‘Pecadores’ merecia a quantidade de indicações que recebeu?
Com 16 indicações ao Oscar, o longa usa vampiros como metáfora para racismo, identidade e apagamento cultural.
Por Cultura de Lamparina

‘Pecadores’ tem chamado muita atenção por conta do alto número de indicações que recebeu na maior premiação do cinema, o Oscar.
Ao todo, foram 16 indicações, entre elas Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Original.
Nesta crítica, iremos avaliar cada uma das indicações que o longa recebeu e se ele realmente merece ocupar esses espaços.
Qual é a história e por que ela é tão importante para a atualidade?
Situada em 1932, a ficção acompanha Sammie Moore (Miles Caton) ao lado de seus primos gêmeos Smoke e Stack (Michael B. Jordan), ou Fumaça e Fuligem na versão dublada, na construção de um juke joint — um bar com música ao vivo — até que são atacados por criaturas diabólicas sugadoras de sangue.
Mas o filme vai além de uma simples história de vampiros: trata-se de uma narrativa sobre ancestralidade, envolvendo várias culturas, com enfoque maior na cultura negra.
Sammie é o meio por onde toda essa ancestralidade é acessada, através de sua voz e do blues tocado em seu violão. Seu pai o lembra constantemente de que seu dom também é sua maldição.
A mensagem que o diretor Ryan Coogler quer transmitir é clara: a cultura negra é, ao mesmo tempo, a riqueza de um povo e alvo de perseguição histórica por parte dos brancos. Ao mostrar que não apenas a cultura negra, mas também a oriental e outras tradições são afetadas, a mensagem se amplia para além da Europa.
Em um país tão diverso e que hoje persegue imigrantes de forma violenta e institucional, como os Estados Unidos, essa mensagem de valorização cultural é importantíssima, já que busca combater a violência por meio da afirmação identitária.
Coogler usa os vampiros como alegoria à Europa. Afinal, os vampiros como conhecemos foram consolidados na literatura europeia do século XVIII. Na história do diretor e roteirista, essas criaturas não sugam apenas o sangue de suas vítimas, mas também a vida, a memória e, por fim, a cultura dos povos diferentes deles. Muitas vezes aparecem com um discurso apaziguador de tensões internas — semelhante à forma como os europeus justificaram a invasão e colonização da África e de outros continentes.
É essa história que garantiu ao filme a indicação a Melhor Roteiro Original — e, pela força de seu tema, a indicação parece merecida.
Qual é a beleza visual do filme?

Toda a ambientação visual de um filme depende de uma boa direção de arte, fotografia, figurino, maquiagem, cabelo e efeitos visuais.
Embora beleza seja um conceito subjetivo, algumas escolhas estéticas funcionam melhor do que outras.
E, no caso de ‘Pecadores’, algumas decisões podem não contribuir tanto para o que a história busca retratar.
A fotografia com filtro amarelo é historicamente associada, no cinema, a filmes ambientados em culturas latinas ou em contextos de imigração. Em geral, esse recurso busca transmitir a sensação de calor do ambiente onde a história se passa. No entanto, aqui essa tonalidade se torna predominante, aparecendo principalmente em cenas com alto grau de violência.
Enquanto isso, cenários europeus e cenas mais pacíficas tendem a receber filtros azulados, criando uma informação visual que acaba adquirindo uma conotação mais racial do que climática.
Esse recurso visual amarelado predomina durante praticamente todo o longa.
Além disso, seu uso se torna contraditório em cenas que buscam valorizar diferentes culturas, como na sequência da canção original ‘I Lied to You’. Nessas passagens, em que as cores dos figurinos étnicos poderiam ganhar destaque, elas acabam ficando opacas.
Outro elemento que não mantém coerência com o restante da obra são os efeitos visuais.
Nas cenas introdutórias dos vampiros, os efeitos são contidos e silenciosos, retratando essas criaturas como caçadores, com olhos vermelhos semelhantes aos olhos amarelos de lobos em busca de presa.
Já nas cenas finais, os efeitos antes contidos tornam-se exagerados, transformando criaturas discretas em figuras dramáticas.
Fotografia e efeitos visuais, em conjunto, acabam prejudicando parte da direção artística do longa, já que o visual nem sempre dialoga com o roteiro.
Ainda assim, é necessário reconhecer que a montagem e o trabalho de maquiagem e cabelo são muito eficientes, seja ao criar dinamismo entre os cortes, seja ao reforçar a representatividade cultural dos personagens.
Mas a alma do filme está no lugar certo?
Grande parte do longa depende do som e da trilha sonora para criar sua essência — sua alma. E é justamente nesses elementos que o filme mais se destaca, além das performances do elenco.
A música original ‘I Lied to You’, por si só, sintetiza o núcleo da história. A canção sugere que a verdade é dura demais e que o filme “mente” para o espectador ao utilizar alegorias — mas ainda assim deixa pistas visíveis do que esconde, forçando o público a refletir sobre essas metáforas e questionar o verdadeiro tema da obra: a possibilidade de combater o racismo através da valorização de culturas historicamente marginalizadas.
O design de som e a trilha acompanham essa proposta.
Quanto às performances de Michael B. Jordan e Delroy Lindo, indicados ao Oscar de Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente, ambas são impactantes como seus personagens exigem. No entanto, o foco narrativo recai com tanta força sobre o jovem Sammie Moore, interpretado por Miles Caton, que o estreante acaba se destacando ainda mais. Isso talvez revele uma aposta mais segura da campanha do filme em nomes já consagrados.
Já a atuação de Wunmi Mosaku, no papel de Annie — interesse romântico de Fumaça — é um ponto fora da curva. A atriz transmite a segurança que sua personagem exige, funcionando quase como uma conselheira dos protagonistas, uma espécie de oráculo ou sacerdotisa.
Essas performances fortes também são resultado do trabalho de seleção de elenco conduzido por Francine Maisler, que escolheu intérpretes muito alinhados aos personagens do roteiro.
Afinal, merece ou não ser o Melhor Filme do ano?
Por fim, entre todas as categorias analisadas, talvez as que gerem mais dúvidas sejam duas das principais da noite: Melhor Direção e Melhor Filme.
No caso da direção, Ryan Coogler parece ter feito o melhor possível com os elementos disponíveis para dar vida ao texto. É provável que, sem sua condução, os problemas do filme fossem ainda mais evidentes. Dificilmente outro diretor conseguiria visualizar certas nuances da narrativa, especialmente por ele fazer parte do mesmo contexto cultural retratado pelos protagonistas.
Mesmo com os problemas na direção de arte, sua indicação parece justificável.
Quanto ao prêmio de Melhor Filme, analisando o conjunto das indicações, é possível argumentar que ‘Pecadores’ seja realmente um dos títulos mais fortes do ano. Trata-se de um filme com potencial para marcar uma geração, tanto pela força de sua temática quanto pela ambição de sua execução.
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Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.