O papel do cinema em “O Agente Secreto” e “Valor Sentimental”
O cinema como arte e território na construção das narrativas.
Por Maria Luiza Sant’Ana Guidugli; Laila Sabrina Shams

Filmes metalinguísticos são declarações de amor à sua própria arte. Este ano, dois dos principais filmes indicados ao Oscar, ambos concorrendo nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Filme, prestam homenagem à sétima arte e às salas de cinema de formas distintas e bem encaixadas em suas respectivas narrativas.
O cinema em “O Agente Secreto”
Em 1977, ano em que se passa “O Agente Secreto” (2025), o Brasil ainda estava sob o AI-5, ato que intensificou a censura no país, dentre outras violações da liberdade. Nos jornais, receitas de bolo tomavam as páginas, ocupando o espaço do que era censurado pelo governo. A partir de 1975, o Diário de Pernambuco passou a criar histórias fictícias que denunciavam a brutalidade do regime contra grupos marginalizados, sendo uma dessas histórias a da “Perna Cabeluda”, que se tornou uma lenda urbana do Recife e está presente no filme de Kleber Mendonça Filho.

Além da censura impressa, também havia censura nos cinemas. “Tubarão”, de Steven Spielberg, não sofreu censura do regime militar, mas, como vemos no filme de Kleber Mendonça Filho, o filme foi taxado como violento e impróprio para certas faixas etárias. A violência do tubarão das telas é transposta para a vida real e mesclada à lenda urbana recifense para tratar da perseguição aos opositores da ditadura: o desaparecimento de um jovem comunista pelos policiais aliados aos regime é mascarada como um acidente envolvendo um tubarão. O cinema se funde à conturbada realidade política do Brasil daquela época: o imaginário fantástico dá ritmo à história centralizada na perseguição política de Armando/Marcelo, um professor universitário, interpretado por Wagner Moura, que concorre ao Oscar na categoria de Melhor Ator.

O cinema como território assume papel importante em “O Agente Secreto”. O Cine São Luiz – cuja história é abordada pelo mesmo diretor no documentário “Retratos Fantasmas” (2023) – é um dos cenários em que se passa uma das cenas mais importantes do filme. Local de trabalho de Seu Alexandre (Carlos Francisco), sogro de Armando, e de sessões lotadas de “Tubarão”, é lá que conhecemos a história envolvendo Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli), que culminou na fuga de Armando e na adoção do pseudônimo Marcelo. É na janela da sala de projeção que vemos o lindo plano em que Armando contempla a cidade de Recife e pensa em sua liberdade. O Cine São Luiz é um refúgio, e também o ponto de partida da eletrizante sequência de perseguição de Bobbi (Gabriel Leone) a Vilmar (Kaiony Venâncio).
A projeção, os ânimos dos espectadores, a ida ao cinema como evento social, nos lembram que, mesmo em meio à cruel ditadura, a arte resistia. E se hoje alguns discursos políticos querem nos fazer esquecer os tempos de repressão que vivemos, o cinema revive as histórias dos sujeitos comuns, os agentes secretos espalhados pelo Brasil, que foram torturados, perseguidos e mortos. Cinema é memória na tela, e Kleber entrega, com seu já conhecido estilo subversivo, uma obra carregada de poderosa crítica social.

O cinema em “Valor Sentimental”
Na produção norueguesa “Valor Sentimental” (2025), também temos as duas “formas” do cinema sendo homenageadas. Em um contexto familiar conturbado, Gustav Borg, um pai distante interpretado pelo ator Stellan Skarsgård, que concorre como Melhor Ator Coadjuvante, vê em seu novo filme uma chance de se reaproximar das filhas Nora, interpretada por Renate Reinsve, indicada a Melhor Atriz, e Agnes, interpretada por Inga Ibsdotter Lilleaas, indicada a Melhor Atriz Coadjuvante. Gustav desenvolve um roteiro baseado na história de sua mãe e oferece o papel principal a Nora, que é atriz de teatro, enquanto que para Agnes, que já atuou com o pai quando criança, ele pede autorização para que o neto Erik (Øyvind Hesjedal Loven) apareça no filme.
Aqui, o cinema arte é uma esperança, um apaziguador. As dores de Gustav são externalizadas em seu novo roteiro, como uma forma de terapia para entender sua relação com a casa da família e seu afastamento. Sua mãe se suicidou e de forma inconsciente Gustav compreende que sua filha Nora passou por algo parecido. Nora chega a perguntar se a irmã havia em algum momento contado ao pai sobre sua tentativa de suícidio e ela, por sua vez, nega tê-lo informado. É através da história de sua mãe que Gustav consegue expressar seu sofrimento pela escolha da ausência, em vez da permanência na vida das filhas.

As salas de cinema também são ressaltadas no longa. Dentro das telas, durante uma entrevista, Gustav é perguntado se seu filme será exibido nos cinemas, visto que é uma produção da Netflix, ao que ele responde: – “Claro, onde mais?”. Fora das telas, Stellan afirma, em seu discurso ao vencer o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante, que “cinema deve ser visto nos cinemas”. Esse discurso, em uma época de protestos pela regulamentação dos streamings, reforça como é importante cultivarmos o território das salas de cinema. Mais que ter filmes exibidos em suas telas, elas representam o fio condutor entre nossas vidas e nosso imaginário, que podem nos fazer aprender, nos reconectar e nos permitir respirar aliviados em um mundo caótico. São culturas e histórias diferentes que se encontram no amor pelo cinema. A arte é universal, atravessa fronteiras e toca almas. Seja como refúgio, seja como agregador, o Cinema sempre está ali para quem precisar.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.