Os personagens que ficaram na minha cabeça nesse Oscar
O que essa atriz, essa mãe,esse jogador e essa revolucionária estão fazendo aqui?
Por Paula Cunha

Começo a assistir aos filmes indicados ao Oscar. Eu preciso, né? Afinal, quero escrever sobre eles. Vou engatando um após o outro: Valor Sentimental, Se Eu Tivesse Pernas, Te Chutaria, Marty Supreme, Uma Batalha Após a Outra, Sirat, Song Sung Blue. E penso: o que essas pessoas estão fazendo aqui?
Um diretor de cinema, prestigiado e solitário, que abandonou as duas filhas: uma renomada atriz de teatro, com problemas de ansiedade e depressão, e a outra casada, com um filho feliz. Um vendedor de sapatos pilantra que sonha em ser jogador profissional de tênis de mesa. Uma mãe sobrecarregada e sem rede de apoio, às voltas com álcool, drogas e um amigo muito bonito. Uma revolucionária trickster e manipuladora. Jovens — que você não sabe de onde vieram — em uma rave no meio do deserto do Saara. Um casal apaixonado que tem uma banda tributo e vive às margens do sucesso; nessa história eu não vou me aprofundar, mas é muito bonitinha, vale a pena assistir.
A maioria de nós, trabalhadores, só tenta viver suas vidas banais: trabalhar, pagar as contas, resolver problemas, dar conta de tudo, seguir em frente. Mas, por trás da rotina, estão sempre os conflitos internos. Dentro de nós existem desejos, frustrações, sonhos absurdos e perguntas que ninguém vai poder responder (ou até mesmo ouvir).
E é isso que fica na minha cabeça enquanto penso nos filmes e busco algo em comum entre eles. Normalmente eu falo de mulheres, mas Martin Mauser e Gustav Borg ficaram no meu pensamento e eu não podia deixar que eles passassem batido. Gustav, pelas duas filhas que teve, e Martin por ser um underdog. Eu sempre me interessei muito mais pelos “menos prováveis” do que pelos “bem-sucedidos”. E, se a gente olhar de novo, Martin e Gustav representam bem esses lados opostos: o jogador azarão e o cineasta premiado.
Mas vamos deixar o Gustav de lado e pensar em gente que tem o modo sobrevivência o tempo todo ligado. Foram eles que eu vi aqui, nesses filmes. Vi muitos desses personagens também em Sirat: não tem como esquecer os dançarinos nômades em transe, o cara com uma prótese na perna, as roupas — algumas vezes sujas e até rasgadas —, tudo junto ali, vivendo só o presente.

Nora, Linda, Martin e Perfidia não são pessoas comuns perseguindo o status quo. Linda não é porque ela está praticamente só sobrevivendo e mantendo a filha viva, um dia após o outro. E nenhum deles, na verdade, aguenta mais esse status quo. Nora é filha de um cineasta, mas escolheu ser atriz de teatro. Ela tem ímpetos ansiosos e depressivos que afetam seu trabalho, apesar de tentar disfarçar. Eu sei como é ter problemas de saúde mental e sentir que tem alguma coisa diferente com você, que você não é igual aos outros — como na cena inicial do filme em que Nora quer sair correndo do teatro e começa a rasgar o próprio vestido da peça.
Linda é uma mãe sem um minuto de sossego e que, entre cuidar da filha e ir à terapia, tenta resolver um buraco que apareceu em sua casa e alagou o apartamento. Agora elas moram em um hotel, e ela passa as noites tentando se alienar bebendo vinho, fumando maconha e ouvindo música, sempre no escuro e sozinha.
Martin é um dos mais à vontade com sua situação. Ele tem um propósito: ser jogador de tênis de mesa. E vai fazer o que tiver que ser feito para chegar lá — mentir, roubar, trapacear. O mundo “normal” não serve para ele, que usa uma arma que não é dele para ficar com um dinheiro que tem que receber, faz exibições queima-filme pelo mundo — jogando até com uma foca — e disputa partidas por dinheiro, apostando e enganando desconhecidos.
Perfidia Beverly Hills é a minha favorita porque ela é a personificação da trickster, um dos arquétipos mais antigos da humanidade. O trickster aparece em mitologias do mundo inteiro como a figura que quebra regras, engana, provoca caos e revela verdades escondidas. Eles desorganizam o mundo para revelar como ele realmente funciona.
Perfidia é uma revolucionária que usa seu poder de sedução para conseguir o que quer enquanto faz ameaças por telefone, explode bombas e assalta um banco. Sua filha com Pat é, na verdade, filha de um supremacista nazista que ela conheceu enquanto libertava imigrantes — e ela abandona a menina e o marido para ir viver a própria vida.
No final, me peguei pensando: em todos esses filmes que escolhi para assistir, os personagens são pessoas que não se encaixam na maioria das expectativas sociais, que não seguiram aquela velha fórmula de construir uma família de margarina e que, ou não podem ou não querem, ser iguais a todo mundo.
“Até quando você vai ficar nessa?”
“Essa” é a vida deles — e tudo bem ser diferente.
O que essas pessoas estão fazendo aqui? Estão vivendo suas vidas meio fora do lugar, com humor e lágrimas. É buraco abrindo e água inundando, banheira destruindo andar e caindo em cima do cachorro do vizinho. São bases que não se sustentam enquanto você só vai lá e vive.
Enquanto eu assistia a Sirat, explicaram o significado da palavra: o caminho muito estreito entre o paraíso e o inferno. Como as estradas cheias de curva e quase sem espaço para os carros no filme. É o caminho de gente que se afastou da rota que todo mundo percorre — gente que continua seguindo esse caminho, sinuoso e perigoso, porque essa é a única opção.
Mesmo querendo parar, a gente não deixa de seguir em frente.
E a você que chegou até aqui: vale a pena assistir a todos eles.
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Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.