E se as abelhas desaparecessem? Bugonia e o medo ecológico do nosso tempo

Em Bugonia, as abelhas representam uma metáfora sobre estrutura social. Mas, como seria o mundo sem elas?

Por Italo Viana dos Santos

Foto: Wirestock

“Tudo começa com uma coisa… magnífica. Uma flor. Apenas uma flor. Depois, uma abelha. Muito frágil, muito complicada…”. É assim que Teddy, interpretado por Jesse Plemons, introduz o universo de Bugonia nos primeiros segundos do filme. Em tom quase didático, ele explica a Don (interpretado por Aidan Delbis) como essas pequenas criaturas sustentam algo muito maior do que aparentam: a própria produção de alimentos. Enquanto a câmera acompanha o movimento das colmeias e o trabalho incessante dos insetos, o espectador é levado a contemplar a dinâmica aparentemente harmoniosa daquela comunidade. Até que Teddy quebra o encantamento com uma constatação abrupta: “E estão morrendo!”

A cena funciona como uma chave de leitura para todo o filme. O cinema frequentemente transforma ansiedades coletivas em histórias estranhas, exageradas ou até absurdas — algo que é uma marca recorrente do estilo do diretor Yorgos Lanthimos. Em Bugonia, essa estranheza dialoga com um medo muito concreto do século XXI: o colapso ecológico.

Embora o enredo não seja literalmente sobre abelhas, o próprio título do filme (“Bugonia”, termo que deriva do grego e remete a um rito que envolvia sacrificar uma vaca para que abelhas supostamente surgissem espontaneamente de seu corpo) e suas metáforas com insetos evocam uma questão científica real e preocupante. As abelhas desempenham um papel essencial no processo de polinização, permitindo que plantas produzam frutos e sementes. Grande parte das culturas agrícolas do mundo depende, direta ou indiretamente, desse trabalho silencioso realizado pelos polinizadores.

Sem esses insetos, o impacto seria profundo. Muitas frutas, vegetais e oleaginosas deixariam de ser produzidos em escala suficiente para sustentar a demanda global. O problema é que pesquisadores vêm observando há anos um fenômeno alarmante conhecido como Colony Collapse Disorder (ou Distúrbio do Colapso das Colônias), caracterizado pelo desaparecimento repentino de colônias inteiras.

Crédito: Observatório do Cinema. Foto reprodução do filme

Diversos fatores contribuem para esse declínio: o uso intensivo de pesticidas, a perda de habitat causada pela expansão urbana e agrícola, as mudanças climáticas e doenças que afetam as colmeias. Organizações internacionais como a Food and Agriculture Organization e a Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services têm alertado que a queda nas populações de polinizadores representa uma ameaça direta à segurança alimentar global.

Nesse contexto, a estranheza narrativa de Bugonia pode ser interpretada como um reflexo de um mundo em que os sistemas naturais parecem cada vez mais frágeis. A paranoia dos personagens — que suspeitam da presença de forças ocultas controlando a sociedade — ecoa uma sensação contemporânea de desequilíbrio, como se algo fundamental no funcionamento do planeta estivesse silenciosamente se desfazendo.

As abelhas também carregam um simbolismo poderoso. Elas representam um tipo de trabalho invisível que sustenta a vida cotidiana sem que percebamos. Cientistas descrevem esse tipo de contribuição da natureza como “serviços ecossistêmicos”, funções ecológicas essenciais que mantêm os ecossistemas e as sociedades humanas funcionando.

Se essas criaturas desaparecessem, o problema não se limitaria à agricultura. Seria um sinal de que o próprio sistema ecológico está entrando em colapso. Nesse sentido, mesmo um filme estranho e satírico como Bugonia acaba dialogando com um medo muito real: o de que o planeta esteja perdendo, pouco a pouco, as engrenagens invisíveis que mantêm a vida em movimento.

Bugonia concorre ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Atriz para Emma Stone, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.