“Valor Sentimental”: a casa é um corpo vivo no filme de Joachim Trier
No filme de Joachim Trier, a casa é mais que cenário: é um personagem vivo que respira, sente e guarda memórias.
Por Louise Fernanda Farias
Do que você se lembra quando pensa em lar, abrigo, casa?
O filme “Valor Sentimental” lançado em 2025 pelo diretor norueguês Joachim Trier foi um dos grandes destaques da temporada de premiações, incluindo o Oscar 2026, e conquistou diversos prêmios em festivais, como o Festival de Cannes e o BAFTA.
Na trama, acompanhamos duas irmãs, Nora e Agnes, que passaram um tempo considerável longe de seu pai, Gustav. Quando a mãe delas falece, o pai, que trabalha como diretor de cinema, tenta uma reaproximação com as filhas, muito mediada pela arte, mas não é tão fácil assim. Como uma forma de olhar e entender a própria vida, Gustav usa o cinema para colocar na mesa suas próprias questões e como se sente diante delas — usar a arte para lidar com um sentimento complexo também acontece em “Hamnet”, outro filme destaque do Oscar 2026, onde se usa o teatro para lidar com o luto.

Gustav produz um roteiro de filme bastante inspirado em si e na sua família, e convida sua filha Nora, uma atriz de teatro, para atuar no papel principal. Portanto, quem fica com o papel é Rachel, uma atriz que se encanta pelo diretor, mas logo fica confusa com a proposta do filme dele e suas emoções enquanto Rachel (pessoa) e enquanto atriz interpretando um papel complexo.
Mesmo que possamos ir ao cinema para nos entreter, raramente saímos da sala do cinema, ou desligamos a TV/Computador sem ter aprendido ou se identificado com alguma coisa. Esse é o poder do filme. O filme de Trier tem esse poder porque nos faz refletir sobre relações familiares e memória, mas os personagens também têm o sentimento que nós, espectadores, temos, porque “Valor Sentimental” também é um filme sobre cinema.
As atuações são magníficas, mas há uma grande estrela no filme: a casa. A ambientação principal do longa é a casa de infância das irmãs e é nesse espaço que surgem o retorno de traumas do passado, memórias felizes e tensões familiares, com a direção de arte assinada por Jørgen Stangebye Larsen. Mas como se configura uma casa e seus elementos?

Casa é um lugar onde nos sentimos seguros, um lugar que guarda lembranças e para onde voltamos no fim do dia. Há um autor francês chamado Gaston Bachelard que fala sobre “a poética do espaço”, e no seu livro, de mesmo nome, ele diz:
“[…] a casa é nosso canto do mundo. Ela é […] nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos.”
Logo no início do filme, vemos frames de várias partes da casa da família de Nora e Agnes, a fachada, a sala, o quarto, as janelas, e até os arranhados no assoalho. A casa é apresentada como um personagem, com barriga, olhos, podendo sentir cócegas, dor, leveza, peso, saudade — assim como nós. Sendo assim, a casa é um corpo vivo, um cosmos com um sistema complexo.
Há outros filmes que também trabalham essa poética do espaço, como “Aquarius” do Kleber Mendonça Filho, que assim como o filme de Trier, mostra a passagem de tempo através da casa e seus elementos, e como isso revela muito sobre seus moradores/personagens.

A casa reage aos estímulos de seus moradores. Lascas na madeira, pêlo de gato, cheiro de bolo, cores fortes, cores sóbrias, muitos elementos, poucos elementos. Uma casa pode ser feita de inúmeros aspectos. Mas a casa não é só a descrição das suas características visuais, ela carrega memórias e afetos em toda parte. Mesmo que o tempo passe, essas memórias e afetos permanecem escondidas em algum lugar.
“Valor Sentimental” nos mostra, justamente, o valor desses afetos onde não costumamos perceber, nos cantos normalmente esquecidos e que, olhando com atenção, podemos encontrar beleza e compreender a casa como esse corpo vivo, como um álbum de fotografias que pode ser visto somente quando se repousa o olhar nesses espaços comuns.
A casa é viva — não do tipo “A Casa Monstro” —, mas é um refúgio rico em detalhes, em cheiros, texturas, cores, ranhuras, rachaduras. No filme, a casa do início é cheia de barulho, movimento; quando o pai vai embora a casa fica menos barulhenta e, no final da obra, a casa montada é limpa, completamente clara e minimalista. Essas mudanças externas significam também alterações internas e propósitos diferentes nos personagens.

A obra também traz à tona a magia do cinema, ao nos fazer entender a realidade através da ficção. No final do filme, o olhar de Gustav após as gravações de seu filme sugerem que algo ficou mais claro em sua mente. Como se vendo uma representação da sua vida de fora, fizesse ficar mais nítido os sentimentos interiores. O cinema, por muitas vezes, ameniza os borrôes de nossa mente, ainda que não resolvam nossos problemas. Assim como a rachadura na parede da casa em “Valor Sentimental”, que perdurou por séculos, algumas feridas internas podem ser resistentes, e às vezes o que podemos fazer é aprender a conviver com elas de uma forma menos dolorosa — e aí temos o contato com as artes, cinema, teatro, literatura, fotografia.
Por fim, Trier faz um paralelo entre a arte e a vida, ficção e realidade, e a linha tênue entre ambos, em um filme extremamente sensível. Ao dar atenção à ambientação do filme, a construção dos espaços traz uma profundidade aos personagens e aborda temas de luto, memórias, tensões familiares e, claro, o quanto precisamos da arte.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.