Por Luana Araújo

Foto: Divulgação

Nos anos 70, a cidade do Recife respirava sob uma atmosfera de vigilância constante, em que o mormaço urbano se confundia com o silêncio imposto pela censura. Dentro da redação do Diario de Pernambuco, por exemplo, o controle tinha nome e rosto: um censor chamado Alexandre, cuja missão era garantir que nenhuma linha de crítica política ou registro de violência chegasse às rotativas. Foi nesse cenário de sufocamento que o jornalismo pernambucano encontrou no absurdo uma brecha técnica para registrar a violência que a ditadura tentava apagar, transformando o sobrenatural em uma sofisticada tática de guerrilha informativa.

A cronologia exata desse fenômeno começa em 10 de dezembro de 1975. Sob a manchete “Perna fantasma surge em moradia de Tiúma”, o Diario de Pernambuco — o jornal mais antigo em circulação na América Latina — relatava que um homem chamado José Luís Borges jurava ter visto uma perna caminhar pelas paredes de sua casa, em São Lourenço da Mata. O pânico foi tamanho que envolveu médiuns, pastores e até o padre da cidade, Ludugero, que, segundo o jornal, chegava a agredir quem lhe pedia ajuda espiritual sobre o caso.

Foto: Acervo/Diario de Pernambuco

O termo “cabeluda” só seria imortalizado em janeiro de 1976, pelo colunista Paulo Fernando Craveiro, mas a alma política da lenda foi moldada por Raimundo Carrero, então repórter de Polícia do Diario de Pernambuco.

Em entrevista concedida ao próprio jornal, Carrero resgatou o episódio que definiu o tom da cobertura. Ele lembra ter recebido na redação um homem em estado de choque, com hematomas nos olhos e escoriações pelo corpo. O depoimento era surreal: ao chegar em casa, o homem teria encontrado uma perna cabeluda deitada ao lado de sua esposa. “Perguntei logo pelo resto do corpo. ‘E tua mulher se realiza só com uma perna?’”, recorda Carrero ter retrucado ao homem.

A narrativa prosseguia com a perna desferindo um “chute violento contra a cabeça do homem” e uma surra que só cessou quando a vítima alcançou a via pública.

Foto: Acervo/Diario de Pernambuco

Diante da mordaça que proibia notícias sobre violência doméstica e abusos autoritários, o editor de Justiça Og Fernandes — hoje ministro do STJ — sugeriu a criação da seção “Romance Policial”. Como os censores não viam perigo político no fantástico, os jornalistas passaram a usar o grotesco como escudo. Ao noticiar que a perna “puxou uma mulher pelos cabelos”, estava-se, na verdade, registrando uma agressão doméstica que, de outra forma, seria deletada pela caneta da censura. O povo fingia acreditar no monstro para poder falar sobre feridas que eram reais demais.

Se o impresso deu o verniz literário, foi o rádio que deu escala popular à Perna Cabeluda. Na época, os jornalistas Geraldo Freire e Jota Ferreira, na Rádio Repórter, espalharam a lenda entre os ouvintes de Pernambuco.

Foto: Divulgação

Em entrevista à revista piauí, Geraldo Freire contou que, ao organizar o espelho de seu programa e notar a escassez de pautas, acionou o então repórter iniciante Jota Ferreira, que cobria o Hospital da Restauração, pedindo que ele “inventasse alguma coisa” para segurar a audiência.

Foi nesse improviso ao vivo que Ferreira relatou o suposto ataque de uma perna cabeluda a uma mulher no bairro de Alto Pascoal. No entanto, ele recorda que a invenção tinha lastro de realidade. Ao chegar ao hospital, encontrou uma trabalhadora sexual, frequentadora do Edifício Chantecler, ensanguentada após ser atacada no Porto do Recife, afirmando ter sido agredida por uma “perna cabeluda”.

Ao usar esse termo, ela buscava socorro sem precisar nomear o agressor real, evitando represálias em um sistema que ignorava a segurança de mulheres marginalizadas.

Cinco décadas se passaram e a Perna Cabeluda consolidou-se como um verdadeiro mito urbano, sobrevivendo à ditadura para se tornar ícone cultural. Antes de chegar às telas, a lenda inspirou cordéis, HQs, marchinhas e batizou troças carnavalescas.

Uma grande consagração veio ainda em 1994, pelas mãos de Chico Science. No clássico disco Da Lama ao Caos, a música “Banditismo por uma Questão de Classe” imortalizou a figura no panteão do Manguebeat: “Galeguinho do Coque não tinha medo, não tinha / Não tinha medo da perna cabeluda / Biu do olho verde fazia sexo, fazia / Fazia sexo com seu alicate”.

Foto: Acervo/Diario de Pernambuco

Este legado culmina agora no filme O Agente Secreto, em que Kleber Mendonça Filho resgata essa figura tão importante para o imaginário de Pernambuco e a leva aos tapetes do Oscar.

No longa, a lenda é introduzida de forma curiosa: a Perna Cabeluda aparece pela primeira vez sendo retirada de dentro da barriga de um tubarão. Embora pareça uma licença poética do terror moderno, a imagem é um resgate histórico do Carnaval de 1976, no Recife — naquele ano, um carro alegórico que trazia um predador marinho engolindo a assombração desfilou para os foliões.

Foto: Acervo/Diario de Pernambuco

Outro momento impactante do filme ocorre no Parque 13 de Maio, cenário emblemático do centro da capital pernambucana. Na sequência, a Perna surge das sombras para atacar diversas pessoas que circulavam pelo local.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o diretor aprofunda a importância política da lenda, destacando que ela servia como um verdadeiro “escudo semiótico” em uma época em que a ditadura proibia que muita coisa fosse dita.

O que nasceu nos becos de Tiúma como um relato de visagem e se transformou em código de sobrevivência nas mãos de jornalistas e radialistas agora ganha o mundo como alta cinematografia. Ao projetar essa lenda nas telas, Kleber Mendonça Filho não apenas resgata um mito urbano, mas celebra a herança de uma cidade que, mesmo sob a mira de camburões e o silêncio das redações, nunca abriu mão da sua capacidade de fabular para não ser devorada por uma realidade opressora.

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Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.