A beleza da decadência e o gótico que nunca morre
O novo “Frankenstein”, indicado ao Oscar, ajuda a explicar porquê a estética gótica continua voltando ao cinema em tempos de crise
Por Bea Alcântara

O gótico nasceu como estética junto com sua própria ficção, com o lançamento de “O Castelo de Otranto”, de Horace Walpole, em 1764. Ruínas, castelos medievais, paisagens sombrias e conflitos familiares estavam entre os elementos centrais do livro. Eles ajudariam a definir o gênero e continuariam reverberando séculos depois em novas obras e adaptações.
Um exemplo recente é “Frankenstein” (2025), de Guillermo del Toro, indicado ao Oscar em nove categorias, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante e áreas técnicas como Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e Melhor Maquiagem e Cabelo. Essas indicações reforçam o peso que a dimensão estética ocupa na obra.
O longa é um gótico de carteirinha. Ele reúne elementos clássicos que expressam uma das tensões centrais do gênero, a convivência entre decadência e opulência. Como descreve David Punter, professor de inglês na Universidade de Bristol e especialista em cultura gótica, na obra “Literatura do Terror” (The Literature of Terror), o gótico é “uma literatura fascinada pela decadência do poder e pelo espetáculo de seus restos”.
Essa relação entre poder e ruína não é casual. O gótico surge justamente quando o poder aristocrático começa a ruir. Castelos, vestidos luxuosos e salões decadentes continuam presentes nessas narrativas, mas agora aparecem como vestígios de um mundo em colapso. Em “Gothic”, Fred Botting explica esse fenômeno ao afirmar que “as narrativas góticas dão forma às ansiedades culturais”.

Essa tensão se intensifica no século XIX, durante a Era Vitoriana. Nesse período, vestir o luto se tornou uma prática social rigorosa, principalmente após a morte do príncipe Albert, em 1861. A Rainha Vitória passou o restante da vida usando vestidos pretos, o que ajudou a transformar o luto em norma e também em estética dominante.
Esse código de vestimenta traduzia a experiência da perda sem recorrer às palavras. Durante o período conhecido como luto profundo (deep mourning), os vestidos eram inteiramente pretos, feitos com tecidos foscos e sem brilho. O resultado era uma silhueta pesada, quase espectral.
No estágio seguinte, conhecido como meio-luto (half mourning), as cores voltavam gradualmente. Tons de cinza, lilás e até branco marcavam essa transição visual entre a vida e a morte.
Quando o cinema incorpora esse imaginário, as narrativas ganham novas camadas. Moda e direção de arte passam a trabalhar diretamente a favor do roteiro. Em “Frankenstein” de Del Toro, esse diálogo aparece no trabalho da figurinista Kate Hawley e da diretora de arte Tamara Deverell. Além de retomar referências como o vestido de noiva de Elizabeth, interpretada por Mia Goth, em alusão ao figurino de “A Noiva de Frankenstein” (1935), a dupla constrói visualmente a dualidade entre a ascensão do poder do criador e a queda impotente diante da criatura.
Maquiagem e cabelo também participam dessa construção. No livro “Mary Shelley: Her Life, Her Fiction, Her Monsters”, Anne K. Mellor afirma que “o corpo do monstro representa a ansiedade de uma sociedade confrontada com suas próprias criações”. No filme de Guillermo del Toro, a caracterização de Jacob Elordi, indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, reforça essa leitura.
Mas “Frankenstein” é apenas um exemplo.

No cinema contemporâneo, outras produções retomam a estética gótica, atualizando seus códigos para novas gerações. Isso acontece em “Nosferatu” (2024), de Robert Eggers, e em “”O Morro dos Ventos Uivantes”” (2026), dirigido por Emerald Fennell. Em outros casos, o gótico aparece como parte da assinatura visual de determinados cineastas, algo recorrente na filmografia de Guillermo del Toro, a exemplo de “O Beco do Pesadelo” (2021).
Também não é raro que o gênero ganhe força em períodos de crise. O primeiro grande boom do gótico ocorreu entre 1760 e 1820, quando a Europa atravessava transformações profundas como o Iluminismo, a Revolução Industrial, a Revolução Francesa e o declínio do poder aristocrático tradicional. Obras como “O Castelo de Otranto”, “Os Mistérios de Udolfo” e “Frankenstein”, de Mary Shelley, surgem nesse contexto.
Entre as décadas de 1920 e 1930, a relação reaparece no cinema. O trauma da Primeira Guerra Mundial, a crise econômica e a ascensão de regimes autoritários se refletem em obras como “Nosferatu” (1922) e “A Noiva de Frankenstein” (1935).
Outro momento acontece entre os anos 1980 e 1990, quando crises culturais e o clima de tensão da Guerra Fria impulsionam um revival do gótico. O cinema volta a beber dessa fonte em filmes como “Drácula de Bram Stoker” (1992) e “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça” (1999).
Desde o surgimento da literatura gótica no século XVIII, o gênero costuma ressurgir quando a sociedade atravessa momentos de instabilidade. Castelos em ruínas, aristocratas decadentes e monstros que desafiam a ordem natural funcionam como metáforas para um mundo em transformação.
No cinema contemporâneo, essa estética continua cumprindo esse papel. Ao trazer de volta veludos, bandagens e silhuetas vitorianas para o centro da narrativa, “Frankenstein” mostra que o gótico nunca abandona o luxo. Ele apenas o coloca em confronto direto com a decadência.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.