A premiação mobiliza a atenção da indústria e do público em todo o mundo. Foto: popnow.com.br

por Amanda Isarrá

O Oscar 2026, realizado em Los Angeles, reúne alguns dos principais nomes da indústria cinematográfica mundial. A cerimônia premia produções de destaque e mobiliza a atenção de milhões de espectadores. Mais do que anunciar vencedores, ela influencia o que passa a ser reconhecido como “grande cinema”, ao consagrar determinados filmes, o Oscar legitima estilos narrativos e escolhas estéticas. 

A origem e o peso histórico do Oscar

Criado em 1929 pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar surgiu com o objetivo de reconhecer conquistas artísticas e técnicas no cinema e com o passar das décadas, a premiação tornou-se uma das mais influentes do audiovisual, seus vencedores costumam ganhar grande visibilidade internacional.

Filmes indicados ou premiados ampliam sua circulação global, e tal reconhecimento fortalece determinados padrões narrativos e visuais, assim, o Oscar influencia não apenas a indústria, a premiação também afeta a forma como o público percebe e valoriza o cinema.

Filmes premiados costumam influenciar padrões estéticos no cinema contemporâneo. Walter Salles com o Oscar de melhor filme internacional por ‘Ainda estou aqui’ — Foto: Frederic J. Brown / AFP

O olhar da neuroestética

A neuroestética investiga como o cérebro humano responde a experiências artísticas. O campo busca compreender por que certas imagens e narrativas provocam maior impacto emocional. O neurocientista Semir Zeki, professor da University College London e um dos pioneiros da neuroestética, explica que a arte mobiliza sistemas cerebrais ligados à percepção visual e ao prazer estético.

“A função da arte é explorar os mecanismos do cérebro responsáveis pela percepção visual e pela experiência da beleza”, afirma Zeki em Inner Vision: An Exploration of Art and the Brain (Oxford University Press, 1999).

No cinema, esses mecanismos são ativados por elementos como enquadramento, ritmo narrativo, luz e composição visual, logo, a repetição de certos estilos premiados contribui para consolidar padrões estéticos reconhecidos pelo público.

O neurologista Anjan Chatterjee, professor da Universidade da Pensilvânia e autor do livro The Aesthetic Brain (Oxford University Press, 2014), destaca que a experiência estética também é influenciada pelo contexto cultural.

Nossa experiência estética não depende apenas das propriedades da obra, mas também das expectativas e referências culturais que moldam nossa percepção”, explica o pesquisador.

Nesse sentido, premiações como o Oscar ajudam a estabelecer referências culturais, ao legitimar determinados estilos narrativos e visuais, a Academia influencia a forma como o público percebe o cinema contemporâneo.

As disputas simbólicas no cinema contemporâneo

Nos últimos anos, o Oscar passou por críticas e transformações. Debates sobre diversidade e representatividade evidenciam disputas simbólicas sobre quem pode contar histórias e quais narrativas ganham legitimidade no cinema global. O movimento #OscarsSoWhite, por exemplo, expôs a baixa diversidade racial entre indicados e vencedores, pressionando a Academia a rever seus critérios e ampliar a representatividade.

Outra disputa envolve o próprio modelo de produção cinematográfica. Durante décadas, filmes lançados em salas tradicionais dominaram a premiação. Com o avanço das plataformas de streaming, produções distribuídas por empresas como Netflix, Amazon Prime Video e Apple TV+, como Roma (2018), O Ataque dos Cães (2021) e CODA (2021), passaram a disputar espaço e reconhecimento no Oscar.

Esse cenário revela uma tensão entre o modelo tradicional da indústria e novas formas de produção e circulação audiovisual.

postagem do X 


Os documentários indicados e a construção do imaginário contemporâneo

Os documentários indicados ao Oscar 2026 mostram como a premiação também legitima narrativas sobre conflitos sociais, política e direitos humanos. As obras selecionadas abordam temas que atravessam debates globais e mobilizam diferentes formas de percepção do público, ao destacar essas histórias, a Academia amplia a visibilidade de determinados temas e contribui para consolidar imaginários coletivos sobre justiça, poder e resistência. A escolha desses filmes também dialoga com a neuroestética, já que narrativas que despertam empatia e identificação tendem a gerar maior impacto emocional no espectador.

The Alabama Solution (A Solução do Alabama)

Em The Alabama Solution, dirigido por Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman, investiga-se a crise do sistema prisional no estado do Alabama, nos Estados Unidos. O documentário revela denúncias sobre superlotação e violência dentro das prisões, a obra constrói um imaginário crítico sobre o encarceramento em massa. A estética observacional aproxima o espectador da realidade retratada e intensifica a resposta empática do público.

Come See Me in the Good Light (Venha Me Ver Sob a Boa Luz)

Já em Come See Me in the Good Light, dirigido por Ryan White, acompanhamos a relação entre artistas e o enfrentamento da doença e da mortalidade. A narrativa explora temas como amor, memória e vulnerabilidade, o filme constrói um imaginário marcado pela intimidade e pela fragilidade da experiência humana. Histórias centradas em vínculos afetivos tendem a ativar mecanismos de empatia e identificação emocional no espectador.

Cutting Through Rocks (Cortando as Rochas)

Aqui em Cutting Through Rocks, Dirigido por Sara Khaki e Mohammadreza Eyni, acompanha-se a trajetória de uma mulher que enfrenta estruturas políticas e sociais conservadoras em sua comunidade. O documentário aborda desigualdades de gênero e disputas por autonomia, nela se constrói um imaginário de resistência feminina. A estética privilegia a observação cotidiana e o retrato humano da protagonista.

Mr. Nobody Against Putin (Um Zé Ninguém Contra Putin)

Quando enfim chegamos a Mr. Nobody Against Putin, dirigido por David Borenstein e Pavel Talankin, a narrativa segue um cidadão comum que desafia o poder político na Rússia. O documentário explora os limites da liberdade de expressão em contextos autoritários. Ao focar em um personagem anônimo, o filme reforça o imaginário do indivíduo como agente de transformação.

The Perfect Neighbor (A Vizinha Perfeita)

Aqui em The Perfect Neighbor, dirigido por Geeta Gandbhir, podemos examinar conflitos entre vizinhos que revelam tensões raciais e sociais nos Estados Unidos, a obra utiliza registros reais e reconstruções narrativas para explorar episódios marcados por violência e preconceito. O documentário transforma conflitos cotidianos em reflexão sobre medo, vigilância e desigualdade social. A presença desses documentários entre os indicados reforça como o Oscar também funciona como um espaço de legitimação simbólica, capaz de ampliar a visibilidade de narrativas que ajudam a interpretar os conflitos do mundo contemporâneo.

Por fim, mais do que uma celebração anual do cinema, o Oscar permanece como um dos principais mecanismos de legitimação estética da indústria audiovisual, ao premiar —- e aqui não me refiro aos documentários desse ano, indicados —— determinados filmes e estilos visuais, a Academia influencia o que passa a ser reconhecido como referência de qualidade no cinema mundial. Esse processo afeta tanto a produção cinematográfica quanto a experiência do público. Em um cenário marcado pelo crescimento do streaming e pela diversidade de narrativas, as escolhas do Oscar 2026 também indicam possíveis caminhos para o futuro do cinema.  Para além de revelar vencedores, a premiação continua participando da construção do imaginário cultural que define o que o mundo entende como cinema e quiçá, o que fazemos a partir daí.

Referências

CHATTERJEE, Anjan. The Aesthetic Brain: How We Evolved to Desire Beauty and Enjoy Art. Oxford: Oxford University Press, 2014

ZEKI, Semir. Inner Vision: An Exploration of Art and the Brain. Oxford: Oxford University Press, 1999.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.