Foto: Valery Hache/ AFP

Por Dani Zetum

Há quatro anos, moro na Itália. Comecei em Torino, depois vim parar em Conegliano, uma cidade pequena entre vinhedos e pedras antigas, com um ritmo que parece ter feito um acordo com o tempo. É bonita de um jeito que às vezes surpreende. Mas foi aqui, longe, que eu entendi melhor do que nunca o que significa ser brasileira.

Tem algo que a migração faz com a memória que nenhum livro explica direito. Quando você mora fora, o Brasil não some, ele se reorganiza dentro de você. Fica mais nítido. As músicas tocam diferente. Um filme do Kleber Mendonça Filho visto daqui carrega um peso que talvez eu não sentisse da mesma forma estando lá. A distância cria uma espécie de lente, a gente se sente muito mais forte.

O engraçado é que tenho ascendência italiana, portanto, há uma parte de mim que pertence a essa terra de um jeito que antecede minha própria história. Mas são quatro anos aqui  e o Brasil ainda me envolve por inteira de um jeito que me surpreende. O povo, a alegria, o jeito de viver, a energia, o nosso jeito, que em nenhum lugar do mundo se vê igual. Isso não se dilui com o tempo, mas se aprofunda, e quem imigra sabe disso.

Poder ter tido a oportunidade de assistir ‘O Agente Secreto’ na estreia mundial em Cannes, além de um baita privilégio,  foi uma experiência estranha e poderosa. Aquela aspereza que o Kleber descreve nos anos 70, a violência velada, o medo cotidiano, o racismo estrutural, eu reconheço. Não porque vivi, mas porque o Brasil me ensinou a reconhecer; e, acredite, quando você mora fora tudo isso fica ainda mais evidente.

Assistir a isso numa tela, morando na Itália, foi uma mistura difícil de explicar, permeada por sentimentos de emoção, nostalgia, saudade, pertencimento, memória e orgulho, tudo ao mesmo tempo. O sentimento orgulhoso de, apesar dos pesares,  sentir que sou brasileira, mais do que nunca. Esse, talvez, seja exatamente esse o exercício que o cinema de Kleber Mendonça Filho nos convida a fazer: não esquecer. Usar o cinema para lembrar, para tornar visível aquilo que muita gente prefere tratar como passado resolvido, quando,  na verdade, ainda existe uma ferida aberta.

Viver fora também amplia esse olhar. Moro hoje em um país que, vale lembrar, foi o berço do fascismo. Ainda sinto, em muitos momentos, um preconceito que às vezes aparece de forma velada, percebendo que aqui até mesmo o racismo assume outras camadas. Não importa se você é branco ou homem, você continua sendo latino, e você pode imaginar que sendo mulher, brasileira, o racismo fica ainda mais forte e evidente. E aquilo que, para alguns, ainda aparece como algo menor ou quase como uma ofensa, para nós é motivo de um orgulho imenso, e acredite o papel do cinema, da nossa cultura é uma força imensa não só para o nosso país, mas para quem vive fora dele. Há, claro, muitas pessoas atentas e críticas a essa história, mas ainda existe uma parte significativa da sociedade que não aprendeu completamente com ela.

E é curioso perceber como muita gente por aqui também desconhece os tempos sombrios que vivemos no Brasil. Falar sobre isso, ver essas histórias ganharem forma no cinema, acaba abrindo conversas inesperadas. De alguma maneira, o filme atravessa fronteiras e ajuda a tornar visível algo que, muitas vezes, permanece invisível para quem está distante.

“Ainda consigo lembrar de 77 — as cores, o cheiro, os carros, o jeito.” — Kleber Mendonça Filho, Cannes 2026

Mas o filme não é só peso. Kleber faz questão de dizer isso: não é só tragédia, não é só malvadeza. E talvez seja exatamente isso o que torna ‘O Agente Secreto’ tão brasileiro, essa capacidade de carregar a dor e ainda assim encontrar espaço para sorrir. Quem é do Brasil sabe do que estou falando bem que a alegria não é negação. É resistência.

Pertencer não é sobre endereço. É sobre o que você carrega  e o que te carrega de volta, mesmo quando você está do outro lado do mundo. Ver o Brasil sendo reconhecido no Oscar daqui, de uma janela italiana, é uma sensação que não cabe numa única palavra. É um orgulho dobrado. É saudade. É a certeza de que algumas histórias precisavam chegar até aqui. 

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.