Do absurdo à provocação: por que Bugonia pode ser um dos filmes mais inquietantes do Oscar 2026

Novo filme de Yorgos Lanthimos mistura conspiração e humor ácido para revelar o absurdo da atualidade

Por Lohuama Alves

 Foto: Divulgação

Em um momento em que a política global parece cada vez mais atravessada por teorias conspiratórias, desinformação e disputas de narrativa, o cinema volta a recorrer ao absurdo para falar da realidade. É nesse contexto que surge Bugonia, novo filme do diretor grego Yorgos Lanthimos, que pode se tornar uma das obras mais provocativas da corrida pelo Oscar 2026.

A proposta é, aparentemente, delirante: o sequestro de uma poderosa executiva, sob a crença de que ela é, na verdade, uma alienígena infiltrada na Terra. O que parece uma comédia surreal rapidamente se transforma em uma metáfora sobre paranoia coletiva, manipulação e a fragilidade das narrativas que sustentam o poder.

O longa é estrelado por Emma Stone e Jesse Plemons, dois nomes que já demonstraram afinidade com o cinema desconfortável e provocador de Lanthimos. A presença de Stone, especialmente, reforça a expectativa de um personagem ambíguo: vítima, manipuladora ou símbolo de um sistema maior?

Para quem acompanha os trabalhos do diretor, Bugonia parece dialogar diretamente com obras anteriores como The Lobster e Poor Things. Assim como nesses filmes, Lanthimos utiliza universos estranhos e regras absurdas para falar de temas profundamente humanos, como controle social, moralidade e estruturas de poder.

Mas o novo filme também parece dialogar com um fenômeno muito contemporâneo. Nos últimos anos, teorias conspiratórias que antes circulavam nas margens da internet passaram a ocupar o centro do debate público. Narrativas sobre elites secretas, manipulação global ou ameaças invisíveis ganharam força em redes sociais e até em discursos políticos.

Nesse sentido, Bugonia se aproxima de outras sátiras que usaram o exagero para criticar a realidade, como Don’t Look Up, que transformou a negação científica em uma comédia apocalíptica sobre crise climática e desinformação.

A diferença é que Lanthimos tende a operar em um território ainda mais desconfortável. Seus filmes raramente oferecem respostas fáceis ou heróis claros. Em vez disso, deixam o público preso em um espaço incerto, onde o absurdo revela algo inquietantemente familiar.

É justamente essa capacidade de transformar estranhamento em reflexão política que pode fazer de Bugonia um dos títulos mais comentados da temporada de premiações. Em uma corrida pelo Academy Awards, que costuma equilibrar prestígio, relevância social e impacto cultural, filmes que capturam o espírito de seu tempo frequentemente ganham força.

Bugonia pode se tornar mais do que um filme excêntrico. Pode ser um retrato ácido de uma era em que a realidade, muitas vezes, parece tão absurda quanto a própria ficção — capaz de incomodar, provocar e desafiar quem a observa.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.