Falta de diversidade revela problemas na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar
A categoria que deveria reconhecer a diversidade do cinema mundial revela desigualdades nas indicações e premiações.
Por João Pedro Mello e Amábili Gomes

Criada oficialmente em 1956, a categoria Melhor Filme Internacional do Oscar premiou filmes não estadunidenses de maneira honorária desde 1947. Originalmente chamada de Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, passou por uma mudança de nome em 2019.
Mesmo com a alteração, a categoria ainda carrega uma série de questionamentos sobre seus critérios de seleção e, principalmente, sobre a centralidade dos Estados Unidos no processo de reconhecimento do cinema mundial.
Um ano depois da formalização da categoria, em 1957, aconteceu a primeira edição do Oscar com o prêmio oficialmente incluído. Desde então, a categoria se tornou uma das principais portas de entrada para que filmes de diferentes países ganhem visibilidade internacional.

Apesar disso, a distribuição das indicações e vitórias revela um cenário desigual. Países europeus, especialmente a Itália e a França, concentram grande parte das conquistas na categoria, enquanto produções de outras regiões do mundo, como América Latina, África e Ásia, aparecem com menos frequência entre os indicados e vencedores.
Os critérios da categoria
Para que um filme não estadunidense concorra ao Oscar, ele precisa passar por uma seleção interna em seu país de origem. Cada nação possui uma comissão responsável por escolher qual produção irá representá-la na disputa pela categoria de filme internacional. Essas comissões precisam ser reconhecidas como “representações oficiais” de cada país pela Academia.
Nas outras categorias do prêmio, os filmes selecionados passam pela curadoria dos membros da Academia, que escolhem os melhores filmes. Nessa disputa específica, porém, essa seleção é delegada a essas representações. No Brasil, essa decisão é tomada pela Academia Brasileira de Cinema.
Para o Oscar 2026, a instituição divulgou os títulos que participaram da etapa nacional. Entre os selecionados estavam filmes como: “A Melhor Mãe do Mundo”, “Homem com H”, “Oeste Outra Vez”, “Manas”, “Milton Bituca Nascimento”, “O Filho de Mil Homens” e outros. Ao final do processo, o escolhido para representar o país foi “O Agente Secreto”.

Depois dessa etapa, o filme indicado por cada país é enviado à comissão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pela premiação. As obras passam por um processo de curadoria que inclui uma primeira triagem, seguida pela divulgação de uma lista de pré-selecionados e, por fim, a definição dos indicados oficiais.
Como apenas cinco produções disputam a estatueta na categoria de filme internacional, o processo funciona como uma grande peneira. Além disso, cada país pode inscrever apenas um representante, o que faz com que muitos filmes considerados fortes candidatos fiquem de fora ainda nas seleções nacionais. Isso ocorre justamente por conta desse sistema de representações oficiais, que existe apenas na categoria de Melhor Filme Internacional.
Os longas dessa modalidade não têm obrigatoriedade de estrear nos Estados Unidos, precisam ter produção de entidades não estadunidenses e, em sua maior parte, ser falados em língua não inglesa para serem elegíveis.
Europa separada como centro cultural
Um dos grandes problemas dessa categoria é justamente o fato de haver apenas uma vaga para cada país. A justificativa para esse critério é evitar que apenas produções europeias dominem a disputa. No entanto, na prática, essa dominância ainda acontece. Historicamente, a grande maioria dos indicados e vencedores da categoria é europeia.
As produções europeias já venceram a categoria 57 vezes até 2025, contra apenas 9 prêmios conquistados por países fora da Europa. Além das premiações, os países europeus também têm maioria nas indicações (entre 3 e 4 filmes dos 5 indicados da categoria) desde 2013 — com exceção de 2019.
- 2013: 3 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2014: 3 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2015: 3 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2016: 3 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2017: 3 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2018: 3 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2019: 2 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2020: 4 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2021: 4 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2022: 3 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2023: 4 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2024: 3 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2025: 4 filmes europeus entre os 5 indicados.
- 2026: 3 filmes europeus entre os 5 indicados.
Fonte: levantamento feito pela equipe do Cine Ninja a partir de análises de reportagens do New York Times desde 2013.
Neste ano, não é diferente. Apenas dois dos cinco indicados não são europeus: “O Agente Secreto”, do Brasil, e “A Voz de Hind Rajab”, da Tunísia. Na edição anterior do Oscar, em 2025, apenas um filme não europeu foi indicado a essa categoria: “Ainda Estou Aqui”, também do Brasil.

Segundo um levantamento da CNN, das 377 indicações feitas entre 1957 e 2025, apenas 29 foram para filmes latino-americanos e somente 3 saíram vencedores. Em números, isso representa 8,43% das indicações e 4,41% dos filmes vencedores.
Na Ásia, quem mais se destaca é o Japão, com 5 vitórias, sendo o terceiro país com mais conquistas na categoria — atrás apenas da Itália (14) e da França (12). Isso considerando também as vitórias da época em que a premiação era honorária. Se não forem contabilizadas, o Japão tem 2 estatuetas e não faz parte dos cinco países mais premiados.
Já outros países do continente quase não são lembrados pela premiação. Nem mesmo a indústria indiana, conhecida como Bollywood — uma das maiores do mundo — costuma aparecer entre os indicados. Desde 1956, apenas três filmes indianos foram indicados à categoria de Melhor Filme Internacional: “Mother India”, em 1958; “Salaam Bombay!”, em 1989; e “Lagaan: Era uma Vez na Índia”, em 2002. Nenhum deles venceu.
A Coreia do Sul tem apenas uma indicação e uma vitória, pelo filme “Parasita”. O longa dirigido por Bong Joon-ho também venceu o Oscar de Melhor Filme — sendo o único da história dessa categoria principal a não fazer parte do eixo Estados Unidos–Europa.

Já o continente africano também aparece de forma limitada na premiação. A Argélia soma 4 indicações na categoria, a África do Sul tem duas, enquanto Costa do Marfim e Mauritânia têm apenas uma cada. Esses são os únicos países, entre os 54 do continente, a terem sido indicados nessa categoria.
Por conta desse retrospecto, a categoria acaba criando uma separação entre filmes europeus e estadunidenses e produções latinas, asiáticas, africanas e do Oriente Médio. Além do formato favorecer as produções europeias, algumas questões políticas também podem interferir nas indicações.
Foi o caso do longa palestino “Intervenção Divina” (2002), rejeitado pela Academia por conta de questões políticas internacionais no critério de seleção. Na época, a comissão da Palestina não era considerada uma “representação oficial” pelo Oscar.
Os Estados Unidos, até hoje, não reconhecem a Palestina como nação-Estado. Portanto, o Oscar não aceitou a participação do filme. Mesmo assim, o longa foi um dos mais aclamados daquele ano, tendo ganhado o Prêmio do Júri no Festival de Cannes.
Regras de língua e legado colonial
O critério de que os filmes sejam falados em outro idioma que não seja o inglês torna o processo de seleção ainda mais complexo para alguns países que têm o inglês como língua nativa.
À primeira vista, a ideia de descentralizar o inglês pode parecer uma tentativa interessante de valorizar outras línguas. Contudo, esse critério também revela uma centralização nos Estados Unidos, como se apenas o país norte-americano tivesse o inglês como idioma principal, sem considerar que a língua é oficial e amplamente usada em diversas nações.
Essa exigência passa por cima de décadas do processo colonizatório da Inglaterra em países africanos, por exemplo. É o caso da Nigéria, que teve o filme “Lionheart” desclassificado da categoria por ter o inglês como língua principal na edição de 2020.

O inglês na Nigéria é uma herança colonial da Inglaterra. Ainda assim, trata-se de um país com cultura, costumes e história completamente diferentes de qualquer outro falante de inglês. Esse caso levanta questionamentos sobre a coerência dos critérios de avaliação.
O eurocentrismo histórico também está diretamente ligado à questão racial, já que coloca a experiência europeia como centro da história e do pensamento, enquanto invisibiliza ou inferioriza outras culturas e povos. As problematizações do Oscar giram frequentemente em torno de padrões eurocêntricos na avaliação dos filmes.
Produções africanas, latino-americanas ou asiáticas quase nunca estão presentes na categoria principal de Melhor Filme. Quando aparecem no Oscar, geralmente estão na categoria de Melhor Filme Internacional e, muitas vezes, em segundo plano — atrás de produções europeias. Esse padrão dificulta a participação de culturas e pessoas não brancas no evento cinematográfico de maior divulgação do mundo.
O que esperar dessa categoria para os próximos anos?
A categoria de Melhor Filme Internacional é uma das mais concorridas do Oscar e, considerando a trajetória dos últimos anos, não parece haver, tão cedo, uma descentralização da presença europeia entre os vencedores.
Esse cenário levanta questionamentos sobre quais filmes conseguem alcançar reconhecimento global e até que ponto o prêmio, considerado o mais importante do cinema, consegue de fato representar a diversidade do cinema produzido ao redor do mundo — e se isso realmente é um interesse da organização do evento.
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Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.