‘Molho baiano’ e cinema de Pernambuco: como surgiu amizade de Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho
Conversa sobre filmar juntos começou antes de Bacurau; diretor e ator se aproximaram após ataques políticos.
Por Juliana Almirante

O papel de Wagner Moura no longa brasileiro quatro vezes indicado ao Oscar 2026, O Agente Secreto, foi escrito por Kleber Mendonça Filho pensando no ator. Mas você sabe como essa parceria entre os dois cineastas surgiu? O livro do roteiro (Amarcord, 2025) trata do assunto; saiba o que cada um deles conta a seguir.
Kleber e Wagner teriam tido a primeira conversa há 20 anos. “A primeira memória que eu tenho de conversar com Kleber é em Cannes”, escreve o ator baiano, que assina o posfácio da obra. Porém, o diretor pernambucano lembra que esse primeiro bate-papo teria ocorrido na pré-estreia de Deus É Brasileiro, em Recife, em 2003.
E quando a conversa sobre fazer, de fato, um filme juntos surgiu? O protagonista de O Agente Secreto diz que “seguramente” foi antes mesmo de ter filmado Marighella e de Kleber ter dirigido Bacurau. Em 2017, Kleber e a produtora Emilie Lesclaux visitaram o set da cinebiografia do guerrilheiro, em São Paulo. Depois, em 2019, o diretor assistiu a Marighella em uma sessão no Festival de Sydney.
Ataques reacionários e aproximação
Wagner reflete que os anos de 2018 a 2022 foram difíceis para quem trabalha com cultura no país, inclusive para pessoas que se expressavam publicamente, como ocorria com Kleber. Contudo, foi nesse período que os dois se aproximaram. “E acho que daí saiu O Agente Secreto”, pondera.
No prefácio do livro, Kleber relata que recebeu ataques políticos de pessoas reacionárias depois de lançar Aquarius e Bacurau. Do mesmo modo, Wagner atraiu ataques ao escrever, produzir e dirigir o filme Marighella. O diretor pernambucano conta que conversou várias vezes com Wagner a respeito disso e do filme sobre o guerrilheiro. “Me pergunto o quanto dessas conversas não acrescentaram energia à minha escrita de O Agente Secreto e à relação de Wagner com o roteiro. (…) Dois amigos tentando trabalhar e entender a malandragem de vilões brasileiros verdadeiros”, conta Kleber no livro.

Amor à primeira leitura
Em 2022, o diretor foi a Salvador e presenteou Wagner com o livro Três Roteiros: O Som ao Redor, Bacurau e Aquarius (Companhia das Letras, 2020). Na dedicatória, Kleber dizia que estava quase terminando o roteiro do filme que levaria o Brasil a concorrer na principal categoria do Oscar em 2026.
“Eu só vou lhe mostrar o roteiro no dia em que eu tiver certeza de que, se você ler e não gostar, você é um otário”, disse Kleber a Wagner. E assim foi para o indicado a Melhor Ator na premiação americana: “Não lembro a primeira vez que li O Agente Secreto — talvez ainda no final daquele 2022 —, mas, quando li, gostei muito”.
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Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.