Por Thay Barañano

Foto: David Fisher/REX/Shutterstock

Hollywood é um local de predominância masculina e branca, quanto à isso, não há debate, embora nos últimos anos estejam acontecendo movimentos em prol de uma mudança (tardia, mas bem vinda) na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. 

 Durante décadas, a diversidade cultural no cinema foi representada de maneira estereotipada. Mulheres negras, por exemplo, eram com frequência reduzidas à papéis serviçais ou hiperssexualizados, que existiam só para servir de apoio à narrativa de um protagonista branco. Com isso, seus figurinos, que são visualmente o nosso primeiro contato visual com o personagem, funcionavam como o arremate final da reprodução desses estereótipos. 

A polêmica personagem de Hattie McDaniel, “Mammy”, em “E o Vento Levou…” (1939) | Fonte: film-actually

 Algo diferente começou a acontecer a passos lentos a partir do fim da década de 80, início dos anos 90, quando o cenário independente de filmes ganhou força e passou a abrir caminho para jovens negros promissores da indústria cinematográfica, dentre eles, o hoje aclamado diretor Spike Lee. 

Fonte: Oscars.org

 Em um dia qualquer, uma amiga em comum do então jovem Spike Lee e de uma certa figurinista teatral de nome Ruth E. Carter resolveu apresentá-los e desse encontro, que já parecia predestinado, nasceria uma parceria que mudaria para sempre a forma como a cultura negra seria representada no cinema. 

 Spike Lee abriu as portas do cinema para Ruth Carter  com o longa “Revolução Estudantil” (1988). Carter descreveu esse projeto como “o primeiro filme perfeito”, visto que ela havia recém concluído sua graduação na Hampton University, uma das universidades historicamente criadas nos Estados Unidos para estudantes negros. Como o filme se passa justamente dentro de uma instituição desse tipo, o ambiente era pessoal e familiar para a figurinista, que sabia exatamente o que aqueles personagens estariam usando – sem recorrer a estereótipos.

Fonte: IMDb/40 Acres/A Mule Filmworks 

Essa parceria deu tão certo que os dois trabalharam juntos outras 14 vezes. Entre esses projetos está “Faça a Coisa Certa” (1989),  ambientado em Bed-Stuy, no Brooklyn, durante um quente verão estadunidense. Seu pioneirismo já começava a se destacar quando Ruth E. Carter disse que queria levar às telas a Brooklyn que ela reconhecia, com suas cores vibrantes, estampas criadas por artistas locais e a moda que se via nas ruas, livre dos estereótipos hollywoodianos sobre como uma comunidade negra de Bed-Stuy deveria se vestir. 

Fonte: scriptshadow.net

Mas foi em 1992, com o filme “Malcolm X”, que Ruth Carter recebeu sua primeira indicação ao Oscar. Esse foi o primeiro filme de época da figurinista e foi de fundamental importância para consolidar sua reputação em Hollywood. Sua missão com esse figurino era ajudar a reconstruir visualmente a história da vida de Malcolm X ao longo das décadas de 1940 até 1960, tarefa que executou com maestria.

Fonte: IMDb

Em 2018, ao lado do diretor Ryan Coogler e sob o selo da milionária Marvel Studios, os figurinos de Ruth E. Carter ganharam o coração do grande público com “Pantera Negra” (2018). Responsável pela caracterização do saudoso Chadwick Boseman como T’Challa, a figurinista criou peças exuberantes e multidimensionais, recheadas de referências à África, que nos ajudaram a compreender o extraordinário reino de Wakanda.

Fonte: periscostumes 

E foram justamente seus figurinos de “Pantera Negra” (2018), e “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre” (2022) que renderam seus dois primeiros Oscars, colocando o nome de Ruth Carter na história como a mulher negra mais premiada em qualquer categoria. 

Fonte: Yahoo Entertainment 

Ela voltou a colaborar com o diretor Ryan Coogler em “Pecadores” (2025), repetindo a parceria que começou em “Pantera Negra”. O longa, que de muitas formas é uma homenagem à cultura afro-americana e também crítica social, recebeu o número recorde de 16 indicações ao Oscar em 2026. E no próximo Domingo (15), caso vença novamente, a figurinista poderá reafirmar seu feito histórico e conquistar seu terceiro Oscar.

Foto: Reprodução/Warner Bros. Pictures 

Com quase 40 anos de carreira, Ruth E. Carter ajudou a remodelar a forma como a cultura afro-americana é representada em Hollywood. Seu impacto vai muito além de suas vitórias ao Oscar: está presente no legado construído ao lado de artistas, diretores e atores que deixaram de ocupar papéis estereotipados e secundários para assumir o centro das narrativas, vestidos com pompa, respeito e orgulho às suas origens. Hoje, quando se pensa em figurinos capazes de representar com esplendor a cultura afro-americana, o primeiro nome que vem à mente é o de Carter.

Vida longa à Ruth!

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Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.