Psicodelia, Brega, pop: entenda a genialidade por trás da trilha de “O Agente Secreto”
Diversa, meio lado Z e prensada em disco vinil. Essa é a trilha sonora de O Agente Secreto, longa-metragem de Kleber Mendonça Filho indicado a quatro categorias no Oscar.
Por Natália Carvalho

O que separa um cachorro de um ser humano morto estirado no chão de um posto de gasolina? É possível que, ao assistir “O Agente Secreto”, essas e outras perguntas despertadas pela trilha sonora tenham surgido na cabeça do público. Em uma das primeiras cenas de “O Agente Secreto”, longa ambientado em 1977, o rádio do carro toca Waldick Soriano em “Eu Não Sou Cachorro Não”, meteoro fortíssimo do brega nacional, o qual pontua que nada no roteiro de Kleber Mendonça Filho aparece por acaso – nem a música, nem os cachorros que rodeiam o corpo do homem matado a dias. Sacadas muito sensíveis e misturas musicais improváveis permeiam a obra e chamam atenção para a genialidade e entrega do diretor Kleber Mendonça Filho, bem como dos compositores e irmãos Mateus Alves e Tomaz Alves Souza, que assinam a trilha sonora do longa indicado ao Oscar.
Da psicodelia nordestina ao pop
Em entrevista ao podcast Baião de Dois, o compositor Mateus Alves afirmou que as músicas licenciadas – ou seja, aquelas que já existem – foram todas escolhidas por Kleber Mendonça Filho. O diretor, que desde “Aquarius” (2016) provoca fortes emoções no público com a sensibilidade nas escolhas musicais, entrega, em “O Agente Secreto”, o que é possivelmente uma das suas pesquisas mais especiais.
“O Agente Secreto” começa com uma gravação de rádio dos anos 1970 da música “Samba no Arpège”, de Waldir Calmon e Luiz Bandeira. Ao olhar para o outro extremo, a música que encerra o longa é “Não Há Mais Tempo”, na voz de Ângela Maria. Entre essas duas músicas brasileiras, misturas ousadas que vão de Donna Summer à Banda de Pífanos de Caruaru compõem a atmosfera da produção, ambientado no período violento do regime civil ditatorial brasileiro.
A pesquisa de Kleber foi feita em streamings, fitas cassetes, gravações de rádio da época e na loja de CDs e LPs “Passa Disco”, localizada no bairro do Espinheiro, Zona Norte do Recife. Foi nesse espaço rico em mídia física que o diretor descobriu o disco “Desabafo”, do grupo Concerto Viola, que, graças ao filme, foi redescoberto por muitas pessoas. A cena em que o protagonista Marcelo – interpretado por Wagner Moura – coloca para tocar na vitrola a música “Retiro: Tema de Amor Número 3”, produz uma atmosfera de saudade amarga que embala o personagem no momento em que ele abre a mala e organiza memórias na sua nova “morada” em Recife, cuja cena levou ao ouvido de muitas pessoas uma “novidade” sonora adormecida simbolicamente por 50 anos.
Ademais, “Paêbirú”, de Zé Ramalho e Lula Côrtes, está entre as escolhas de Mendonça para a trilha licenciada. O álbum é essencial para a psicodelia nordestina e tornou-se item raro – e caríssimo, diga-se de passagem – depois que uma enchente em Recife levou cerca de mil, das 1300 prensagens do disco, em 1975. Em entrevista ao jornal O Globo, Kleber Mendonça conta que conheceu o LP em 1990 devido ao mangue bit e que “Trilha de Sumé” e “Harpa dos ares”, duas músicas que entraram para o filme, já constavam na primeira versão do roteiro, há pouco mais de três anos.
“‘Paêbiru’ é uma obra-prima da música brasileira, da música feita em Pernambuco. As faixas não só sobreviveram à toda a escrita do roteiro como à montagem e à mixagem “, declarou Kleber Mendonça Filho ao jornal O Globo. “Um dos momentos mais incríveis foi em Paris, vendo o mixador francês trabalhando dois dias em “Trilha de Sumé” e fazendo aquela música ganhar presença. Ela vira um elemento fortíssimo de thriller, se perde num frevo e depois volta para a sequência da troca da perna de boi pela perna cabeluda no IML do Recife. Eu gosto da sua completa imprevisibilidade.”
Banda de Pífanos de Caruaru e trilha sonora original
Uma das cenas mais emblemáticas que constitui “O Agente Secreto’” é a perseguição no Centro do Recife ao som de “A Briga do Cachorro com a Onça”, da Banda de Pífanos de Caruaru. A composição de 1926 contribui muito para a escalada de tensão e causou ansiedade em muita gente na cadeira do cinema. A Banda de Pífanos de Caruaru, fundada em 1924 no sertão de Alagoas por Manuel Clarindo Biano e seus filhos, já tocou para Lampião, influenciou a Tropicália e ganhou um Grammy Latino em 2004. A expectativa é que, em breve, conste nesta lista de feitos a participação na trilha sonora de um filme que levou o Oscar.
Com essa curadoria visceral de músicas licenciadas, a trilha original carregava uma responsabilidade ainda maior; mas, como Kleber e os irmãos Mateus e Tomaz trabalham juntos desde Aquarius (2016), algo próximo de um “match” perfeito já mostrava-se encaminhado.

De acordo com Mateus Alves, o diretor tinha um pedido quanto a trilha sonora original: ele queria que os irmãos fizessem uma trilha atemporal, pois as músicas licenciadas já eram de época. Com esse comando – e com muito talento – Mateus Alves e Tomaz Alves Souza compuseram a trilha original de “O Agente Secreto”. Contudo, como o longa é uma coprodução entre Brasil, França, Holanda e Alemanha, calhou que, no pré carnaval, Mateus e Tomaz foram para a Holanda, onde as músicas foram gravadas.
A atmosfera do Recife
O som de “O Agente Secreto“ não apresenta apenas uma alternância entre som diegético e não diegético. Assim como a performance do Guerreiros do Passo vermelho, no Festival de Cannes, levou um pouco de Pernambuco para a França, “O Agente Secreto” leva um pouco de Recife para quem assiste o filme, e a música se insere como primordial nessa viagem. E para aqueles que não conseguem parar de ouvir, vale a menção de que a trilha sonora, fruto da genialidade e da entrega do diretor Kleber Mendonça Filho e dos irmãos Mateus Alves e Tomaz Alves Souza, virou disco de vinil em uma edição especial da Revista Noize, com direito a um kit com LP duplo.
Esse sucesso, aclamado pelo público e pela crítica, reflete o que há de mais decisivo na trilha sonora do nosso indicado ao Oscar: a pesquisa de Kleber Mendonça Filho. O diretor cria relações duradouras e se envolve verdadeiramente, muito além da percepção do que pode ou não soar bem. Como resultado do processo, desenvolve uma obra complexa, capaz de refletir a sensibilidade de um profissional que, tendo iniciado sua trajetória como crítico, tornou-se cineasta e hoje oferece ao Brasil diversos motivos para se emocionar com o encontro entre o cinema e a música.
“O Agente Secreto (Trilha Sonora Original)”:
Playlist das músicas licenciadas de O Agente Secreto:
Podcast Baião de Dois:
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.