O guia de revolta de Zootopia 2
Após um filme falando sobre perfilamento de espécie, dessa vez a história fala sobre colonização e controle da mídia
Por Manoel Cunha

Zootopia 2 é um filme de animação e sequência de um dos maiores sucessos da última década da Walt Disney Animation Studios. A história acompanha novamente a coelha Judy Hopps e o raposo Nick Wilde em mais uma aventura — desta vez, para desvendar segredos da cidade que dá nome ao longa.
Se alguém me dissesse, no início do ano passado, que em 2025 um dos maiores sucessos da Disney abordaria temas como racismo, culpabilização e criminalização de imigrantes, eu provavelmente não acreditaria. Hoje, vendo o filme disputar o prêmio da Academy Awards, só consigo imaginar como foi o processo de escrita dessa história.
Na trama, Judy conhece Gary A’Cobra, um réptil que é introduzido ilegalmente na cidade — algo que não acontecia há anos, já que cobras são proibidas de entrar em Zootopia.
Essa proibição surgiu após um ataque envolvendo uma cobra, ocorrido anos antes do início dos acontecimentos do filme.
No presente da narrativa, espécies peçonhentas passaram a ser vistas como uma ameaça para todos os outros animais. Como consequência, foram deportadas e enviadas para outro país, criando uma divisão que estrutura o conflito central da história.

Gary entra de forma ilegal em Zootopia 2 para encontrar o diário da família Licesley, uma dinastia de ultra-ricos — linces que dominam a cidade pelas sombras.
Segundo Gary, o diário contém informações capazes de comprovar que o sistema de muralhas térmicas que permite a convivência de diferentes espécies no mesmo território foi, na verdade, desenvolvido pelas cobras.
Lançado no primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump — em um período no qual os inimigos da vez são frequentemente retratados como imigrantes e povos árabes —, ver uma das maiores empresas de entretenimento do mundo produzir um filme infantil com uma mensagem como a de Zootopia 2 chega a parecer quase inimaginável.
Mais do que isso: a mensagem do filme não está escondida em camadas profundas, como ocorre com algumas referências cinematográficas. A busca de Gary A’Cobra pelo passado de sua família é explícita.
Obviamente, em um filme com menos de duas horas e totalmente voltado ao público infantil, seria difícil esperar uma abordagem direta sobre a expulsão de uma espécie inteira — tratada como inerentemente violenta e criminalizada apenas por existir.
Ainda assim, Zootopia 2 consegue abordar o tema de forma inteligente, cutucando governos comandados por bilionários e questionando a lógica de vilanização do desconhecido.

Tudo isso é muito interessante — mas filmes como esse sempre precisam ser vistos com uma certa pitada de cinismo.
No fim das contas, Zootopia 2 arrecadou mais de um bilhão de dólares ao redor do mundo. Parte desse dinheiro acaba circulando dentro de um sistema político em que grandes corporações financiam campanhas e grupos de extrema direita nos United States.
A The Walt Disney Company, afinal, é conhecida por operar constantemente em um jogo de “toma lá, dá cá” quando o assunto são suas posições públicas.
Em um momento, anuncia personagens LGBTQIAP+ em seus filmes. Em outro, retira alguns desses personagens dos holofotes ou reduz sua presença nas histórias.
Em determinadas ocasiões, posiciona-se contra projetos de lei considerados homofóbicos — enquanto, ao mesmo tempo, recursos da própria empresa já foram destinados a campanhas de senadores e governadores alinhados a pautas conservadoras.
O movimento é conhecido: a empresa demite um apresentador por comentários envolvendo um podcaster de extrema direita e, pouco tempo depois, o recontrata ao perceber a perda de milhões de dólares em assinaturas provocada pela reação do público.
Em nenhum momento eu disse que esse movimento é honesto por parte da Disney.
Ainda assim, Zootopia 2 consegue, apesar de tudo, apresentar às crianças uma ideia importante: a de que o desconhecido muitas vezes é colocado na posição de criminoso antes mesmo de ser compreendido.
E talvez essa seja justamente a ironia mais interessante do filme.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.