Entre pais, ausências e escolhas

Os filmes do Oscar 2026 exploram diferentes retratos da paternidade.

Por Oliver Pontes

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Existe algo curioso atravessando vários dos filmes que orbitam o Oscar 2026.
Não é um gênero, um estilo ou muito menos uma estética. É uma figura. E essa figura se chama: o pai.

Assistindo aos filmes deste ano, tive a sensação de que muitos roteiros estão orbitando a mesma pergunta silenciosa: o que significa ser pai agora?

Não no sentido clássico ao qual o cinema acostumou o público durante décadas. Durante muito tempo, o pai foi uma figura quase automática na narrativa: o provedor, o homem firme, o arquétipo da autoridade silenciosa.

Mas os filmes deste momento parecem menos interessados em repetir esse modelo e mais interessados em observar algo mais humano. E, dentro dessa visão, surgem os diferentes olhares que orbitam o Oscar — possíveis variações de um pai.

Em The Secret Agent, o personagem de Wagner Moura carrega um passado que não pode simplesmente desaparecer. O mundo ao redor mudou, os contextos políticos mudaram, mas a paternidade cria uma espécie de responsabilidade inevitável: o desejo de proteger o filho de algo que talvez o próprio pai tenha ajudado a construir.

Em Sentimental Value, a paternidade aparece de outra forma. Não como ação direta, mas como legado emocional. O pai ali é uma presença que continua existindo nas memórias, nas marcas e nas lacunas que deixou. Há pais que permanecem mais fortes depois que saem de cena.

Já em One Battle After Another, vemos outro tipo de relação. Um pai que ama profundamente a filha e tenta impedir que ela seja atraída pelos mesmos caminhos turbulentos que um dia definiram a vida dele. Não é apenas proteção; é quase uma tentativa de reescrever o próprio passado através do futuro dela.

Esses homens não são iguais — e talvez seja exatamente isso que torna esse conjunto de filmes tão interessante. Porque, ao mesmo tempo, o cinema também apresenta o outro lado dessa régua.

Em If I Had Legs I’d Kick You, a história é dominada por uma mãe que sustenta quase sozinha o peso cotidiano da vida familiar. O filme mostra, com intensidade, a exaustão de quem precisa manter o mundo funcionando enquanto tudo parece à beira do colapso. Nesse retrato surge outra figura masculina possível: aquele pai que não ocupa o espaço que poderia ocupar. Não como vilão — mas como ausência.

Quando olhamos para todos esses filmes juntos, surge uma sensação curiosa: o cinema deste momento não parece interessado em julgar os pais. Ele parece interessado em medi-los.

Porque, entre o pai que tenta proteger os filhos do próprio passado e o pai que simplesmente desaparece da equação, existe um espectro inteiro de possibilidades masculinas. Homens que tentam, homens que falham, homens que amam profundamente, homens que não sabem exatamente como lidar com esse papel.

Talvez seja por isso que a paternidade tenha se tornado um território tão fértil para as histórias contemporâneas. Ser pai já foi um papel definido pela cultura. Hoje, parece mais uma construção em aberto.

O cinema, como sempre atento às transformações silenciosas da sociedade, parece ter percebido isso antes de muita gente. E, nesse sentido, o Oscar deste ano talvez esteja mostrando que não existe um único modelo de pai — existe uma régua.

E cada história, à sua maneira, tenta descobrir onde esses homens se encontram nela.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.