Da prisão ao Oscar: A trajetória de Jafar Panahi
Preso e censurado por anos, o diretor iraniano Jafar Panahi chega ao Oscar com filme sobre repressão política
Por Emilly Almeida

O cineasta iraniano Jafar Panahi chega ao Oscar 2026 com um dos filmes mais comentados da temporada. Seu novo longa, Foi Apenas um Acidente (2025), disputa as categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original ao contar a história de um ex-detento que acredita reconhecer o homem responsável por tê-lo torturado anos antes. A trama conversa diretamente com a trajetória pessoal de Panahi, que foi marcada por décadas de atritos com as autoridades iranianas e por filmes que questionam as restrições políticas e sociais impostas no país.
Em 2010 o diretor foi preso pela primeira vez pelas autoridades do Irã que o acusaram de produzir “propaganda contra o regime”. Condenado a seis anos de prisão e proibido de filmar, viajar para o exterior ou conceder entrevistas por vinte anos, a sentença equivalia, na teoria, ao fim da carreira. Mas isso não aconteceu.
Em 2011, mesmo em prisão domiciliar, Panahi produziu às escondidas o documentário Isto Não é um Filme. Gravado dentro de seu próprio apartamento com o intuito de mostrar sua rotina enquanto preso, o filme foi contrabandeado para fora do Irã por amigos do diretor e exibido no Festival de Cannes, o transformando em um símbolo internacional de resistência artística.
Nos anos seguintes, Jafar continuou filmando apesar da sentença e lançou outros longas aclamados, como Táxi Teerã (2015) e 3 Faces (2018), ambos premiados em festivais. Quinze anos após a primeira condenação, o cineasta ganha novamente reconhecimento internacional por seu trabalho, dessa vez, concorrendo a um prêmio inédito na carreira: o Oscar de melhor filme internacional, pelo longa Foi Apenas um Acidente – uma obra que aborda memórias de prisão política e violência estatal e dialoga diretamente com sua própria trajetória.
Pré-condenação
Antes de tornar-se alvo de perseguição no Irã, Panahi já tinha uma carreira consolidada no país. Nascido em 1960 na cidade de Mianeh, ele serviu no exército durante a Guerra Irã–Iraque e após isso começou sua trajetória artística no início dos anos de 1990, quando passou a filmar mini documentários para a televisão iraniana. Quando jovem, estudou cinema em Teerã, capital do Irã, onde foi aluno do cineasta Abbas Kiarostami, um dos nomes mais conhecidos da chamada nova onda do cinema iraniano, a qual Panahi também passaria a integrar ao produzir longas neorrealistas que criticam o regime imposto no país.
Logo com seu primeiro filme, O Balão Branco (1995), Panahi foi reconhecido no cenário internacional, conquistando o prêmio Caméra d’Or no Festival de Cannes. Dois anos depois, lançou O Espelho, e consolidou sua reputação como um diretor interessado em histórias do cotidiano e em personagens marginalizados pela sociedade.
Primeiros Conflitos
Ao longo dos anos 2000, as obras de Panahi passaram a tratar de maneira mais direta as restrições sociais e políticas impostas pelo governo iraniano. Em O Círculo (2000), o diretor acompanha a trajetória de diferentes mulheres que enfrentam barreiras impostas pela legislação e pelos costumes sociais. O filme, como todos os outros produzidos por Panahi após o lançamento de seu primeiro longa, foi proibido de ser exibido no Irã.
No final da década, quando o país atravessou uma de suas maiores crises políticas desde a Revolução Islâmica de 1979, esse cenário de atrito entre o diretor e as autoridades se intensificou. Após a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad em 2009, milhares de iranianos foram às ruas contestar o resultado das urnas, em protestos que ficaram conhecidos como “Movimento Verde do Irã”.
Como outros artistas e intelectuais do país, Jafar demonstrou apoio público às manifestações, chegando a participar de alguns atos. Meses depois, em março de 2010, agentes de segurança invadiram sua casa em Teerã e o prenderam junto com familiares e colaboradores, acusando-o de produzir conteúdo considerado hostil ao governo.
A prisão atravessou fronteiras e logo ganhou repercussão internacional. Diversos profissionais da indústria cinematográfica se manifestaram publicamente em apoio ao diretor. Entre eles estavam cineastas como Steven Spielberg, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, que assinaram cartas e petições pedindo a libertação de Jafar Panahi. Mesmo com pressão externa, a sentença não foi revogada e as restrições impostas ao diretor permaneceram em vigor.
A segunda prisão Em julho de 2022, Panahi foi detido mais uma vez ao ir ao escritório do promotor em Teerã para perguntar sobre a situação de dois colegas cineastas, Mohammad Rasoulof e Mostafa al-Ahmad, que haviam sido presos poucos dias antes. Ao ser preso, Panahi foi informado de que ainda havia uma sentença antiga, resultante de seu processo de 2010, que poderia ser aplicada, levando-o a cumprir parte da pena que havia sido suspensa ou não totalmente executada.
Panahi ficou encarcerado por sete meses antes de ser libertado em 2023. Durante o tempo que permaneceu no sistema prisional de Evin, em Teerã, Jafar iniciou uma greve de fome em protesto contra sua detenção e as condições de encarceramento. A experiência teve grande impacto pessoal e artístico sobre o diretor e influenciou tematicamente seu trabalho subsequente.

Foi Apenas um Acidente e a corrida pelo Oscar
O longa mais recente de Panahi, Foi Apenas um Acidente, estreou em Cannes em maio de 2025, onde conquistou a Palma de Ouro, prêmio máximo do evento. O filme acompanha a história de Vahid, um mecânico que acredita reconhecer em um cliente o homem responsável por tê‑lo torturado anos antes e busca a ajuda de outros ex-detentos para comprovar a identidade do homem, o que acaba desencadeando em uma mistura de suspense e dilemas morais sobre memória e justiça social.
No dia 22 de janeiro de 2026, o filme foi indicado ao Oscar em duas categorias: Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original, se o longa ganhar qualquer uma das duas, Panahi terá uma estatueta inédita em casa.
Para entrar na disputa por Melhor Filme Internacional, o longa foi submetido pela França, país que o co-produziu. Como os filmes dessa categoria devem ser obrigatoriamente indicados por um país, a decisão francesa abre uma via que dificilmente seria possível se o Irã fosse o responsável pela indicação, considerando a relação turbulenta de Panahi com o governo do país.
O Irã já teve destaque em edições anteriores. O filme Filhos do Paraíso (1997), dirigido por Majid Majidi, foi a primeira produção do país a receber uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e posteriormente A Separação (2011) e O Apartamento (2016), ambos dirigidos Asghar Farhadi, chegaram a vencer a estatueta. Mas ainda que o cinema iraniano já tenha conquistado reconhecimento na premiação, a presença de Foi Apenas um Acidente na corrida pelo Oscar é marcada por um significado particular.
Diferentemente das produções anteriores que chegaram à premiação representando oficialmente o país, o filme de Jafar Panahi alcança essa visibilidade por meio de uma narrativa diretamente marcada por experiências de repressão política. Nesse sentido, sua indicação não se destaca apenas como mais um capítulo da trajetória do cinema iraniano no Oscar, mas como o reconhecimento do trabalho de um diretor que resistiu e lutou fortemente contra a repressão e transformou memória, resistência e a luta de uma nação em linguagem cinematográfica, reafirmando a força de um cinema que continua a dialogar com o mundo mesmo quando enfrenta barreiras dentro de suas próprias fronteiras.