Foto: Frame de Retirement Plan/John Kelly

Por Maria Eduarda Rodrigues

Eu lerei 100 livros por mês. Vou assistir todos os filmes em preto e branco que existem e irei reformar a casa dos meus pais. Vou fazer cachecóis que não posso usar por conta da minha alergia e assarei, todo dia, um bolo de chocolate. E você?

A animação Plano de Aposentadoria (Retirement Plan), dirigida por John Kelly e narrada por Domhnall Gleeson, acompanha um homem de meia-idade que, cansado da rotina e das obrigações do trabalho, imagina tudo o que pretende fazer quando finalmente se aposentar. Enquanto a lista de planos cresce, o curta revela, com humor e certa melancolia, como muitas pessoas adiam a própria vida para um futuro idealizado.

Lançado em 2024, o curta de sete minutos não condena aqueles que fazem planos para quando se aposentar, na verdade, há até um certo incentivo a isso. Nos primeiros minutos, a narração é calma e serena, e a lista de desejos não foge muito do comum, despertando no espectador um forte senso de identificação. Ele irá ler mais, assistir mais, sair mais. E, convenhamos, fazer tudo isso requer tempo, muito tempo.

É aí que a animação começa a provocar um leve desconforto. Quanto mais a lista aumenta, mais ela parece revelar algo que vai além do entusiasmo. Os planos se acumulam como uma tentativa de compensar o tempo que passou ocupado demais para essas pequenas alegrias. O que parecia apenas uma promessa de liberdade passa a carregar também o peso de tudo o que foi adiado.

Muitos desses planos não nascem na aposentadoria. Eles surgem muito antes, em pequenos desejos interrompidos pela rotina. Ler mais, aprender algo novo, dedicar tempo a quem se ama ou simplesmente experimentar o tédio de uma tarde livre. A lista cresce porque, ao longo dos anos, vamos empilhando vontades adiadas. A aposentadoria passa então a funcionar como um território imaginário onde, finalmente, tudo caberá.

Talvez seja por isso que Plano de Aposentadoria ressoe tanto. Não porque critique o desejo de parar e descansar um dia, mas porque nos lembra de algo simples: muitos dos planos que guardamos para depois são, na verdade, coisas pequenas o suficiente para caber no agora. Entre o trabalho, os compromissos e a pressa cotidiana, seguimos dizendo que faremos tudo isso quando tivermos tempo. O filme apenas sussurra uma dúvida incômoda: e se o tempo que esperamos nunca chegar exatamente como imaginamos?

Se o tempo que esperamos nunca chegar exatamente como imaginamos, talvez o problema não esteja nos planos, mas no lugar onde os colocamos. Ao reservar para o futuro tudo aquilo que desejamos viver com calma, transformamos a aposentadoria em um depósito de sonhos adiados. A animação sugere, com delicadeza, que parte dessa lista talvez não precise esperar tanto.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.