Por Bianca Samara Torres

Foto: Cenas de ‘Orfeu Negro’ (1959) e ‘Hamnet’ (2025). Montagem: Bianca Samara Torres

“De Eurídice gentil à doce vida

O fio renovai, tão cedo roto.

Ela, todo o mortal vos é devido,

Vem tudo, agora, ou logo, à mesma estância,

Para aqui pende tudo, é este o nosso

Derradeiro, infalível domicílio;

Vós tendes, vós gozais, a vós compete

Da espécie humana o senhorio imenso;

A que exijo de vós há de ser vossa

Por inviolável jus, por lei dos Fados,

Tocando o termo da vital carreira:

O uso do meu prazer em dom vos peço.

Se o Destino repugna ao bem, que imploro,

Se a esposa me retêm, sair não quero

Deste horror: exultai co’a morte de ambos.”

(Metamorfose, Livro X, de Ovídio)

A tragédia grega de Orfeu e Eurídice está presente em diversas obras dentro da sétima arte. O mito surge após a jovem Eurídice ser picada por uma cobra e, ao ser levada para o submundo, seu amado Orfeu tenta negociar com Hades, deus do submundo, a trazer Eurídice de volta à vida. Nisso, Hades sugere: Orfeu terá que ir na frente, enquanto Eurídice irá acompanhá-lo logo atrás, mas há um porém: Orfeu não poderá olhar para trás ou, se não, o acordo não será realizado. Orfeu surge como um personagem impaciente e ansioso para ter de volta sua amada, o que faz ele olhar para trás e, consequentemente, ver Eurídice morrendo pela segunda vez. Adaptada diante as diversas narrativas que o cinema nos oferece, o mito sobre a história de negociação com a morte se torna um símbolo importante para o destrinchamento daquilo que não quer ser dito, visto ou demonstrado em primeira mão. Por exemplo, em ‘Retrato de uma Jovem em Chamas’ (2019), filme da francesa Céline Sciamma, a história trágica de amor entre Orfeu e Eurídice nos leva para além do roteiro, nos apresentando um formato diferente para entender o sofrimento entre as personagens Héloïse (Adèle Haenel) e Marianne (Noémie Merlant). Já nos palcos, o musical ‘Hadestown’, estreado em Broadway em 2019, nos apresenta a história a partir das melodias que passeia entre as linhas escritas por Ovídio e Virgílio. A flexibilidade do uso do mito apresenta uma ferramenta simbólica e dramática para diferentes histórias, nos permitindo viajar entre obras de épocas diferentes, mas que possuem a mesma travessia orfeica. É o caso de ‘Orfeu Negro’ (1959), dirigido pelo francês Marcel Camus, e ‘Hamnet’ (2025), de Chloe Zhao.

Cena ‘Orfeu Negro’ (1959). Foto: Divulgação

‘Orfeu Negro’ (1959) foi premiado na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar de 1960 e, apesar de ser uma produção francesa, é considerado por muitos como o primeiro filme brasileiro a ganhar uma estatueta. Isso porque o elenco é composto por brasileiros e a obra é baseada na peça “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes. Situado no início do Carnaval do Rio de Janeiro, o filme acompanha o encontro de Eurídice com Orfeu, um jovem músico e trabalhador. 

A ligação romântica dos dois é instantânea, como se fossem feitos um para o outro. Ainda noivo, ele não consegue esquecer Eurídice que também sente o mesmo, mas antes de poder aproveitar esse sentimento, ela luta contra a perseguição de um homem desconhecido que deseja sua morte. Orfeu acaba se tornando uma peça central para a proteção da sua mais nova amada. O papel de Hades, o deus grego do submundo, está no homem fantasiado de caveira que persegue Eurídice. Ainda que protegida pelo carnaval e até mesmo por Orfeu, ele aparece atrás dela, não se importando com os obstáculos que os outros personagens colocam no seu caminho o impedindo de alcançar a alma desejada por ele. Ao proteger pela primeira vez a amada da morte, Orfeu não é confrontado pela Morte. No lugar, o homem encapuzado revela que não tem pressa. A metáfora surge aqui ao apresentar que, só morremos quando é nossa hora. A ida iminente ou a fuga insistente não adiciona ou subtrai no trabalho da Morte. 

Para ainda participar da festa de Carnaval sem ser perseguida pela Morte, Eurídice se fantasia com um véu azul escondendo seu rosto. A sequência do Carnaval é caótica: não sabemos onde está Eurídice, muito menos Orfeu. A multidão enche as ruas da cidade maravilhosa, nos impedindo de perseguir os personagens. Ainda assim, a Morte procura: ele pesquisa a multidão procurando sua alma desejada. A Morte busca uma forma de se aproximar da alma de Eurídice, tentando a prender com serpentinas que enrolam seu corpo e a impedem de continuar aproveitando com Orfeu. Tentando escapar das fitas que a prendem, Eurídice perde o amuleto que carregava no pescoço, a fazendo revelar o seu rosto na multidão. Assustada, Eurídice foge por meio das pessoas que ainda aproveitam a festa. A Morte finalmente a encurrala. 

A Morte a persegue e consegue capturá-la dentro de uma fábrica vazia e escura. A música cessa: o silêncio é o que preenche a perseguição. Orfeu a encontra, mas é tarde demais. Para fugir da morte, Eurídice se segura em um fio de alta tensão. Gritando o nome do seu amado, Orfeu corre para acender a luz do local, fazendo com que Eurídice fosse eletrocutada sem saber. “Agora ela é minha!”, diz a Morte. 

A morte perseguindo Eurídice (fotograma do filme Orfeu Negro, de Marcel Camus, de 1959)

O submundo é transformado no ato final do filme. Agora, Orfeu busca pela sua amada em lugares que a Morte rodeia. Primeiro, no hospital. Depois, na delegacia. Eurídice não está lá. Ela se foi para um lugar junto com a Morte, lugar que Orfeu não consegue alcançar com seus próprios passos, pois ainda não lhe é permitido. É só com a presença de um homem que abre os portões do cemitério que ele chega o mais perto possível daquilo que não é visto de forma crua e visível. Uma roda de macumba traz a música de volta para a narrativa, com um ponto sendo tocado entre os participantes. Um sino é tocado. Uma entidade desce no corpo de uma mulher. Ela grita com seu corpo tremendo. Seus cabelos arrepiam e seus braços se levantam – exatamente como Eurídice morreu. O homem insiste para Orfeu: “Chama ela. Canta, Orfeu, canta”. 

Orfeu obedece. Seus lábios se mexem com a melodia do canto, seus olhos se fecham. De repente, ele abre os olhos. “Eurídice!” Ele grita, automaticamente virando seu corpo para trás para procurar sua amada. A música para: apenas a voz de Eurídice surge; “Não olhe para trás, Orfeu, senão, não me verá nunca mais. Eu me aproximo de você, Orfeu. Me amará bastante para aceitar de me ouvir sem me ver?” O acordo é cruel para Orfeu. Como ele aguentará não ver a amada, com seus braços vazios? Ele se recusa e se vira, olhando para trás. Uma senhora fala com a voz de Eurídice: “Orfeu, você me mata! Adeus, Orfeu. Você nunca mais vai me ver.” 

A música surge no filme como a lira que causa esperança por um futuro mais calmo e seguro. Seja do conforto que Orfeu oferece com uma música inventada para Eurídice, como também da magia de trazer Eurídice da morte dentro de uma gira de macumba. Nas suas mãos, Orfeu tem a arma mais poderosa que poderia existir: a arte, que abre o único caminho possível para trazer sua amada de volta. Ainda, a oferta da Morte não é cumprida. A consequência é a morte de Orfeu – não carnal, não do seu corpo, mas da sua alma e sua vontade de viver. Como um ato de despedida, Orfeu canta pela última vez ao segurar o corpo de Eurídice enquanto sobe o morro. No topo, ele encontra sua noiva revoltada, que o ataca, jogando pedras. Orfeu dá um passo para trás e cai morro abaixo, junto com o corpo pálido e gélido de Eurídice. Esse é o seu fim.

Temendo o amante aqui perder-se a amada,

Cobiçoso de a ver, lhe volve os olhos:

De repente lha roubam. 

Corre, estende

As mãos, quer abraçar, ser abraçado, 

E o mísero somente o vento abraça.

Ela morre outra vez, mas não se queixa,

Não se queixa do esposo: e poderia

Senão de ser querida lamentar-se?

Diz-lhe o supremo adeus, já mal ouvido;

E recai a infeliz na sombra eterna.

(Metamorfose, Livro X, de Ovídio)

‘Hamnet’ (2025), filme dirigido por Chloè Zhao, se conecta com o mito de Orfeu e Eurídice de forma mais implícita. Ainda no início da obra, o mito é introduzido na narrativa quando William conta sobre para Agnes, como uma forma de conquistá-la. Agnes ri, e diz que é uma boa história. Mal sabe que ela está inserida na mesma dinâmica. 

Hamnet’ (2025). Foto: Divulgação/ Focus Features

Aqui, não temos personagens que se nomeiam Orfeu, Eurídice ou Hermes. A obra gira em torno da rotatividade dos sentimentos do mito grego. A Morte, ou Hades, está presente na praga que afeta os filhos de Agnes e William. Enquanto a negociação com a Morte está na luta constante de Orfeu proteger a amada em ‘Orfeu Negro’ (1959), Zhao apresenta a enganação quando os gêmeos brincam de trocar de papéis para enganar seu pai e, mais na frente, quando Hamnet pede para morrer no lugar da sua irmã. A Morte foi enganada, sim, talvez. Mas, no final de tudo, ela ainda leva uma alma junto com ela. A dor de Eurídice ao ser levada no corpo de Hamnet sobrevoa dele para o alvo inicial, que era a irmã, que também surge na mãe, Agnes, que grita ao segurar o corpo imóvel do seu filho em seus braços, se sentindo inútil por não conseguir impedir a fatalidade. Não existe a negociação a partir dela. Existe a luta, o sofrimento e, principalmente, a raiva. 

Orfeu surge no papel de William, aquele que não consegue expressar em gritos a morte do seu tão desejado filho. A negação é inserida na dor que é transformada em arte. A lira, diferente de ‘Orfeu Negro’ (1959), é proposta sem melodia, sem qualquer outro som a não ser as falas da peça que William escreve. Hamlet acompanha um jovem príncipe da Dinamarca que busca vingança pela morte do seu pai. A composição da peça produzida por William incomoda Agnes, que acredita que ele estava utilizando a dor da perda do seu filho como um meio de entretenimento – considerando que a peça de teatro foi divulgada como tragicomédia. Como pode, ele, subverter a dor de uma mãe que cuidou dos filhos doentes, enquanto William trabalhava longe de casa para realizar seu sonho de ser escritor? Como pode a dor de Agnes ser transformada em uma comédia quando ela era quem estava em busca de uma possível negociação com aquele inegociável? 

‘Hamnet’ (2025). Foto: Divulgação/Focus Features

‘Hamnet’ nos apresenta uma possibilidade de significação em volta da fatalidade de uma forma que o mito se torna insuficiente para completar sua magnitude. Por isso, surge a rotação. É possível pensar que, tanto Agnes, como William, estavam no papel de Orfeu ao “olhar para trás”. William, ao escrever a peça como um meio de negociar com a Morte utilizando aquilo que ela indeseja, que no caso é a infinitude da vida por meio da arte. Agnes, por se permitir ir até a peça e assisti-lá mesmo que ainda esteja repleta de raiva, ódio e incompreensão. Ambos olham para trás. A mãe, ao perceber que a peça fugia de uma comédia e ao entender que, a partir da pena molhada na tinta que samba no papel, William deu uma última oportunidade a ela de ver seu filho novamente a partir da narrativa da história. Hamlet, um jovem loiro, morre na beirada do palco, ajoelhado em frente de Agnes que, atônita, reconhece. Corre, estende / As mãos, quer abraçar, ser abraçado, / E o mísero somente o vento abraça. / Ela morre outra vez, mas não se queixa, / Não se queixa do esposo: e poderia / Senão de ser querida lamentar-se? Ali, ela se despede do filho ao oferecer sua mão para Hamlet. As pessoas ao seu redor a imitam: mãos abraçam a infinitude de uma negociação sucedida com a Morte. A travessia orfeica, portanto, se finaliza. Tal como a obra de Camus situada no calor da cidade maravilhosa, quanto com Zhao no frio da Inglaterra, as narrativas se cruzam com um mito grego que assombra os caminhos da vida e, principalmente, da Morte. 

Aquele que morre, não é esquecido. Seja por deixar seu violão com crianças ou por ser citado, recitado, encenado e reencenado nos últimos 430 anos. A Morte pode levar o título de campeã, mas ela nunca conseguirá matar a imensidão da memória.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.