Quando o silêncio performa: “Valor Sentimental” transforma a contenção em potência dramática
No meio de atuações extravagantes e exteriores, ‘Valor Sentimental’ encontra o seu coração na contenção emocional
Por Eduarda Goulart

A diferença mais marcante entre o cinema norte-americano e o escandinavo se sustenta na oposição entre as duas culturas, e é nesse espaço que ‘Valor Sentimental’ se situa. Enquanto a primeira dialoga com uma vontade insaciável de se fazer ouvido, a do norte europeu se consagra na ternura controlada, mas sempre potente. A partir de diálogos que beiram o estoico e gestos contidos, o longa de Joachim Trier conta a história de uma família escandinava e como a ausência e o distanciamento familiar permeiam a vida de cada um.
O filme acompanha as irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), que se encontram em lados opostos quando o assunto é processar o impacto da infância na vida adulta. No enterro de sua mãe, o retorno do pai ausente, Gustav (Stellan Skarsgård), é o ponto de partida para a jornada emocional que o espectador observa. Um cineasta aclamado em decadência, o pai decide dar nova vida à carreira escrevendo um roteiro que espelha sua própria vida e que, consequentemente, envolve suas filhas. Quando ele convida Nora para protagonizar seu novo filme e ela o recusa, o atrito na comunicação entre os dois escancara feridas mais profundas.
Então, Gustav convida a atriz norte-americana Rachel Kemp (Elle Fanning) para protagonizar seu longa. Por meio da tradução do inglês para o norueguês, além do conflito entre contenção e performance, Trier retrata a compartimentalização como ferramenta de defesa e a arte como rota de fuga. Ele cria um terreno convidativo, deixando que seus atores usufruam de um roteiro certeiro e deem vida ao que fica nas entrelinhas.
A contenção como elemento narrativo
‘Valor Sentimental’ mergulha numa abordagem mais naturalista, seguindo a tradição do cinema escandinavo. Com um roteiro que faz questão de não convocar dramatizações desnecessárias, o filme cede espaço para atuações tão potentes quanto singelas. Fanning, responsável por uma das quatro atuações indicadas ao Oscar, destaca que os sets de Trier são um lugar seguro para explorar a vulnerabilidade. Por não ter medo dos silêncios, o diretor induz os atores a processar aquilo que não está dito.
Na tapeçaria desse enredo, o elemento mais interessante é a metalinguagem que atravessa o filme. Os conflitos ganham forma naquilo que não é dito e carregam diferentes bagagens. Entram em interseção a ausência de Gustav, a prioridade que ele coloca na carreira, a recente perda da mãe, a insegurança nascida da percepção de um público em Nora, além da divergência entre sua vida e a de Agnes – enquanto sua irmã mais nova construiu uma família própria, ela se relaciona com um homem casado e vive um dia a dia mais isolado, sem ter com quem compartilhar as angústias e esperanças.
Reinsve conduz com maestria o malabarismo de incluir todas essas facetas em sua atuação, e o espectador se aproxima da sensação sufocante de não conseguir organizar as próprias emoções. Inevitavelmente, essa compartimentalização forçada acaba explodindo na cena mais tocante do filme: a conversa entre as duas irmãs sobre o verdadeiro significado do roteiro escrito pelo pai. Ainda mais, a cena retrata Agnes cuidando de Nora de maneira gentil e dedicada, revertendo a configuração que se dava na infância das duas. Aqui, a revelação Inga Ibsdotter Lilleaas não fica atrás de Reinsve, e traz gentileza e um carinho que atravessa a tela e atinge qualquer um.
Além disso, os dotes de Skarsgård constroem um Gustav que contorna o típico pai ausente, frequentemente bêbado, que explode quando as coisas não seguem suas próprias regras. Pelo contrário, ele exerce a sutileza da sua posição com muito cuidado e traduz seus sentimentos mais complexos por meio de olhares e gestos precisos. Essa preparação por parte dos quatro atores principais permite que o tópico central do longa se concentre em duas cenas tão opostas quanto complementares.
Com uma câmera focada em planos médios e fechados, Trier retrata duas versões de um monólogo do filme-dentro-do-filme, em que Rachel e Nora leem as palavras escritas por Gustav em situações diferentes. Fanning interpreta talvez a única cena do filme que requer uma explosão de sentimentos, enquanto lê o texto traduzido para o inglês e se debulha em lágrimas. A atriz se sentiu deslocada e imperfeita para o papel ao longo de sua jornada, mas essa distância entre o que ela entrega e o que Gustav quer fica mais nítida aqui. Apesar de ser uma interpretação emocionante, ela não carrega a verdade ou intimidade que o roteiro (nesse caso, os dois roteiros) demanda.
Em contrapartida, quando a Nora lê o mesmo monólogo, de maneira mais sincera por estar revivendo tudo que as palavras descrevem, o clímax do longa se constrói de maneira avassaladora. O roteiro passa a ser uma carta de um pai para suas filhas, uma trégua, uma maneira de explicar suas faltas e ausências. A intenção não é encontrar justificativas, mas convidá-las – e o espectador – a assimilar como um passado conflituoso informa o presente e molda nossas relações. Em ‘Valor Sentimental’, a arte não resolve o passado, mas finalmente permite encará-lo.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.