Os setes estágios de luto representados nos filmes indicados ao Oscar 2026
Na 98 edição da maior premiação de cinema, o luto foi um dos temas mais explorados em diversas obras.
Por Inácio de Carvalho
Choque, negação, culpa, raiva, barganha, depressão e aceitação. Esses são os sete estágios do luto. Essa teoria organiza os sentimentos que normalmente as pessoas sentem quando perdem alguém ou algo. É um ciclo, nessa temporada filmes como ‘A Voz de Hind Rajab (2025) – Kaouther Ben Hania’, ‘Pecadores (2025)-Ryan Coogler’, ‘Valor sentimental (2025)- Joachim Trier’, ‘Uma Batalha Após a Outra(2025)- Paul Thomas Anderson’, ‘O Agente Secreto(2025)- Kleber Mendonça Filho’, ‘Hamnet (2025)- Chloe Zhao’ e ‘Frankenstein (2025)- Guillermo Del Toro’, exploram cada um uma fase específica do luto e as suas consequências fazem com que a trama do longa desenrole.
Choque: ‘A Voz de Hind Rajab (2025)’- Kaouther Ben Hania

O longa tunisiano indicado na categoria de melhor filme estrangeiro mescla ficção e realidade. A obra tem como cenário uma central de atendimento voluntário que ajuda vítimas em Gaza. Utilizam uma ligação real, um documentário sonoro da pequena Hind de 5 anos, presa em um carro atingido por um bombardeio israelense, pedindo por ajuda, ela é a única sobrevivente.
Nos estágios do luto, o choque é o primeiro, é quando se recebe a notícia. É a síntese de uma expressão popular: “não há nada o que fazer, Inês está morta”. Em meio a esse choque e a agonia de não poder fazer nada, a diretora Kaouther Ben Hania constrói sua narrativa em cima disso. Na adrenalina de “precisamos fazer algo” e ao mesmo tempo “como iremos fazer algo”. Esse sentimento faz com que o telespectador fique preso à relação dos personagens em resolver aquele conflito.
Negação: ‘Pecadores’ (2025)-Ryan Coogler’

O maior indicado da história da premiação, com 16 categorias, chega com força nas principais categorias, favoritas em várias. Conta a história dos gêmeos Fumaça e Fuligem (Michael B. Jordan), em busca de abrir um clube de blues, um espaço voltado para pessoas negras no sul dos Estados Unidos. Até que a festa começa a virar enterro e vampiros atacam o lugar. Daqui para frente teremos spoilers, caso lhe incomode, passe para o próximo item ou leia após assistir o filme.
Ao decorrer da história, logo no início, descobrimos que Fumaça e Annie (Wunmi Mosaku) tiveram um relacionamento e um filho que faleceu bebê. Mais à frente, no clímax da obra, Fuligem é transformado em vampiro, e Fumaça nega-se a acreditar que aquilo aconteceu com seu irmão. Nega-se principalmente a compreender que perdeu o irmão que ele conhecia. É o segundo estágio do luto, ele faz com que compreenda o que aconteceu e não aceita o ocorrido. Essa relação guia o protagonista e o longa.
Culpa: ‘Valor sentimental’ (2025)- Joachim Trier

Valor Sentimental, longa norueguês, conta a relação de um pai, Gustav (Stellan Skarsgård), que retorna à sua casa e ao encontro das suas duas filhas, Nora e Agnes (Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas), após a morte da mãe delas. Ele é um diretor de cinema, e sua filha mais velha, Nora, é atriz. Ele a convida para fazer parte do seu filme e diz que não conseguiria sem ela. Reviravolta, ele consegue, então chama a atriz estadunidense Rachel Kemp (Elle Fanning) para fazer o papel que havia oferecido à filha, e o filme começa a correr.
A relação dessa família é descomunal, a proposta do Gustav em oferecer o filme para sua filha demonstra como uma tentativa de acordo de paz, uma desculpa pela ausência dele e pela morte da mãe das meninas. Há uma lembrança das irmãs crianças em um dos filmes do seu pai, em que há soldados de guerra e uma das irmãs se sacrifica para que a outra possa fugir. A atriz que interpreta a que se sacrifica é Nora. Na realidade do filme, ela carrega toda a dor do abandono para si, em proteção à sua irmã, para que ela não se sinta culpada ou sozinha pelo abandono do pai. Não é por acaso que o retorno desse personagem seja logo em um enterro, e que a culpa seja um dos pilares de sustentação dessa obra.
Raiva: ‘Uma Batalha Após a Outra’ (2025)- Paul Thomas Anderson

O seu título resume o ponto central do longa, ganhador de melhor filme de comédia do Globo de Ouro e melhor filme pelo ‘Critics Choice’, um dos favoritos da temporada. É um filme de guerra, em síntese, de batalhas. A trama inicia ao contar a história de Perfídia (Teyana Taylor), uma rebelde revolucionária lutando contra um grupo dominante de supremacistas brancos. As relações entre esses dois grupos tornam-se tensas, e ela deixa a filha recém-nascida, Willa (Chase Infiniti), com o pai da criança (Leonardo DiCaprio). Depois disso, acontece um salto temporal de 16 anos e vemos essa criança já adolescente/quase adulta tentando entender tudo que está acontecendo naquele mundo.
Além da palavra batalha, raiva resume bem esse longa, e como essas relações afetam de maneiras diferentes cada um dos personagens. Esse sentimento é o quarto estágio do luto, o momento em que você grita e quer destruir tudo ao seu redor para cessar a dor que está sentindo e o sentimento de inconformidade. O luto nesse longa é de uma sociedade que não existe mais, um sossego que não existe mais, uma tranquilidade que não existe mais, uma mãe e esposa que não existem mais.
Barganha: ‘O Agente Secreto’ (2025) – Kleber Mendonça Filho

O longa brasileiro que chegou com tudo na gringa, acumulando vários prêmios, dentre eles: o Globo de Ouro em melhor filme em língua não inglesa, ‘Critics Choice’ em melhor filme estrangeiro. Esperamos também o Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro, que conta a história de Marcelo/Armando (Wagner Moura), (que tem que assistir ao filme para entender isso). O ponto central da trama é o nosso protagonista em Recife com o intuito de pegar seu filho e se mudar com ele para outro país, longe de um conflito/briga que encontraram no caminho de Armando. Ele fica hospedado em uma casa só para refugiados, comandada por Dona Sebastiana (Tânia Maria).
Há uma cena em que todos os moradores desse lugar estão juntos, cada um de um canto e por razões diversas, planejando uma nova vida. Essa ação é a representação da barganha, onde todos estão enlutados pelo que perderam, mas a vida tem que continuar e, mesmo não curados 100%, precisam de novos planos e novas perspectivas.
Depressão: ‘Hamnet’ (2025) – Chloe Zhao

Adaptação do livro homônimo, a trama conta a história da família do escritor William Shakespeare (Paul Mescal). O subtítulo no Brasil traz uma frase interessante para quem conhece o autor e nos instiga a pesquisar essa relação. ‘Hamnet, a vida antes de Hamlet’, essa peça do autor inglês é uma obra pertencente ao cânone mundial. Retomando o contexto do filme, conhecemos a família de Shakespeare, em especial sua esposa e filhos. Agnes (Jessie Buckley) é a protagonista desse filme, e atenção caso ainda não tenha visto o filme, vem aí spoilers! Ela tinha uma visão de que só teria dois filhos, contudo, na sua segunda gestação, ela teve gêmeos, Hamnet (Jacobi Jupe) e Judith (Olivia Lynes), que havia nascido mais fraca. Ela sempre temia que sua filha iria morrer, até que, na verdade, foi seu filho, que falece aos 11 anos.
A dor que você sente ao ver a Agnes com seu filho morto no colo gritando, lembra instantaneamente a Pietá, obra do Michelangelo. Você assiste sua dor crescente, escuta seu grito de agonia, suas lágrimas. Em ‘Minha Mãe é uma Peça’, dona Hermínia (Paulo Gustavo) fala: “Quando uma mãe perde um filho, todas nós perdemos um pouco os nossos.” Ao acompanhar aquela família, que nasce e cresce, a morte dessa criança nos causa revolta. Naquele contexto histórico, não havia uma diferença gramatical tão específica entre Hamnet e Hamlet. Quando William escreve a peça, Agnes se enfurece com seu marido e vai assistir à peça. Nesse momento, a depressão atinge uma outra camada, a primeira pela perda dolorosa de um filho e agora a representação de um futuro o qual ele não terá, mas naquele palco, naquele espaço, talvez seu filho poderia ter vivido isso. Ela e os outros figurantes abrem os braços como se fossem abraçá-los, como um Deus quando chama para o seu lado e de braços abertos com os anjos os recebem. Colocando-me na narrativa, quando assisti Hamnet, vi um post de Mirthes Renata, mãe do menino Miguel, criança que faleceu por negligência de Sari Corte Real. A relação dessas duas mães que esperavam ver seus filhos terem futuros, que foram cessados pela realidade.
Aceitação: ‘Frankenstein ’(2025)- Guillermo Del Toro

O último filme dessa matéria passa por todos os estágios citados anteriormente, mas decidi falar do final dele. Aceitação, a obra homônima à célebre obra da Mary Shelley, era muito aguardada pelos fãs do diretor que demorou cerca de 25 a 30 anos, segundo o Del Toro. O filme conta a história do doutor Victor Frankenstein (Oscar Isaac), que decide criar vida com partes do corpo de vários homens com o intuito de criar a criatura perfeita (Jacob Elordi). As coisas fogem do seu controle e, para saber mais, só assistindo ao filme. Contudo, quero falar do final dele, então segue o mesmo esquema citado anteriormente.
O doutor Victor Frankenstein passa por uma série de mortes e lutos durante o filme: sua mãe, seu pai, seu irmão e sua cunhada. Até que ele tenta se livrar/matar sua criação, contudo não consegue, ele se regenera. Começa então uma perseguição, a relação de quem é o verdadeiro monstro é colocada em evidência. Nos 45 minutos do segundo tempo, eles conversam, no leito de morte de Victor, e ele reconhece a criatura como uma espécie de filho. E nessa conversa ele morre em paz, e também dá a “paz” que a criatura tanto desejava. Ambos aceitam a dor do luto, a de todas as perdas do Frankenstein, e do retorno à vida e da solidão da criatura.
E aí, já sabia que existem os 7 estágios do luto? Se curtiu, leia outras matérias que produzimos aqui no Cine Ninja sobre os filmes indicados ao Oscar. Acompanhe a gente para mais matérias desse estilo, até a próxima!
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.