Foto: Divulgação/ Victor Jucá

Por Lully Salvador

Atenção, essa matéria pode conter spoilers!

Durante o filme ‘O Agente Secreto’ (2025), um diálogo entre as pesquisadoras Flávia e Daniela, que pode passar despercebido por muitos, revela que o jornalismo se mantém como formação de memória: “…eu tentei dar Google em alguma coisa, mas não tem nada no Google, né? Esse povo é pré-Google…”, pergunta a personagem Daniela. “É. Não tão no Google, né? Tem que ir nos jornais”, responde Flávia. 

O longa conta com a presença de fragmentos de jornais e de notícias que são contadas através do rádio, elas situam o contexto histórico da Ditadura Militar que acontecia na época. É possível observar manchetes que falam o número de mortos no carnaval, debate sobre a democracia e até mesmo a história da perna cabeluda, lenda urbana de Recife (PE), usada em jornais para driblar a censura e denunciar agressões policiais.

Além disso, os jornais contribuem para a construção da narrativa sobre a memória, que é o coração do filme de Kleber Mendonça Filho. A escolha de diálogos, montagem e construção de personagens fazem com que o espectador saia da sala de cinema e pense sobre os perseguidos pela ditadura que eram pessoas comuns, que tiveram suas histórias interrompidas e esquecidas. A presença do jornalismo como fonte de pesquisa remete à sua função social e, principalmente, democrática.

O jornalismo marca narrativas e personagens na história, que tornam pesquisas como a do filme possíveis, ou não. No caso do personagem Marcelo/Armando, seu assassinato está marcado nos jornais, mas muitas pessoas nem isso tiveram. Um ponto interessante a ser pensado é, quem escolhe os personagens que viram manchete? Quem seleciona os que ficarão marcados na história e os que serão esquecidos? Existem valores-notícia que regem a profissão, porém o uso destes e seleção do quê, quem é mais importante, a própria abordagem e construção de narrativa, vai depender sempre da postura do veículo de comunicação. Por isso, é importante que existam múltiplos veículos, com abordagens diversas, para que o jornalismo continue cumprindo sua função social.

A ditadura militar é uma ferida aberta e sangrenta da história do Brasil, com marcas permanentes que perpetuam na sociedade e ressoam em tantas famílias. Nem todos os mortos e perseguidos têm nome e sobrenome marcados na história, e a escolha do diretor por abordar a opressão da Ditadura Militar a partir de uma pessoa comum é um lembrete, e até uma homenagem; a tantos que passaram pelo mesmo e foram apagados. Às vezes, apagados da memória até de sua própria família, como é o caso do personagem do filme. Apesar do final do filme dividir opiniões, a mensagem é clara: a pesquisadora conhece mais o Armando do que o próprio filho dele.

Em um contexto atual onde alguns parecem esquecer o sofrimento dos anos sombrios, com pessoas até pedindo a volta da Ditadura, o filme de Kleber Mendonça Filho surge como importante lembrete: Não foram só políticos e guerrilheiros que foram perseguidos, pessoas comuns, professores, médicos, estudantes, também sofreram e foram perseguidos. Não era só quem se expunha que era assombrado pela ditadura. O filme ressalta a memória dos comuns e a gravidade da Ditadura Militar. É um recado: não podemos nos esquecer nunca.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.