Filme Internacional: por que uma vitória de “Valor Sentimental” é também uma vitória do apolítico
Longa norueguês representa a principal maneira de a Academia permanecer neutra diante de conflitos políticos.

Por Igor Montarroios
A temporada de festivais e premiações do cinema em 2026 começou com algumas declarações controversas de figuras importantes da indústria. Presidente do júri na 75ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, o cineasta alemão Wim Wenders, declarou, logo na abertura do evento, que diretores e o cinema em geral “têm de ficar longe da política”. A resposta veio a partir de um questionamento sobre o conflito na Faixa de Gaza, à maneira que Wenders concluiu: “Somos o oposto da política. Temos de fazer o trabalho das pessoas e não o dos políticos”. A fala gerou comoção entre diversas personalidades da indústria cinematográfica, que criticaram o silêncio da Berlinale sobre o tema em uma carta que reuniu mais de 80 assinaturas, incluindo a do brasileiro Fernando Meirelles.
A diretora do festival, Tricia Tuttle, no entanto, defendeu a neutralidade do alemão, afirmando que “[os diretores] se expressam por meio de seus trabalhos”, argumento reciclado uma semana depois pelo estadunidense Paul Thomas Anderson. Após receber os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Filme no BAFTA por “Uma Batalha Após a Outra” – produção que acompanha um grupo revolucionário enfrentando o autoritarismo, a extrema-direita, os supremacistas brancos e a brutalidade dos agentes migratórios no governo e exército estadunidenses –, Anderson se recusou a comentar a atual situação política: “Eu não sou um político, sou um cineasta”, disse o diretor.
Franco favorito ao prêmio principal na cerimônia de domingo (15), “Uma Batalha Após a Outra” compartilha o holofote da premiação com várias outras produções que também representam um forte discurso político, mas o fazem também fora da telona. Na categoria de Melhor Filme Internacional, “A Voz de Hind Rajab” apresenta a tentativa de resgate da menina palestina de 5 anos, assassinada pelo exército israelense em Gaza horas após perder toda sua família da mesma maneira. O representante da Tunísia conta com gravações reais das ligações entre Hind e o Crescente Vermelho Palestino e mostra a tentativa frustrada da organização em promover seu resgate. O espanhol “Sirāt” acompanha a busca cheia de imprevistos de um pai por sua filha desaparecida. Ao longo da história, o roteiro do argentino Santiago Fillol e de Oliver Laxe – espanhol que assina também a direção do filme – faz menção, ainda que de forma superficial e, por vezes, equivocada, à situação política da região do Saara Ocidental.

“Foi Apenas um Acidente” se desenvolve a partir do contexto de repressão vivido no Irã. No longa, indicado pela França, o mecânico Vahid confronta o seu passado ao encontrar um homem que ele acredita tê-lo torturado na prisão. A narrativa tem diversos paralelos com a história de vida do diretor Jafar Panahi, também responsável pelo roteiro do filme, que foi perseguido e preso pelo regime iraniano duas vezes. A perseguição também está presente em “O Agente Secreto”, produção brasileira dirigida por Kleber Mendonça Filho (“Bacurau”, “Aquarius”) e estrelada por Wagner Moura (“Narcos”, “Tropa de Elite”). Na trama, o personagem Marcelo (Wagner Moura, indicado na categoria Melhor Ator) volta ao Recife fugindo do encalço do regime militar. Mostrando a forte repressão presente durante o período da ditadura no país, a trama ainda aborda temas como a questão dos refugiados, a censura e o sucateamento da pesquisa nas universidades públicas. O longa nacional é uma das apostas para levar a estatueta, mas para isso precisa desbancar “Valor Sentimental”, seu grande rival na categoria.
O filme norueguês tem como foco a família Borg e suas relações interpessoais a partir do momento em que o pai, um grande diretor de cinema, retorna à vida das filhas e oferece o papel principal em seu próximo filme a uma delas. Com direção de Joachim Trier (“A Pior Pessoa do Mundo”, indicado a dois prêmios em 2022) e um elenco já consagrado na indústria hollywoodiana, a produção traz à tona debates mais intimistas sobre o papel da arte e os ciclos familiares que vão se passando pelas gerações. Falando sobre a própria indústria cinematográfica e com rostos conhecidos do grande público, a obra conseguiu outras oito indicações e chega na cerimônia como grande favorita à categoria de Filme Estrangeiro, mas, entendendo o contexto da premiação, é possível enxergar a vitória do filme escandinavo com um outro olhar.
Apesar de existirem preferências individuais, a qualidade do longa de Trier não seria questionada, mas em meio a produções tão politicamente carregadas e potentes em temática, entregar o Oscar a “Valor Sentimental” seria a melhor forma de a Academia se manter neutra em relação aos debates levantados pelas outras quatro obras e reforçar o discurso apresentado por Wim Wenders e Tricia Tuttle, e endossado por tantas outras personalidades. Principal premiação e celebração do cinema mundial, o Oscar, como instituição, sabe que algumas vitórias têm significados muito maiores do que apenas uma pequena estatueta dourada e o holofote jogado sobre cada um que vai ao palco recebê-la, vai além do evento – principalmente em se tratando de produções vindas de fora dos Estados Unidos. Resta saber se a Academia vai se comprometer em apenas reparar as rachaduras, ou se vai também cuidar das cicatrizes.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.