‘Sinners’: quando o colonialismo mostra os dentes
Filme de Ryan Coogler leva vampiros e blues ao Oscar para discutir identidade, resistência e memória negra.

Por Victor de Amorim Arruda
O filme não é didático ao extremo; ao contrário, transfere ao espectador a responsabilidade de compreender o contexto histórico e as tensões sociais que atravessam a narrativa. Racismo, violência e desigualdade aparecem como forças estruturais daquele período. Ao mesmo tempo, o longa transforma o blues em um poderoso símbolo de resistência negra. A música surge como memória coletiva, expressão cultural e elo com a ancestralidade — uma forma de preservar identidade diante de processos históricos que tentaram apagá-la.
Esse peso simbólico se intensifica na cena da roda de música, quando o vampiro original surge cantando Rocky Road to Dublin. No cinema, raramente algo é gratuito. A escolha da canção evoca o histórico de dominação cultural britânica sobre a Irlanda e ecoa um dos temas centrais do filme: a imposição cultural e o apagamento de identidades. Ao inserir essa referência, o diretor Ryan Coogler estabelece paralelos entre diferentes processos históricos de colonização e assimilação cultural.
Essa discussão ganha força na figura do vampiro Remmick, que oferece aos personagens a vida eterna, livre das dores e limitações humanas. À primeira vista, trata-se de uma promessa de libertação. No entanto, o “presente” cobra um preço simbólico profundo: ao aceitá-lo, o indivíduo deixa de existir como sujeito singular e passa a integrar um coletivo homogêneo.
O paralelo histórico é evidente. Assim como processos de dominação cultural frequentemente exigem assimilação — apagando língua, memória e costumes para sobreviver dentro de um sistema dominante —, a oferta de Remmick também implica renunciar àquilo que define quem se é. A promessa de pertencimento cobra como moeda a perda da individualidade, da cultura e da própria memória.
Assim, o filme constrói uma reflexão sobre pertencimento e identidade. Tornar-se parte de um sistema dominante pode significar sobrevivência, mas também implica o risco do apagamento histórico. No contexto da narrativa, essa tensão se manifesta especialmente na experiência negra: integrar-se ao “todo” muitas vezes exige abrir mão de memória, cultura e identidade.
A dimensão simbólica da obra também aparece em sua trajetória na temporada de premiações. O longa tornou-se o filme mais indicado da história do Academy Awards, um feito ainda mais significativo por se tratar de uma produção de terror — gênero historicamente pouco prestigiado pela Academia. O reconhecimento reforça como narrativas de gênero podem carregar profundidade política, estética e cultural.
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Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.