Entenda como o figurino de ‘Frankenstein’ aposta na estética gótica e conquista indicação ao Oscar

Trabalho de Kate Hawley traduz o gótico em figurino e impulsiona Frankenstein na temporada de prêmios

Por Laura Gomes

Foto: Ken Woroner/Netflix © 2025

Um corpete de fitas suíças amarra camadas de tule encharcadas de sangue vermelho-vivo. O impressionante e macabro vestido de noiva de Elizabeth já anuncia a estética do novo ‘Frankenstein’ (2025), dirigido por Guillermo del Toro. Entre referências à morte, à natureza e à religiosidade, o figurino transforma símbolos do gótico em linguagem narrativa, um dos motivos que levaram o trabalho de Kate Hawley à indicação ao Oscar.

O trabalho meticuloso e autêntico da estilista já se consagra como um dos grandes destaques da atual temporada de premiações, com vitórias no BAFTA 2026 e no Costume Designers Guild Award. Agora, pela forma como transforma figurino em narrativa, Hawley desponta como uma das favoritas ao prêmio de Melhor Figurino do Oscar.

A colaboração entre Hawley e Del Toro foi guiada por uma paixão mútua pela arte operática clássica. O diretor queria cores ricas, recusando os tons escuros convencionais e a melancolia visual frequentemente associada à era vitoriana. Hawley disse em entrevista à WWD: “Quando ele te pede para fazer algo, você sabe que será rico e que a colaboração será gratificante”. Juntos, construíram uma paleta que orienta as dinâmicas emocionais da história.

O guarda-roupa de Elizabeth, vivida por Mia Goth, é uma explosão de tons de esmeralda e carmesim. Hawley inspirou-se na entomologia, criando vestidos que lembram asas de borboletas e carapaças de besouros. O resultado é um visual luminoso e naturalista que se opõe diretamente às ambições de controle de Victor. “Ela abraça a natureza em toda a sua extraordinária beleza e horror”, disse a estilista em entrevista à WWD.

A aparência etérea da personagem é reforçada por véus translúcidos e chapéus que lembram halos. Como um escudo simbólico, esses elementos evocam a efemeridade feminina e imagens religiosas, como a Virgem Maria. Um colar de escaravelhos dos arquivos da Tiffany & Co. ajuda a reforçar visualmente essa ideia de metamorfose e proteção. O ápice visual de Elizabeth surge em seu vestido de noiva, com o corpete de fitas suíças usado do lado de fora. Os braços são envolvidos por fitas brancas que lembram ataduras cirúrgicas, numa referência direta à Criatura e ao clássico filme ‘A Noiva de Frankenstein’ (1935), de James Whale. No desfecho da cena, o vestido encharcado de sangue conecta a sua tragédia à da mãe de Victor — também interpretada por Mia Goth — que aparece no início do longa vestida inteiramente de vermelho.

Mia Goth como Elizabeth em Frankenstein Créditos: Ken Woroner/Netflix

Já Victor Frankenstein, interpretado por Oscar Isaac, personifica o caos sedutor de um cientista obstinado. Seu guarda-roupa carrega a vaidade decadente de um dândi e artista vitoriano, mas essa herança é atravessada por uma atitude digna de um astro do rock. As elegantes jaquetas de veludo aparecem sempre amarrotadas, marcadas pelo trabalho do laboratório. A figurinista baseou a estética de Victor em lendas da música como David Bowie, Prince e Mick Jagger. O desleixo com trajes caros mostra alienação do inventor em relação às normas sociais. Manchas vermelhas surgem ao longo do figurino, conectando visualmente seu fervor científico ao trauma da perda da mãe.

“Com a fisicalidade extrema e a irreverência de Oscar, paramos de arrumá-lo entre as gravações […] E isso se tornou parte essencial da interpretação do personagem. Ele tinha roupas lindas, mas as usava de forma irreverente”, disse Hawley em entrevista ao site The Credits.

 Oscar Isaac como Victor Frankenstein em Frankenstein Créditos: Ken Woroner/Netflix

A Criatura, vivida por Jacob Elordi, subverte o terror tradicional ao expor uma vulnerabilidade emocional profunda. O monstro surge usando ataduras cirúrgicas que lembram vestes mortuárias e infantis, revelando sua total falta de proteção diante do mundo. “Há uma sensação de ele ser quase como um filhote de pássaro quando nasce”, disse Hawley à WWD.

À medida que amadurece, a Criatura constrói seu guarda-roupa recolhendo peças pelo caminho. A primeira vestimenta real é um casaco militar retirado de um soldado morto na neve — como se vestisse a memória de outro homem e, com ela, acumulasse consciência humana. Ao longo do filme, suas roupas também carregam as marcas do ambiente: explosões, neve e até ataques de lobos.A silhueta do personagem muda e cresce conforme essas camadas de sobrevivência se acumulam. Hawley contou à British Vogue que o figurino acompanha a evolução do monstro, tornando-se mais robusto à medida que ele ganha força. No fim, essa transformação estética reflete a humanidade recém-adquirida da Criatura, sendo um arco visual que espelha o oposto da degradação de Victor Frankenstein.

Jacob Elordi como Criatura em Frankenstein Créditos: Ken Woroner/Netflix

Mais do que um ornamento de época, em Frankenstein o figurino funciona como fio condutor que interliga visualmente o destino trágico de Victor, Elizabeth e da Criatura. Ao cruzar teologia natural, história da arte e o imaginário do gótico romântico, Kate Hawley materializa no tecido a própria alma da narrativa. É essa capacidade de transformar roupas em espelhos psicológicos que sustenta o favoritismo da figurinista ao Oscar.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.