Um breve panorama da presença feminina na história do Oscar
Quase um século de história em um breve panorama da presença feminina no Oscar.

Por Anna Mol
Quase cem anos depois da primeira cerimônia do Oscar, a presença das mulheres na premiação ainda é marcada por desigualdades. A trajetória feminina na Academia revela muito sobre as transformações e, principalmente, os limites da indústria cinematográfica.
Dados apontam que mais de 80% das indicações ao Oscar são exclusivamente masculinas (excluindo categorias de atuação e melhor filme estrangeiro cujo o Oscar é dado ao país).
A desigualdade de gênero no Oscar também reflete um cenário mais amplo da própria indústria cinematográfica. Um levantamento da Annenberg Inclusion Initiative apontou que, entre os 100 filmes mais lucrativos de 2025, apenas nove foram dirigidos por mulheres, o que representa cerca de 8% das direções dessas produções. O número representa uma queda em relação ao ano anterior e evidencia como as mulheres ainda enfrentam barreiras para dirigir grandes produções de estúdio e blockbusters.
O estudo também aponta que a desigualdade se torna ainda mais evidente quando gênero e raça são considerados em conjunto. Entre os filmes analisados, mulheres não brancas representaram pouco mais de 5% dos diretores, e todas eram de origem asiática, sem presença de diretoras negras ou latinas entre os maiores sucessos de bilheteria do ano.
Nesse contexto, a baixa presença feminina nas categorias de direção do Oscar não aparece apenas como uma questão da premiação em si, mas como reflexo de uma indústria que ainda oferece menos oportunidades para mulheres ocuparem posições de liderança criativa nas produções de maior orçamento e visibilidade.
É nesse contexto de desigualdade estrutural que as conquistas femininas no Oscar ganham ainda mais peso. Por isso, reunimos um breve panorama com marcos, curiosidades e episódios que ajudam a contar a história feminina na premiação mais famosa do cinema. Para uma análise mais detalhada com dados e estatísticas sobre a participação das mulheres nas indicações e conhecer quem são as mulheres indicadas no ano de 2026, confira também a matéria completa neste link.
As primeiras conquistas

Janet Gaynor foi a primeira mulher a conquistar o Oscar de Melhor Atriz no Oscar. A primeira edição ocorreu em 1929 e a artista levou o prêmio por sua atuação em 3 filmes: ‘Sétimo Céu’ (1927), ‘Aurora’ (1927) e ‘O Anjo da Rua’ (1928).
Em 1940, outro marco histórico foi registrado na premiação. A atriz Hattie McDaniel tornou-se a primeira pessoa negra a receber um Oscar, vencendo na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel no clássico ‘E O Vento Levou’ (1939). Apesar do feito histórico, a conquista foi marcada pela segregação racial presente na sociedade americana da época: durante a cerimônia, McDaniel não pôde se sentar na mesma mesa que o restante do elenco e foi colocada em um espaço separado do salão.
Ao longo da carreira, McDaniel interpretou majoritariamente papéis de empregadas domésticas de famílias brancas, personagens que refletiam estereótipos raciais bastante comuns em Hollywood na época. Isso gerou críticas por parte da comunidade negra, que via nesses papéis uma perpetuação dessas imagens. A atriz, por sua vez, respondia à controvérsia de forma direta e proferiu uma frase que se tornaria bastante famosa: “Prefiro interpretar uma criada por 700 dólares do que ser uma por 7.”
Hattie morreu pobre e deixou apenas dois pedidos em seu testamento: que seu Oscar fosse entregue à Universidade Howard e que fosse enterrada no cemitério Hollywood Forever. Porém, nenhum de seus desejos foi realizado, afinal, o cemitério não enterrava pessoas negras, independente de quem fossem. Já seu Oscar desapareceu e até hoje ninguém sabe ao certo seu paradeiro.
Rita Moreno foi a primeira mulher Latina a vencer uma categoria de atuação no Oscar. Em 1961 ela recebeu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante pelo seu papel em ‘Amor Sublime Amor’ (1961). Outra curiosidade sobre a artista é sua rara conquista do EGOT, ou seja, recebeu premiações nas 4 maiores cerimônias do entretenimento norte americano: Emmy, Grammy, Oscar e Tony.
Em 2002, finalmente, tivemos a primeira mulher negra a vencer o prêmio de Melhor Atriz. Halle Barry conquistou o Oscar após seu trabalho em ‘A Última Ceia’ (2001). Antes dela, algumas mulheres negras foram indicadas na categoria, mas nunca saíram vencedoras. Até hoje, Halle Barry continua sendo a única mulher negra a vencer nessa categoria.
Atrás das câmeras

Nos bastidores da indústria cinematográfica, a presença feminina ainda é significativamente menor. Áreas como direção, fotografia, som, efeitos visuais e trilha sonora permanecem historicamente dominadas por homens, refletindo uma estrutura da indústria que por décadas limitou o acesso das mulheres a posições de liderança criativa e técnica.
Ainda assim, algumas cineastas conseguiram abrir caminhos importantes e marcar seus nomes na história da premiação, tornando cada conquista feminina nessa área um marco simbólico dentro da indústria.
A primeira mulher indicada ao Oscar de Melhor Direção foi a cineasta italiana Lina Wertmüller, em 1977, por ‘Pasqualino Sete Belezas’ (1975), o filme também foi indicado na categoria de Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Giancarlo Giannini) e roteiro para própria Lina.
Wertmüller foi controversa em algumas de suas afirmações durante a vida. Ela afirmava não se considerar uma “cineasta mulher”, pois ela se considerava apenas “cineasta”, sem outros rótulos: “A diferença que existe é entre filmes bons e filmes ruins. Não devemos criar outras distinções”, afirmou em entrevista ao site Criterion Collection.
Em 2019 recebeu um Oscar Honorário por todo seu trabalho pela indústria cinematográfica. Ela foi a segunda mulher a receber o prêmio, em 2017 Agnés Varda fez história ao receber sua estatueta. Em seu discurso, Wermüller sugeriu que a cerimônia mudasse de nome: “Por que Oscar? Vamos chamá-lo por um nome de mulher. Vamos chamá-lo de Anna” (adorei o nome rsrs).
Somente em 2010, 82 anos após a primeira cerimônia do Oscar, uma mulher finalmente venceu o principal prêmio de direção da indústria cinematográfica. Kathryn Bigelow fez história ao ganhar o Oscar de Melhor Direção, por ‘Guerra ao Terror’ (2008). E a vitória ainda teve um sabor a mais: seu ex-marido James Cameron estava concorrendo ao mesmo prêmio pelo filme ‘Avatar’ (2009).
Em 2021, a categoria de Melhor Direção do Oscar registrou um momento inédito: duas mulheres foram indicadas no mesmo ano. As cineastas Chloé Zhao e Emerald Fennell entraram na disputa, marcando um avanço simbólico para a presença feminina na categoria. Ao final da noite, Zhao levou a estatueta por ‘Nomadland’ (2020), tornando-se a primeira mulher não branca a vencer o Oscar de Melhor Direção.
Outro marco importante aconteceu em 1974, quando a produtora Julia Phillips se tornou a primeira mulher a vencer o Oscar de Melhor Filme como produtora. A estatueta veio pelo clássico ‘Golpe de Mestre’ (1973), vencedor da principal categoria da premiação.
Sting esteve por trás de grandes filmes como ‘Taxi Driver’ (1976) e ‘Contatos Imediatos de Terceiro Grau’ (1977). A produtora também lançou um polêmico livro, no qual critica fortemente a indústria de Hollywood e seus grandes nomes, o que lhe rendeu um certo afastamento da indústria.
Entre as áreas técnicas do cinema, a direção de fotografia é uma das que historicamente apresentam menor presença feminina no Oscar. A primeira quebra desse padrão aconteceu apenas em 2018, quando Rachel Morrison se tornou a primeira mulher indicada ao Oscar de Melhor Fotografia, por seu trabalho no filme ‘Mudbound -Lágrimas Pelo Mississipi’ (2017). Apesar do marco histórico, nenhuma mulher venceu a categoria até hoje, sendo a única categoria sem nenhuma vencedora feminina.
Agora em 2026 temos a quarta mulher indicada como Melhor Diretor de Fotografia em 98 anos. Autumn Durald Arkapaw, ‘Pecadores’ (2025), fez história ao ser a primeira mulher não-branca a concorrer na categoria.
Recordes femininos e outras curiosidades

Entre as mulheres mais premiadas ou indicadas na história do Oscar, alguns nomes se destacam:
Edith Head, figurinista renomada de Hollywood, é a mulher com maior número de Oscars, com 8 estatuetas. Inclusive, Head se tornou inspiração para a personagem Edna Moda no filme ‘Os Incríveis’ (2004).
Meryl Streep é a mulher com maior número de indicações para atuação, com 21 nomeações, mas levou para casa “apenas” 3 Oscars.
Ruth E. Carter, que se tornou a primeira mulher negra a vencer dois Oscars, além de ser hoje a mulher negra mais indicada da história da premiação.
A diretora Jane Campion foi a primeira mulher indicada duas vezes ao Oscar de direção. No ano de 2026, Chloé Zhao fez história ao ser indicada pela segunda vez.
E assim, ao observar quase um século de Oscar, fica claro que as conquistas femininas muitas vezes surgem como exceções que desafiam uma estrutura patriarcal do cinema global especialmente nas áreas técnicas e de liderança criativa.
Para entender mais como essa desigualdade aparece nos números ao longo da história do Oscar, confira também nossa matéria complementar, que reúne dados, estatísticas da presença feminina ao longo das décadas, além de um recorte específico sobre as mulheres indicadas nas categorias técnicas na edição de 2026.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.