoas duvidosas em ícones que nunca serão responsabilizados por seus danos.A energia, o estilo e a estética performática de Marty Supreme podem ser admiráveis, mas um bom filme não se sustenta apenas nisso. A obra celebra a figura do vitorioso sem questionar os mecanismos que produzem e constroem essa trajetória torta. A prova de que apenas a história de Marty Reisman não nutre o filme é o fato de que ao transformar a obsessão em um espetáculo, o longa deixa escapar uma oportunidade de discutir as contradições de um sistema cruel e fragilizado. Afinal, a fascinação cultural pela vitória é universal, mas qual o custo humano para alcançá-la?
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.