Por Dani Zetum

Foto: Victor Juca

Kleber Mendonça Filho queria fazer um exercício. Usar o cinema para dar uma volta no tempo, olhar para a história do Brasil, do mundo, de Recife e poder dizer: ainda bem que tudo aquilo ficou para trás. Mas não é assim, porque como ele mesmo disse: “Já está todo mundo vendo bem transparente”. 

Isso faz ainda mais sentido quando percebemos que muito do que foi vivido naquele período, infelizmente, continua presente no nosso país. A violência muda de forma, mas não desaparece. O racismo estrutural atravessa gerações. E um medo cotidiano às vezes silencioso, às vezes explícito segue organizando a vida de muita gente décadas depois.

Recife em ‘O Agente Secreto’ não aparece como nostalgia. É diagnóstico. Porque o filme identifica e expõe sintomas de algo que ainda está vivo. A cidade que Kleber reconstrói carrega as tensões de um país que nunca resolveu completamente os seus conflitos. Os anos 70 surgem ali não como um capítulo encerrado da história, mas como uma camada que ainda atravessa o presente, nas relações de poder, nas desigualdades e nas marcas sociais que continuam visíveis nas ruas, nos corpos e na memória coletiva.

E o cinema, nesse caso, não serve para consolar. Serve para não deixar esquecer. Está a serviço da memória. O thriller deixa de ser escapismo e se transforma numa câmera apontada para uma ferida que o Brasil insiste em chamar de cicatriz.“Eu ainda consigo lembrar de 77 — as cores, o cheiro, os carros, o jeito.”— Kleber Mendonça Filho, Cannes 2025.

Trecho da entrevista youtube: – youtube:@bondsfilmes/ entrevista:@danizetum

Mas Kleber não faz um filme de malvadeza, trágico, como o mesmo disse. E isso ele fez questão de deixar claro: o Brasil, mesmo com todas as suas dificuldades, ainda encontra momentos para sorrir. E isso aparece claramente no elenco vivo e vibrante do filme, em que cada personagem se impõe com grandeza e presença. 

A vida acontece no meio do peso. Nós, brasileiros, sabemos bem como é viver assim, na beleza e no caos. Nós amamos, rimos, resistimos. E talvez o cinema que realmente importa seja aquele que mantém viva a memória, mesmo quando o mundo prefere esquecer.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.