O Brasil de 1977 em O Agente Secreto por meio de documentos e da ambientação
Tipografia, cenários e elementos visuais transportam o público com forte imersão para dentro da narrativa
Por Isabelli Gelinski Plantico

Assistir um filme é na verdade: sentir. O ano é 1977 e o Brasil enfrentava um período de censura e tensão provocado pela ditadura militar. Em meio a esse contexto, o espectador não apenas acompanha a história do protagonista, Marcelo, que é vivido por Wagner Moura, mas é transportado para aquele momento histórico; afinal, passado nunca é passado.
Em ‘O Agente Secreto’ (2025), cenário, ambientação, personagens, tipografia e trilha sonora são algumas das peças fundamentais para situar o público desse contexto. Vogais e consoantes deixam de ser apenas meras palavras ilustrativas e passam a exercer um papel importante na narrativa.
Documentos aparecem como elementos capazes de revelar informações, confirmar acontecimentos e até mesmo contradizer aquilo que algum personagem teria dito; como é o caso da lenda recifense da Perna Cabeluda, uma suposta aparição misteriosa, descrita como uma perna peluda que surgiria pelas ruas do Recife assustando moradores, qual ganha destaque durante o filme.
Foi a perna cabeluda que fez isso
Segundo a lenda, ela teria começado a circular pela imprensa na década de 70 e ajudou a alimentar as paranoias coletivas em meio ao cotidiano marcado pela tensão ditatorial; no fim, acabou realmente se tornando uma história bem cabeluda.
Em um vídeo publicado no Instagram do Canal Arte 1, o diretor Kleber Mendonça Filho conta detalhes da ideia de mesclar a lenda com ‘O Agente Secreto’. Segundo o cineasta, a narrativa funcionava como uma forma indireta de lidar com a censura durante o período da ditadura militar: “Era uma maneira da imprensa transgredir, de certa forma, tirar onda pesada com a censura. Porque diziam que aconteceu, mas não foi a polícia, não foram os militares. Foi a Perna Cabeluda”, afirma o diretor.
Kleber Mendonça também relembra que a referência de uma certa cena tem origem a uma memória afetiva. “Aquele momento em que a Teresa Vitória está lendo o jornal, aquilo é a minha mãe lendo para mim num café da manhã do Diário de Pernambuco. E ela dizendo: ‘mas isso não faz o menor sentido’, porque estava como matéria, não estava como piada nem no suplemento literário, como fábula… estava como matéria”, relembra.

A tipografia por fim, se mostra um papel essencial no decorrer do filme ao ajudar nas revelações da trama. Durante a narrativa, elas possuem o poder de verificar a veracidade dos fatos ditos, mas também podem contradizer os próprios personagens.
A atenção que o diretor, Kleber Mendonça Filho, dedica aos materiais, não se limita apenas à estética; eles cumprem um papel narrativo ao servirem como auxílio para contar a história de Marcelo. Na trama, o personagem, vivido por Wagner Moura, embarca na missão de fugir do seu passado misterioso em São Paulo e recomeçar sua vida do zero na capital pernambucana, Recife. Lá, ele passa a se inserir em um cotidiano marcado por documentos, registros e ambientes burocráticos que reforçam o clima de controle e repressão característico do período.
Recriando 1977
Temos diversas etapas audiovisuais durante a produção de um filme; os documentos e materiais gráficos ajudam a conduzir o fio narrativo, uma linha linear, enquanto a ambientação visual também desempenha um papel essencial nessa construção. É por meio dela, que quem assiste, consegue visitar diretamente das telas: o Brasil de 1977.
Cartazes, ambientes, objetos e locações ajudam a reconstruir a época e contribuem para a sensação de autenticidade, imersão e aprofundamento da história. Ao observar esses detalhes, o público é convidado a perceber nuances da censura, do controle e da tensão que marcaram o cotidiano de muitos brasileiros durante a ditadura militar.A produtora Mariana Jacob, responsável pela direção de produção de ‘O Agente Secreto’, comenta alguns dos desafios enfrentados pela equipe: “Para a produção, a maior dificuldade é de fato você isolar a cidade para que ela apareça em 1977. Brasília também foi outra situação que tivemos que nos adequar. Encontrar uma locação com arquitetura de Brasília em Recife, já era difícil, encontrar locações recifenses lá; encontrar uma de Brasília era nível hard”, relata.

Entre idas e vindas, a solução acabou surgindo de forma inesperada: “Tinha que ter uma reunião para falar sobre um fechamento em uma estrada. De repente, eu entrei naquele escritório e disse: ‘Ei, isso daqui é muito bom. Isso parece Brasília’. As respostas às vezes chegam de forma muito natural”, destaca Mariana.
Apesar das dificuldades, o resultado final deixou a equipe satisfeita. “Apesar do tamanho desse filme e de todas as dificuldades que pudéssemos ter encontrado, e encontramos algumas, deu tudo muito certo. Eu estou bem satisfeita”, conclui Mariana.
Em publicação nas redes sociais, Kleber também comenta parte do processo de filmagem em Brasília: “Em dezembro do ano passado, filmamos em Brasília um pouco de O Agente Secreto. Obrigado, Brasília, hoje devolvemos a acolhida com o filme pronto”, conta.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.