Por Losa Breu

Foto: Divulgação

Quanto custa para alcançar o ideal de beleza? 

Ao construir uma fantasia brutal, dirigida pela cineasta e roteirista norueguesa Emilie Blichfeldt, “A Meia-Irmã Feia”, filme inspirado na história de conto de fadas Cinderela, nos leva a conhecer as histórias das personagens femininas e suas densidades, concentradas em um universo no qual buscam avidamente a sensação de pertencimento.

Elvira, a irmã postiça de Cinderela é a parte central de todo o desenvolvimento da trama autodestrutiva, na qual, encantada pela idealização do amor, acredita em seu sonho de casar com o príncipe. No entanto, já sabemos quem será a escolhida pelo membro da realeza, e o caminho para conseguir se tornar o destaque no baile revela a pior face de si. 

Sua mãe, antes descrença da possibilidade de casamento entre Elvira e o príncipe, transforma a mudança física de sua primogênita em um projeto monetário, a fim de tornar-se rica. Alma, irmã de Elvira, não entra nas tramas da mãe por ainda não ter menstruado, porém, no decorrer da história, entendemos que, mesmo se pudesse, ela não aceitaria. 

Elvira aceita remover os aparelhos, fazer um trauma no nariz (variação de rinoplastia), engolir o ovo de um verme para emagrecer, costurar cílios postiços nos olhos e ser subjugada pelo príncipe. Inserida em uma teia na qual está tão obcecada para se casar ao ponto que sua inimiga se torna outra mulher, e a disputa pela posição desloca sua atenção das violências a que Cinderela é submetida. 

Cinderela quer casar para fugir da realidade cruel que vive. 

Elvira quer casar para ser a escolhida. 

No fim, Elvira escolhe cortar os pés para caber em um lugar que não pertence, a corte e o sapato. A mãe, outra mulher, aceita o delírio e contribui para a destruição física e psicológica da própria filha. O príncipe é retratado como um homem horrível, egocêntrico e machista, e Cinderela não está a salvo, mas essa foi a única forma que ela encontrou para sobreviver. 

Todas as decisões são escolhidas baseadas  na ideia de beleza como moeda de troca para mudança de vida, visto que mulheres da classe média, no panorama histórico, ou se casavam com um homem rico ou precisavam estar inseridas em uma  família abastada. Poucas poderiam trabalhar ativamente e serem independentes sem a sombra de um homem, e até mesmo as viúvas estavam condenadas, pois o status social padece junto ao marido. 

No fim, Elvira foi salva, não por um homem, mas pela sua irmã mais nova, enquanto ambas fogem, na cena final, em um cavalo para outro destino.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.