O Oscar e a ilusão do Melhor Filme

Todos os anos o Oscar promete celebrar o melhor do cinema. Mas quantos desses filmes realmente sobrevivem ao tempo?

Por Michelle Daminello

Foto: Central Comics

A história da premiação revela algo curioso: muitas das obras mais influentes já produzidas jamais venceram o prêmio principal. O Oscar pode consagrar artistas, consolidar carreiras, oferecer prestígio e definir o filme do momento, mas dificilmente funciona como um tribunal definitivo da história do cinema. Mais do que premiar filmes, a cerimônia ajuda a definir quais histórias entrarão no imaginário coletivo, quais diretores e atores definirão padrões e, muitas vezes, quais vozes serão excluídas dessa almejada vitrine global.

O que a cerimônia não te mostra

O Oscar nunca foi neutro. Ele espelha o que parte da sociedade valoriza, o que a indústria deseja destacar e o que prefere deixar à margem. Ao longo de sua história foi palco de rivalidades, campanhas estratégicas e negociações de prestígio, ainda que muitos de nós continuemos esperando, de forma ingênua, uma celebração puramente artística.

Desde sua fundação, em 1929, não foi concebido apenas para premiar o “melhor filme”. Como detalha Michael Schulman em Oscar Wars, sua criação visava organizar interesses de estúdios rivais, estabelecer padrões e legitimar certos tipos de produções, criando um sistema de prestígio que se estenderia muito além da qualidade, algo que ainda hoje orienta mais as decisões da indústria do que julgamentos estéticos.

Neste cenário, os indicados de 2026 revelam muito sobre nossas prioridades e ansiedades em um tempo cada vez mais fragmentado. Ao observar os filmes nomeados a Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, alguns padrões são revelados, sugerindo escolhas não apenas artísticas, mas também o tipo de narrativa e de experiência que o momento cultural parece valorizar.

De um lado, vemos histórias profundamente ancoradas na intimidade e na memória, como “Valor Sentimental” (2025) e “Hamnet” (2025), filmes que abordam o luto, os vínculos familiares e a persistência das ausências afetivas. Muitos desses títulos também são dirigidos por cineastas já consagrados, reforçando como a Academia frequentemente privilegia nomes com prestígio crítico e trajetórias consolidadas.

Foto: Omelete

De outro, aparecem obras que apostam no impacto sensorial, como “F1” (2025), reflexo de uma cultura habituada a estímulos rápidos e experiências visuais intensas. Entre esses pólos, há ainda as produções que tentam equilibrar ambição estética e comentário social, como “Pecadores” (2025), além da presença de gêneros antes pouco associados ao Oscar, como a ficção científica absurda de “Bugonia”, que transforma teorias conspiratórias, paranoia digital e poder corporativo em uma sátira desconfortável, e também o terror gótico de “Frankenstein”, indicando uma leve ampliação do tipo de produção que consegue chegar à premiação.

Esses filmes revelam nossa relação atual com o cinema: buscamos ser tocados e impressionados, mas, em um mundo de estímulos, raramente conseguimos nos prender, absorver ou deixar que cada experiência nos transforme de fato. Pelo menos não por muito tempo.

Estamos celebrando filmes que expandem as possibilidades do cinema, ou apenas obras competentes que se encaixam perfeitamente no momento?

A premiação reúne profissionais de diferentes áreas da indústria, e o sistema de votação reflete essa divisão: cada ramo indica os concorrentes de sua própria categoria, enquanto todos os membros votam nas categorias principais na fase final. Na prática, esse processo é inevitavelmente mediado por campanhas, sessões especiais organizadas para a Academia, eventos promovidos pelos estúdios e pela narrativa que se constrói em torno de cada filme durante a temporada de premiações. Nem todos os votantes assistem a todas as obras, e muitas escolhas acabam sendo influenciadas por debates públicos, materiais promocionais e pelo clima que se forma em torno de certos títulos. A experiência de cada filme dentro da corrida pelo Oscar acaba sendo parcial e mediada, e o filme frequentemente chega aos votantes já moldado por uma narrativa.

Enquanto tudo isso acontece, uma transformação muito evidente atravessa a forma como consumimos cinema hoje. O volume de lançamentos aumentou drasticamente: são centenas de filmes se dividindo entre festivais, mídias digitais e campanhas publicitárias. Plataformas de streaming e redes sociais transformaram os filmes em parte de um fluxo contínuo de conteúdo, disputando com séries, vídeos curtos e algoritmos de recomendação.

Nesse ambiente de excessos, a permanência cultural de uma obra se torna mais difícil. Filmes ainda podem alcançar enorme visibilidade momentânea, mas poucos conseguem atravessar décadas com a mesma força de certos clássicos que acabaram marcando gerações.

Foto: divulgação Monet

Essa estrutura não pode ser vista como um defeito, mas sim como reflexo da evolução histórica da premiação. Quando a cerimônia estadunidense surgiu, em 1929, o número de produções elegíveis era muito menor, e os votantes compartilhavam um contexto mais coletivo de exibição e discussão, o que moldava a forma como os filmes eram avaliados.

Ao longo de sua história, a premiação também acompanhou as transformações estéticas e industriais do cinema. Entre as décadas de 1920 e 1960, durante o período conhecido como “Era de Ouro de Hollywood”, predominavam narrativas lineares e produções fortemente controladas pelos grandes estúdios, que operavam sob rígidas normas de conteúdo estabelecidas pelo Código Hays, um conjunto de regras que durante décadas delimitou com precisão quase moralista e conservadora o que podia e não podia aparecer na tela. Ironicamente, muitos autores utilizaram essa fiscalização a seu favor: as tentativas de burlar as regras resultaram em diversas obras disruptivas que acabaram transformando a linguagem do cinema.

A partir do final dos anos 1960, porém, esse modelo começou a se transformar com o surgimento da chamada “Nova Hollywood”. Uma nova geração de diretores, influenciada pelo cinema europeu e pela inquietação cultural da época, passou a introduzir temas mais ambíguos, anti-heróis e experimentações narrativas. Cineastas como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Steven Spielberg e George Lucas redefiniram a relação entre estúdios e autoria, e muitos de seus filmes tornaram-se presenças marcantes nas premiações da Academia ao longo da década de 1970.

A força dessas obras segue ecoando no cinema até hoje. “Tubarão” (1975), por exemplo, continua sendo referência, inclusive em produções recentes como em “O Agente Secreto” (2025), nossa aposta brasileira desse ano.

A partir dos anos 1980 até o início dos anos 2000, consolidou-se um cenário em que blockbusters e cinema autoral coexistiam dentro do ecossistema da indústria. Entre 2000 e 2019, a globalização do mercado e a força dos festivais internacionais ampliaram a presença de produções independentes e de filmes de fora dos Estados Unidos no Oscar. Nos anos de 2020 e 2021, a pandemia de COVID-19 interrompeu as formas tradicionais de lançamento e acelerou mudanças que já estavam se desenhando, como a consolidação do streaming na distribuição das produções audiovisuais..

O Oscar contemporâneo tenta equilibrar diferentes forças: inovação estética e narrativa, reconhecimento industrial e uma legibilidade emocional que converse com um público amplo. A cerimônia funciona como um retrato das tensões entre arte, indústria e cultura popular em cada momento histórico. E, mesmo assim, muita coisa boa acaba ficando de fora.

Quem ganha, quem perde… E quem fica invisível

Segundo dados divulgados pela revista especializada Variety, a Academia possui hoje 11.126 membros, dos quais 10.136 estão ativos. Apenas 21% pertencem à ala internacional, sendo a maior parte britânica. Mulheres somam apenas 35%, e 22% são de comunidades sub-representadas. O grupo segue majoritariamente branco e estadunidense, com os atores formando o maior grupo (1.311 membros).

Esses números explicam porque algumas vozes continuam silenciadas. Eles mostram como padrões consolidados, privilégios históricos e hábitos de consumo definem o que deve ser visto, discutido e celebrado. A escolha dos indicados reconhecem qualidades técnicas e artísticas, mas também indicam quais narrativas vão mobilizar a indústria e o público.Não há histórias centradas em experiências ou identidades LGBTQIA+, e essa ausência evidencia que, em pleno 2026, certos corpos e vivências continuam invisibilizados. Obras que rompem com estruturas narrativas tradicionais, exploram linguagens abstratas ou pertencem a gêneros historicamente desvalorizados geralmente seguem fora do radar da Academia.

O terror, por exemplo, é um dos gêneros mais impactantes para denunciar questões de uma época, funcionando como um espelho metafórico das ansiedades sociais. Ainda assim, suas aparições no Oscar sempre foram pontuais, com obras como “O Exorcista” (1973) e “O Silêncio dos Inocentes” (1991), que ganhou Melhor Filme, algo raríssimo para o gênero.

Em 2026, no entanto, “Pecadores” (2025), filme de terror dirigido por Ryan Coogler, se tornou o mais indicado de toda a história da Academia, com 16 nomeações, superando recordes que eram de “Titanic” (1997), “A Malvada” (1950) e “La La Land” (2016).

Foto: IMDB

Filmes que exigem maior imersão ou exploram estruturas narrativas complexas frequentemente encontram barreiras para se destacar: produções menos convencionais são percebidas como “menos acessíveis” em um sistema de votação amplo e heterogêneo como o da Academia. Por isso, o Oscar contemporâneo tende a privilegiar conforto narrativo, mesmo reconhecendo excelência técnica e impacto emocional. É raro surgir uma obra capaz de desafiar radicalmente a linguagem do cinema ou de redefinir como uma geração pensa e consome imagens, e esse tipo de ousadia continua sendo um privilégio que poucos filmes conseguem alcançar.

Vale recordar um princípio recorrente nos estudos de cinema: um filme não fala apenas da época que representa na tela; ele reflete a época em que foi produzido. Quando mergulha no passado, carrega inquietações, valores e conflitos do momento histórico de sua produção, e é justamente por isso que certas ausências, escolhas e padrões de premiação dizem tanto.

A indicação de diretoras mulheres, por exemplo, expõe décadas de exclusão dentro de uma indústria que ainda associa talento e autoridade à figura masculina e estadunidense. Figuras como Agnès Varda, Chantal Akerman, Claire Denis e muitas outras construíram carreiras notáveis no cinema mundial, mas não receberam indicações às principais categorias do Oscar. Varda só foi celebrada com um Oscar honorário no fim de sua vida, e Wertmüller a primeira mulher indicada ao Oscar de direção, também só conquistou uma estatueta honorária décadas depois.

Alguns dos cineastas mais influentes da história jamais receberam um Oscar competitivo, apesar do impacto visceral de suas obras. Alfred Hitchcock, Ingmar Bergman, Akira Kurosawa e Andrei Tarkovsky transformaram a linguagem cinematográfica e influenciaram gerações de realizadores, mas nunca foram reconhecidos pela Academia no auge de suas carreiras.

Esses casos deixam claro: o Oscar tem enorme visibilidade, mas não é o juízo final da história do cinema. Ainda assim, no inconsciente coletivo, muitos tendem a associar premiação como Melhor Filme a algo extraordinário, como se a estatueta fosse um selo absoluto de qualidade.

A entrada crescente de filmes internacionais no circuito mostra que o mundo do cinema não se limita a Hollywood. Ainda assim, raramente uma produção de fora do eixo EUA-Europa conquista a estatueta de Melhor Filme. Na maior parte das vezes, o caminho se restringe à categoria de Melhor Filme Internacional, quase como querendo dar o recado de “nos colocar no nosso lugar”.

O Oscar é uma idealização do que é considerado bom cinema, é um campo de batalha por visibilidade, memória e legitimidade cultural. Um glamour cuidadosamente encenado, que proporciona diversão ao torcer pelo seu favorito, mas que, muitas vezes, premia como melhor filme aquele que melhor soube jogar. 

Dentro da Academia, relações profissionais, reputação e tendências do momento definem quais categorias brilham e quais filmes ficam de fora. Não são apenas as obras mais ousadas que saem vencedoras, mas aquelas capazes de navegar com eficiência nesse labirinto. E, mesmo assim, tudo pode ser abalado por escândalos, falas mal calculadas ou gestos equivocados, como testemunhamos ano passado com Karla Souza e a atriz Emilia Pérez, ou este ano, com Timothée Chalamet.

Foto: IMDB

O Oscar é uma premiação estadunidense, inserida em uma indústria movida por interesses comerciais, campanhas milionárias e influência cultural. Ouso dizer, e sei que posso estar mexendo em um vespeiro, que os indicados de 2026 seguem uma lógica: filmes tecnicamente sólidos, alguns hiper polidos, com boas atuações e direções competentes, mas poucos capazes de realmente deslocar o espectador ou deixar uma marca duradoura na história do cinema, sobretudo em perspectiva histórica. Pode soar contraditório, e odeio generalizar, mas faço aqui uma exceção: a performance de Jessie Buckley em “Hamnet” (2025) se destaca e merece reconhecimento.

Não se trata apenas de dizer que um filme é “obra‑prima” ou “o melhor do ano”. A minha intenção não é agir como referência absoluta de valor, nem decretar nada, pois esses rótulos sempre acabam refletindo mais a expectativa de cada um do que a própria experiência cinematográfica, e esse não é o ponto desse texto.

Isso também não significa que os filmes indicados careçam de qualidade ou ambição artística. Muitos deles demonstram enorme domínio técnico e narrativo. A questão talvez seja outra: em meio a tantas obras competentes, poucas parecem realmente dispostas a tensionar os limites.

O cinema não nasceu para ser decifrado

Com filmes cada vez mais mastigados, vem à tona a pergunta de Jean‑Luc Godard em “Le dinosaure et le bébé: Dialogue en huit parties” (1967), registrada na série “Cinéastes de notre temps”: por que fazer cinema hoje em dia? E é aí que o impacto da resposta de Fritz Lang ecoa como provocação atemporal: “Se um diretor precisa de palavras para explicar o que quer dizer, na minha opinião, isso não é um bom filme nem um bom realizador.” Para ele, um filme precisa ter algo a dizer em imagens, não em discursos.

Diante da sobrecarga de estímulos que recebemos atualmente, estamos numa encruzilhada: o cinema pode ser espetáculo confortável, superficial e efêmero, ou pode ser uma experiência que nos tira do eixo, que nos exige e incomoda, que nos força a sentir, pensar e refletir de forma diferente.

E se hoje temos liberdade criativa, tecnologia avançada e um cinema mais maduro do que nunca, por que não buscar histórias que nos provoquem verdadeiramente, que nos tirem do lugar comum e que desafiem de forma visceral a nossa maneira de ver e sentir o mundo?

Quando nos deparamos com uma obra assim, muitas vezes corremos para explicações imediatas, vídeos explicando cenas, interpretações de finais, tudo na busca de um sentido. Mas uma das coisas que mais gosto de lembrar e compartilhar, e que aprendi com o mestre David Lynch, que inclusive nunca foi plenamente reconhecido pela Academia, é que você não precisa entender um filme, nem buscar desesperadamente explicações em palavras. Em entrevistas, Lynch repetidamente dizia que ele não explicava seus filmes porque reduziria a experiência e tiraria a magia da imagem. Essa é a essência de sua reflexão: o cinema é para sentir, não apenas para entender.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.