Por Mirella Bosso

Não é de agora que a principal premiação de cinema da temporada se faz palco de protestos e abordagens de pautas políticas por representantes de diversas partes do mundo. Esses resistem ao fato de que o Oscar é uma premiação de origem estadunidense feita para estadunidenses.

Em 2025, o discurso de Basel Adra, diretor de “No Other Land”, documentário vencedor da categoria na edição, viralizou mundo afora, dando voz ao povo palestino e mostrando a possibilidade de uma realidade de paz. A produção foi realizada por um palestino em parceria com o israelense Yuval Abraham, que aprendeu a olhar para a realidade do povo vizinho e contribuiu para o debate sobre a ocupação palestina por soldados israelenses em cima do palco da premiação.

Do panorama brasileiro, a vitória de “Ainda Estou Aqui” também se fez uma oportunidade de ode à cultura nacional e destaque ao momento em que se passa a trama. Walter Salles dedica, em seu discurso, o prêmio a Eunice Paiva, mulher protagonista do filme vencedor da categoria de Melhor Filme Internacional que, diante do sofrimento e dos horrores do regime militar, decide resistir.

Na edição de 2026, não será diferente. Confira a seguir os títulos que prometem marcar a premiação deste ano com abordagens geopolíticas significativas, ao passo que cada discurso e indicação representam uma pequena fissura nessa estrutura historicamente tão americanizada. A presença dessas histórias no palco do Academy Awards se faz um marco de ampliação do alcance das narrativas de guerras, conflitos, momentos históricos e povos esquecidos sob a perspectiva hollywoodiana.

ONE BATTLE AFTER ANOTHER – Uma Batalha Após a Outra

Apesar de a trama se passar em um futuro distópico dos Estados Unidos, “Uma Batalha Após a Outra” nasceu da observação do cenário político atual do território norte-americano. Na atual circunstância de endurecimento das políticas imigratórias, o longa dirigido por Paul Thomas Anderson — grande favorito à categoria de Melhor Diretor — se coloca como crítica às condições e direitos dos migrantes, valendo-se do lado humano da crise: famílias separadas, refugiados fugindo de violência e situação de pobreza.

Leonardo DiCaprio vive Bob Ferguson, ex-membro de um grupo de imigrantes e nativos americanos revolucionários que, após 16 anos, decide reunir os velhos companheiros para mais uma missão, talvez a mais importante até ali: ir atrás da filha sequestrada pelo Coronel Steven J. Lockjaw, vivido por Sean Penn (que concorre ao prêmio pela categoria de Melhor Ator Coadjuvante). Entre os conflitos e tensões enfrentados pelos personagens na empreitada, o filme denuncia o cenário que o território estadunidense enfrenta, valendo-se de sátiras, caricaturas de autoritarismo e alegorias políticas para atingir tal feito.

Foto: Divulgação

ARMED ONLY WITH A CAMERA – Armado com uma Câmera

Concorrendo pela categoria de Melhor Curta-Documentário, “Armed Only With a Camera” conta a história de Brent Renaud, o primeiro jornalista estadunidense morto pelas forças russas na cobertura da guerra na Ucrânia. A produção mostra o papel e a importância do trabalho audiovisual como ferramenta política e de denúncia, e do trabalhador da comunicação, que muitas vezes arrisca a própria vida para ser porta-voz de povos e conflitos que precisam dessa visibilidade quando regimes autoritários tão frequentemente tentam silenciá-los.

Brent Renaud foi morto por soldados russos no dia 13 de março de 2022, tornando-se o primeiro jornalista estadunidense a morrer na cobertura do conflito em território ucraniano. Seu irmão mais novo, Craig Renaud, que o acompanhava na cobertura, recupera o corpo do irmão e as últimas filmagens que fizeram, denunciando a violência que viu diante dos próprios olhos e criando consciência para o que acontece mesmo longe do alcance da visão da mídia. A produção também mostra momentos que os irmãos passaram juntos, cobrindo durante anos alguns dos conflitos mais perigosos do mundo.

THE VOICE OF HIND RAJAB – A Voz de Hind Rajab

Denunciando o horror dos ataques de forças israelenses a Gaza, “The Voice of Hind Rajab” concorre ao Oscar pela categoria de Melhor Filme Internacional, representando a Tunísia. O filme conta a história de Hind Rajab, uma garotinha palestina de 5 anos que fica presa em um carro pegando fogo em Gaza. A produção utiliza gravações reais do momento de pedido de socorro da menina e de suas conversas com os atendentes do Crescente Vermelho, tornando a situação ainda mais vívida e tocante para o espectador. O longa se coloca de maneira literal como um “grito de socorro” do povo palestino e denúncia sobre a situação na Faixa de Gaza.

Foto: Divulgação

No dia 29 de janeiro de 2024, o Crescente Vermelho recebe uma ligação de emergência de uma menina de cinco anos presa em um carro que foi atingido por tanques israelenses e agora está em chamas. A organização precisa manter a garota, chamada Hind Rajab, calma e na linha enquanto faz de tudo para conseguir uma ambulância para ela. A atmosfera de impotência acompanha o longa durante todo o tempo, apesar da finalidade de denúncia. Evidencia-se, aqui, a linha entre a empatia e a ação, colocando o espectador em incapacidade de interferir, ao mesmo tempo em posição de testemunha de um horror que faz mais vítimas a cada dia, desde 2023.

MR. NOBODY AGAINST PUTIN – Um Zé Ninguém Contra Putin

Escancarando o poder da propaganda para disseminação de qualquer ideia, o concorrente pela categoria de Melhor Documentário “Mr. Nobody Against Putin” conta a história de um professor que, ao ver sua escola se tornar um maquinário de propaganda pró-governo Putin ao se converter em um centro de recrutamento militar para a guerra na Ucrânia por meio do discurso a pedidos do próprio governo, decide agir. A propaganda é um dos principais recursos utilizados para propagação de ideias políticas por representantes autoritários desde sempre, e a situação retratada pelo longa é mais um exemplo disso.

Pavel Talankin, professor de uma escola da cidade de Karabash, decide tomar uma atitude perante o que foi requerido pelo governo de Vladimir Putin: exacerbar o patriotismo e justificar os ataques à Ucrânia em sala de aula, com a necessidade do envio de vídeos como prova da atitude. O docente o faz e observa pelas filmagens o processo de transformação de sua escola em uma verdadeira máquina de propaganda e recrutamento para o exército. Ao conseguir sair da Rússia, em 2024, colaborou com o diretor David Borenstein e montou o documentário com o intuito de mostrar ao mundo o que acontece nesse momento em seu país, alheio ao que se vê nos noticiários.

IT WAS JUST AN ACCIDENT – Foi Apenas Um Acidente

Valendo-se de recursos como trauma e memória, o longa que concorre pela categoria de Melhor Filme Internacional aborda temas como justiça, vingança e impunidade naquilo que tange o que já está em um passado distante. Inspirado na própria experiência de cárcere do diretor Jafar Panahi, “It Was Just an Accident” denuncia os absurdos do autoritarismo. O longa foi, inclusive, censurado e perseguido pelo próprio regime iraniano, levando Jafar a ser condenado à prisão mais uma vez, em 2025, por “atividades de propaganda” contra o Estado. A filmagem foi realizada de forma clandestina, mesmo que as autoridades tenham vindo a interrompê-la uma vez. Mesmo com os percalços, o cineasta sempre manteve o otimismo.

“Se eu não fosse um otimista, não conseguiria fazer esse filme. Porque, se você sempre pensa que nada vale a pena, que nunca vai mudar nada, por que faria qualquer coisa? É preciso criar esperança para você mesmo para poder trabalhar”.

Ele afirmou em uma entrevista ao g1.

O longa conta a história de Vahid, um mecânico de profissão que acredita ter encontrado o homem que o torturou na prisão. Ele decide sequestrá-lo como forma de vingança, mas é tomado pela dúvida sobre aquele ser realmente ser o sujeito com quem lidava. Mais quatro pessoas que possuem antagonismo pelo agente do Estado cruzam o caminho de Vahid e agora eles devem, em conjunto, decidir o que fazer com o homem que pode ter sido aquele que foi, em algum lugar do passado, um verdadeiro inimigo.

SINNERS – Pecadores

Apesar da abordagem sobrenatural e da categorização do longa como um thriller de ação, “Sinners” se passa no período de segregação racial da história dos Estados Unidos, conhecido como “Era Jim Crow”. Durante o período, implantaram-se leis e costumes segregacionistas que impunham a separação física entre negros e brancos em quase todos os aspectos sociais: escolas, hospitais, bancos, restaurantes, transportes e demais locais públicos. Constituições foram reescritas para que negros fossem impedidos de votar, e a manutenção da supremacia branca era sempre garantida por grupos como a Ku Klux Klan — citada diretamente no longa —, tornando a segregação racial a principal e verdadeira fonte de horror no dito “thriller de ação”. “Sinners” bateu o recorde de produção com o maior número de indicações em uma edição do Academy Awards, contando com 16 nomeações em 2026.

Michael B. Jordan interpreta os irmãos gêmeos Fumaça e Fuligem que, na busca por recomeçar a vida com um novo empreendimento — um clube de blues —, se deparam com uma força vampírica que deseja dominar a cidade onde nasceram. O blues, na trama, atua como símbolo de autonomia cultural para os negros, que resistem ao período de segregação. As forças malignas, simbolicamente, tentam invadir e corromper isso. A música se faz motivo para sobreviver e celebrar a resistência e se transforma também em narrativa, uma que abraça o filme durante todo o tempo. Miles Caton, ator revelação que dá vida a Sammie Moore, primo dos irmãos protagonistas que os acompanha ao longo de toda a empreitada, realizará um número musical na premiação, executando a canção original do longa “I Lied To You”, que concorre ao prêmio nessa categoria.

O AGENTE SECRETO

O representante brasileiro na premiação se passa durante o golpe militar no Brasil e, mesmo que não denuncie diretamente os horrores vividos nesse período e não chegue a mencionar a situação, o filme está repleto de simbologias que fazem com que a assimilação e a memória do espectador funcionem o tempo inteiro em busca de analogias e compreensão. A ambientação do Recife da década de 70 é palco para o contexto de desaparecimentos e controle social característicos do período. Combinando esses fatores com referências de cultura local, crenças populares e lendas urbanas, “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, aborda o conceito de memória e tudo o que pode ser feito para apagá-la.

Wagner Moura interpreta Marcelo, um ex-professor especializado em tecnologia que decide buscar refúgio de um passado violento de perseguição política, mas a cidade do Recife não o acolhe da forma como ele havia imaginado, trazendo ainda mais caos para o momento. Sob a identidade falsa de Armando, o personagem reencontra seu filho e agora deve fazer de tudo para proteger a ele, à família e à sua identidade oculta, recurso da trama responsável por reger a relação de cada personagem com a atmosfera de perseguição policial vivida no momento. O longa representa o Brasil na disputa pelo Academy Awards nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Direção de Elenco, enquanto Wagner Moura concorre ao prêmio de Melhor Ator.

Foto: Divulgação/Vitrine Filmes

Com a conquista do espaço da principal premiação da temporada por produções que tratam de crises sociopolíticas de todo o mundo, levar a estatueta para casa significa mais do que reconhecimento técnico. Representa a inserção, no centro de uma estrutura profundamente americanizada, de narrativas dolorosas e sensibilidades políticas locais em debates de nível mundial. Histórias invisibilizadas por regimes autoritários que fazem de tudo para silenciá-las ganham um mérito maior do que o de uma boa produção técnica: o mérito é pela insistência em contar, a qualquer custo, as histórias que merecem ser ouvidas.

_

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.