A perna cabeluda em ‘O Agente Secreto’ e o realismo fantástico como elemento narrativo
Um símbolo de memória cultural, que potencializa a resistência de forma onírica
Por Safira Ferreira

O queridinho nacional “O Agente Secreto”, possui diversas camadas e técnicas que o tornam um filme completamente cinema, porém, uma das mais curiosas nesse sentido, foi a aparição dessa trama secundária como alívio cômico: a perna cabeluda.
A maioria dos veículos de comunicação da década de 70 apontam a veracidade dessa história, que se tornou uma lenda famosa no país a partir de 1975, ano crítico na ditadura militar brasileira. Sua primeira “aparição” (publicação) aconteceu em Recife. Os moradores a descreviam como uma figura que aparecia de madrugada, e punia com chutes e rasteiras quem se desviavam da ordem.
Dentro da trama, essa figura foi utilizada como símbolo de opressão num cenário de ditadura militar, reforçando o medo que assolava a população. Logo se descobre que sua história enquanto manchete realmente ocorreu e tem sido retomada de forma recorrente — mas é o poder onírico da técnica narrativa do diretor que revela uma nova perspectiva sobre essa personagem, solidificando seu espaço na trama.

O realismo fantástico é uma técnica narrativa que quebra a linearidade do roteiro e a noção de tempo na trama. Pode aparecer como figura, persona, cenário, visão, são múltiplas possibilidades. No caso de ‘O Agente Secreto’, houve uma fusão entre o surrealismo e regionalismo, uma vez que a figura ali representada, enquanto personagem, também significa um símbolo de memória cultural da Recife dos anos 70.
Dentro da sétima arte, essas quebras de realidade acompanham críticas propositais, especialmente quando assumidos por uma figura regional. O diretor do longa, Kleber Mendonça Filho, evidencia que essa lenda atuou como ‘um portal’ para outra dimensão dentro do tempo narrativo, uma vez que o filme é realista, mas em alguns momentos visita essa outra camada.
“A lenda urbana é a fábula perfeita, pois é absurda ao mesmo tempo que tem os pés muito no chão. […] Eu queria muito trazer a perna cabeluda como quase uma assombração dentro do filme.”, comenta o diretor em uma coletiva de imprensa sobre O Agente Secreto,
Além da subjetividade e paralelo ao irreal, como uma pintura dentro da tela, a perna também atua como alívio cômico. Ela possui sua própria identidade em cena, e quando apresentada, transmite uma experiência com diferentes sons, fotografias e atmosfera. Sem contar que é citada em alguns momentos em que os personagens se alegram, o que de fato ilustra como foi vivenciar tudo aquilo num cenário que atraía o oposto.
Logo, se percebe mais uma vez, o quão rico é o cinema brasileiro, quantas referências e alusões podem colidir dentro de uma mesma obra e quantas diferenças culturais também colidem em regiões diferentes do país. É incrível sentir e ver o que a arte permite, como muitos precisam dessa ‘camada’ à parte para se sentirem representados e conseguirem traçar sua voz.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.